As herdeiras de Ana Terra

As herdeiras de Ana Terra
No Rio Grande do Sul, a mulher também segura a rédea do agronegócio

A força da mulher gaúcha contribuiu para a construção da história do Rio Grande do Sul e por fazer do estado uma potência agrícola


Adair Sobczak

Diz o provérbio que, por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. Na realidade, o correto seria substituirmos o início da frase por ‘ao lado de’. Isso, porque o ‘atrás de’ remete a algo que está escondido.

A mulher, especialmente a ligada ao meio rural, sempre esteve ao lado do homem, trabalhando de igual para igual, embora a cultura patriarcal tenha se tornado uma barreira, que vê a mulher como uma dona-de-casa, quando na realidade, ela é o alicerce de muitas famílias brasileiras.
Mas em pleno século XXI, muitas produtoras rurais ainda são limitadas por ideologias culturais. Entretanto, os novos rumos do agronegócio mundial contribuem para a quebra de paradigmas, ocasionando o redesenho gerencial do meio rural. É que o agronegócio da Nova Era passou a ser regido, não pela força braçal, mas, pela capacidade intelectual e pela rápida adaptabilidade às mudanças, o que vem colocando a mulher lado a lado do homem para o desenvolvimento de estratégias gerenciais, comprovando que ela nunca esteve ‘atrás’.
O Rio Grande do Sul figura como uma potência do agronegócio. De acordo com dados do IBGE, de 2010, da população residente no meio rural no Brasil 47,4% são mulheres, ou seja, mais de 14 milhões. No Rio Grande do Sul, o índice praticamente não se altera. Do total da população rural do estado elas passam de 1,5 milhão, representando 47,6%, ou 759.365 trabalhadoras rurais.


“As mulheres são as principais responsáveis pela produção de alimentos, diretamente envolvidas na produção agrícola, pecuária, leiteira e das agroindústrias, entre outras. Isso tudo movimenta a economia gaúcha, especialmente ao analisarmos que cerca de 70% da alimentação presente em nossas mesas provém da agricultura familiar, onde as mulheres são a maioria”, revela Márcia Santana, secretária estadual de Políticas para Mulheres do Rio Grande do Sul.
A influência da mulher no desenvolvimento do agronegócio no Rio Grande do Sul vem lá do início da colonização da região. Ana Terra, heroína principal da trilogia “O Tempo e o Vento”, do escritor Érico Veríssimo é a personificação dessas mulheres. Enquanto seus maridos, filhos e pais iam para as batalhas, era a força feminina que fazia a vida seguir em frente, mesmo sofrendo com a barbárie dos inimigos, as mulheres cultivavam a terra, tosquiavam as ovelhas, ordenhavam o gado e cuidavam da família.


Troféu Mulher Gaúcha

A importância da mulher gaúcha em todas as frentes socioeconômicas do estado e a realidade vivida pela maioria, que muitas vezes revela situações preocupantes, fez o governo gaúcho criar, em 2011, o Troféu Mulher Gaúcha, concedido anualmente às mulheres que se destacam no desenvolvimento de projetos sociais, econômicos e atividades culturais, direcionadas à valorização da mulher “O troféu é concedido para prendas do Movimento Tradicionalista Gaúcho e mais cinco mulheres que se destacarem em trabalhos sociais e econômicos no Rio Grande do Sul em diferentes áreas”, revela Márcia.
Segundo ela, a distância dos centros urbanos, a invisibilidade de seu trabalho e o reconhecimento de sua contribuição para o desenvolvimento do estado, hoje, as principais dificuldades das mulheres do campo gaúcho. “Muitas (delas) não têm acesso à cidadania, saúde, educação e, principalmente (não possuem) o reconhecimento da sua condição de agricultora familiar, trabalhadora rural, assentada da reforma agrária, quilombola, indígena ou pescadora”, aponta Márcia.


