Opinião: Para as produtoras rurais

Opinião: Para as produtoras rurais

Eu sempre soube que meu futuro profissional seria no campo. Trocar o sapato de salto por um par de botinas.
Delúbia Borges TulhaEspecial para o Agrodebate
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Delúbia Borges Tulha é produtora rural
(Foto: Da assessoria/Famato-MT)
Sou produtora rural desde 1995. Na verdade, nasci no meio rural, na fazenda Ouro Verde em Goiás. Esta propriedade pertenceu aos meus bisavós, depois passou para meus avós e uma parte foi dos meus pais, que moraram lá por muitos anos.
Ainda adolescente, fui para Goiânia, estudei e, alguns anos depois, retornei para o interior. Depois que minhas filhas nasceram, assumi a profissão de professora, mas me sentia como um "um peixe fora d´água". Eu sempre soube que meu futuro profissional seria no campo. Quinze anos depois, deixei a minha profissão de professora, fiz uma parceria com meus irmãos e comecei a trabalhar com agricultura. Eles já eram agricultores há vários anos.
Plantávamos em rotação de cultura a soja, o milho e o feijão irrigado. Implantamos uma lavoura de café adensado irrigado, além da piscicultura, com abate anual de vinte e cinco mil peixes, que ficava mais sob minha responsabilidade.
Em 2002, decidimos vender essa propriedade com o objetivo de adquirir maior quantidade de terras aqui em Mato Grosso. Dois anos depois, com a crise do preço da soja, meus pais resolveram vender a parte de terras que pertencia a eles e retornaram para Goiás. Decidi ficar. Aqui conheci meu companheiro e esposo Fernando Tulha Filho. Ele é paulista, radicado em Mato Grosso há mais de trinta anos. Trabalhamos até os dias de hoje com pecuária, profissão que ele já exercia.
Ainda em 2002 me associei ao Sindicato Rural de São José do Xingu, participei da diretoria como vice-presidente e em 2012 fui indicada pelos companheiros da diretoria ao cargo de presidente na formação da chapa “Novo Tempo”. O apoio dos associados, dos companheiros de diretoria e da Famato foram fundamentais desde a fundação do sindicato até a minha chegada à presidência.
Pelas minhas crenças e convicções, sempre acreditei que as situações surgem em nossa vida por que de alguma forma nós as buscamos. E se essas situações se apresentam como novos desafios são porque devemos aceitá-los. O que torna o trabalho da mulher produtora rural desafiador? É o fato de ser um trabalho de superação. Eu poderia discorrer sobre os problemas de logística de transporte, do clima nem sempre favorável ou, até mesmo, da queda dos preços dos produtos, porém o maior dos desafios é estar ocupando um espaço que durante longos anos pertenceu aos homens, por estarmos inseridas numa sociedade essencialmente patriarcal.
O segundo desafio é contrariar a natureza feminina e deixar a vaidade um pouco de lado. Trocar o sapato de salto por um par de botinas e deixar o conforto de uma sala com ar condicionado pelo calor do sol exige de nós, mulheres, um esforço grande. É aí que nos contentamos com um batonzinho básico e vamos à luta.
Somos mais frágeis fisicamente, o que nos impõem barreiras no trabalho do campo, mas somos mais intuitivas, temos mais habilidades no trato com as pessoas. É assim que rompemos barreiras, somamos força e conquistamos a solidariedade de muitos. A recompensa, neste sentido, vai além da autonomia econômica. Superamos nossos próprios limites e conseguimos o reconhecimento, hoje, da sociedade de que a mulher pode estar onde ela própria se determina.
No mundo as estatísticas apontam para um maior número de mulheres nas escolas do que os homens. Considero isso um grande avanço profissional em todos os aspectos. No entanto, há muitas conquistas, muitas batalhas a serem vencidas. A maior de todas continua sendo contra a violência doméstica, que não tem final feliz. Neste aspecto, apesar de todos os esforços, não houve um grande avanço. Isso ainda nos entristece e nos causa indignação.
Quero deixar minha homenagem à mulher brasileira e, em especial, à produtora rural com este pequeno trecho do poema “Minha Cidade”, da Cora Coralina, a maior poetisa da minha terra natal. Ela consegue, por meio das palavras, falar mais do que a alma de sua cidade, pois mostra também o retrato da alma feminina, trabalhadora e guerreira:
“(...)Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo (...)”.
Delúbia Borges Tulha é produtora rural e presidente do Sindicato Rural de São José do Xingu (delubiamaria@hotmail.com).

 

Fonte: G1

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