Desta forma, diz a secretária, o SPM/RS atua no sentido de levar (a) capacitação a essas mulheres, para que se fortaleçam e passem a ocupar cada vez mais os espaços de poder e decisão no agronegócio, um setor cada vez mais tecnificado e dinâmico. “A secretaria executa o projeto “Inclusão Produtiva e Combate à Pobreza Extrema”, que propõe o fortalecimento da cidadania e da organização produtiva das mulheres trabalhadoras rurais. Com isso, haverá a formação continuada, capacitação, apoio técnico e jurídico para realização de oficinas, visando à maior participação das mulheres em feiras de agronegócios”, ressalta Márcia.
A meta, segundo a SPM/RS, é abranger 1,6 mil mulheres agricultoras, quilombolas, pescadoras, assentadas, indígenas e agentes da rede pública de ensino, inclusive, em grupos. Os recursos (R$ 800 mil) virão do Ministério de Desenvolvimento Agrário, MDA, e da Secretaria de Direitos Humanos, SDH, e serão executados também pela Casa Civil do Estado e pela Secretaria do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo, SDR.


Igualdade entre homens e mulheres do campo


“Hoje, a mulher gaúcha do campo, continua lutando para alcançar o reconhecimento e assim ocupar espaços nas áreas de gestão e implantação tecnológica – ditas masculinas –, especialmente no estado gaúcho, onde a sociedade ainda traz marcas de um modelo de gestão baseado na figura masculina, embora já existam sinais de mudança cultural”, observa Márcia, apontando que as questões de gestão da propriedade, sucessão familiar e introdução de novas tecnologias, são apenas alguns dos obstáculos enfrentados diariamente por essas mulheres.
“A questão de a violência contra as mulheres do campo também é outro entrave econômico e social. Apesar (de seis anos) da existência da Lei Maria da Penha, a realidade ainda é triste. As mulheres estão morrendo. Ainda são vulneráveis às profundas violências oriundas do machismo que ignora suas escolhas e direitos, fatores que impedem a construção da sua autonomia financeira na sociedade”, alerta Márcia.
Buscando mudar a realidade da mulher gaúcha, foi assinado, durante a Expointer deste ano, um protocolo de intenção, entre a SPM/RS e a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul, Famurs, que visa a igualdade entre mulheres e homens no Rio Grande do Sul.

A mulher e a agroindústria gaúcha

“Após o reconhecimento da mulher agricultora como trabalhadora rural, ela passou a ser vista de maneira diferente perante a sociedade. A partir dai, vem buscando a cada dia formas de agregação de renda, para manutenção de sua família (no campo)”, explica Inque Schneider, coordenadora estadual de mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul, Fetag.
Entre as principais iniciativas dessa nova classe de gestoras rurais, está o desenvolvimento das agroindústrias, que, no Rio Grande do Sul, partiu das mulheres, ao sentirem a necessidade de ter uma renda especifica para manterem suas famílias no campo, fugindo da monocultura de grãos que ainda predomina nas várias regiões do estado. “A maioria das propriedades gaúchas são pequenas, e, como existe mão de obra familiar, facilitou a adaptação às agroindústrias”, revela Inque, comentando que, com a transformação e distribuição dos produtos, com valor agregado, essa atividade traz boas perspectivas para a agricultura familiar.
“As mulheres estão realizando vários cursos profissionalizantes com o objetivo de ampliar e aprimorar a qualidade dos produtos oferecidos. Assim, se organizaram em associações e cooperativas familiares para produzirem artesanato, incluindo (também as) ervas medicinais para uso humano e animal”, destaca Inque. Produtos esses, comercializados em feiras no estado e em outras regiões do Brasil.

Grupo das Produtoras Rurais de Passo Fundo

Um belo exemplo de que a união faz a força e que a mulher pode sim ser uma grande gestora do meio rural, inclusive, se sobressaindo em vários aspectos, vem de Passo Fundo. Em 2003, 13 produtoras rurais visualizaram a necessidade de formação de uma entidade voltada a transformar a realidade das mulheres rurais da região, que, muitas vezes cabrestiadas por uma cultura conservadora não tinham a oportunidade de mostrar(em) que a gestão não é um atributo apenas masculino.
Da iniciativa, surgiu o Grupo das Produtoras Rurais de Passo Fundo, aliança que tem dado voz às mulheres do agronegócio e contribuído, direta e indiretamente, no redesenho gerencial de muitas propriedades.
“Tínhamos, desde o início, o pensamento de desenvolver a consciência das produtoras rurais (esposas e filhas) em relação a maior participação nas várias atividades do agronegócio, tanto econômicas, como sociais e políticas”, revela Iliana Artuso, presidente do grupo e produtora rural em Pontão, município próximo à Passo Fundo, onde auxilia a família no gerenciamento agrícola de 1080 hectares.
Quinzenalmente o grupo se reúne na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (categoria empregador), onde trocam ideias sobre planejamento e desenvolvimento de novas tecnologias e ferramentas de gestão rural. “Pensamos que a mulher tem condições de somar ao agronegócio a sensibilidade, o conhecimento das relações humanas e sociais, a capacidade de organização e de tolerância, especialmente na gestão coletiva”, comenta Celi Weber Matei, administradora rural e integrante do grupo.


Para isso, o grupo trabalha unido, seja na busca de novos conhecimentos e na atuação lado a lado com os homens, através da trocas de experiências. “Um dos maiores objetivos da criação deste grupo é conscientizar às outras mulheres produtoras, ou esposas, que lugar de mulher é em qualquer lugar, e, principalmente desmistificar o machismo presente no Rio Grande do Sul, especialmente no campo”, ressalta a colega de grupo e gestora rural, Marizete Artuso.
“Víamos que muitas propriedades eram vendidas ou arrendadas quando faltava o gestor principal, pois, as mulheres consideravam-se despreparadas e não conseguiam dar sequência ao negócio familiar, prejudicando, inclusive o futuro dos filhos e netos”, complementa Celi.
Iliana explica que, nos eventos realizados pelo grupo, além de as questões de gestão e tecnologia, oferecem a oportunidade ao debate, através de palestras, sobre outros assuntos, mas, sempre ligados ao agronegócio e no bem-estar da família. “Buscamos palestrantes que abordem o direito de família, a sucessão familiar (dentro da propriedade) e a gestão ambiental, além de palestras motivacionais, teatros e eventos culturais”, diz a produtora.

Palestras, que falem principalmente sobre a evolução da mulher na sociedade, qualidade de saúde, desafios para a sustentabilidade da propriedade familiar, entre muitos outros. “Em muitos momentos participamos como grupo, de reivindicações por melhores preços de produtos e melhorias nas condições de transporte e vida no campo, como o tratoraço, em Brasília”, explica Marizete.


Caso de sucesso


As integrantes do grupo comentam que muitas agropecuaristas revelam que suas vidas melhoraram depois que se integraram ao grupo. “Observamos que, após anos de trabalho coletivo, os membros se fortaleceram e muitas das produtoras descobriram seus pontos fortes. E, dentro do agronegócio, com maior conhecimento e experiência aconteceram melhorias na implantação de técnicas de cultivo e incremento na rentabilidade”, revela Celi.
Entre os casos de sucesso está o da pecuarista Edi Hoffmann, que, em 2006, perdeu o marido e precisou assumir a gestão da propriedade de 230 hectares. “O pessoal do sindicato me ajudou muito, pois, no começo, não foi fácil. Apanhei muito com a nova realidade e chorei por inúmeras vezes, mas, fui à luta, em busca de informação com outros produtores e técnicos da área”, relembra.
A força de vontade e a determinação tornaram Edi uma referência na pecuária de corte. Nos 230 hectares, ela mantém um rebanho que oscila entre 900 e mil cabeças das raças Devon e Angus, em ciclo completo de criação. Um dos segredos de sucesso e superação da pecuarista é sempre partir em busca de novas tecnologias e ferramentas de gestão. O alto índice na taxa de lotação se deve a investimentos na formação de pastagens, com(o) a introdução do tífton e do trevo no verão e da aveia e o azevem no inverno. Segundo a pecuarista, se fosse pastagem nativa, haveria apenas uma cabeça por hectare. Porém, (com) a formação das áreas com forrageiras mais produtivas e a adoção do pastejo rotacionado, o número chega a até seis animais por hectare.
“Acima de tudo, se você está passando por uma situação igual a qual passei, levante a cabeça e trabalhe, pois quando se trabalha a gente ocupa a mente e evita a reclusão. Hoje, sou uma nova mulher. Participo da Expointer e outros eventos, faço viagens internacionais para prender mais sobre a bovinocultura, entre outros”, explica Edi, comentando que, grande parte da força de vontade e o amor ao agronegócio, se deve aos ensinamentos do pai e do falecido marido.

Fonte: Cana Substantivo Feminino

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