Biometano pode transformar a matriz energética do setor sucroenergético, avalia especialista no Spin-Off Agro 2025
13-11-2025
Com quase metade do potencial nacional concentrado no setor, fonte renovável se consolida como alternativa estratégica para usinas e investidores
Por Andréia Vital
O biometano tem potencial para assumir papel central na transição energética brasileira, especialmente no setor sucroenergético, que concentra cerca de 48% da capacidade nacional de produção. A avaliação foi apresentada por Yuri Schmitke A. B. Tisi, presidente executivo da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN), durante o Spin-Off Agro – Usinas do Futuro 2025, realizado em Ribeirão Preto (SP), no dia 5 de novembro.
Segundo o especialista, o segmento sucroenergético reúne as condições ideais para liderar a produção de biometano no país, devido ao grande volume de resíduos agrícolas e industriais gerados. Ele observou que o potencial técnico de biogás do Brasil é de 84,6 bilhões de Nm³ por ano, enquanto a produção atual, de 4,7 bilhões de Nm³, representa apenas 5,65% desse total. Setores como o sucroenergético e o agroindustrial respondem por mais de 90% desse potencial. Além da vinhaça e da torta de filtro, o bagaço e a palha da cana também podem ser aproveitados para a geração de energia.

Panorama de produção e expansão
O país conta atualmente com 1.633 plantas registradas de biogás, das quais 1.587 estão em operação e 46 em fase de implementação. A capacidade instalada total é de 4,7 bilhões de Nm³ por ano, o que representa um crescimento de aproximadamente 70% em relação a 2023. Em 2024, a produção efetiva alcançou 641 milhões de Nm³, avanço de 35% frente a 2022.
A maior parte do biogás produzido tem origem em resíduos sólidos urbanos (63%), enquanto 20% provêm de resíduos agroindustriais e 17% de fontes diretamente ligadas ao agronegócio. No caso específico do biometano, há 79 plantas registradas no país, sendo 54 em operação comercial e 25 em implantação, somando 667 milhões de Nm³ anuais em capacidade produtiva. Para 2025, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já autorizou 14 novas unidades e analisa 37 projetos adicionais.
Esses indicadores mostram que o mercado nacional de biogás e biometano ainda opera muito abaixo de seu potencial, mas apresenta crescimento acelerado e perspectiva de forte expansão. Schmitke avaliou que o setor vive um momento decisivo, marcado pela consolidação de investimentos e pela ampliação do interesse de grupos privados e cooperativos.
Regulação e oportunidades de receita
Entre os fatores que devem impulsionar o avanço do biometano, o especialista destacou a criação do certificado de origem do biometano, que permitirá a injeção do gás renovável na rede e a remuneração dos produtores. O mecanismo, inspirado em modelos adotados em países europeus, abre caminho para que distribuidoras e importadoras de energia, como Petrobras e Shell, possam compensar o consumo de gás natural mediante a aquisição de certificados de biometano.
Na avaliação de Schmitke, a medida representa uma nova fonte de receita para as usinas, ao mesmo tempo em que aumenta a competitividade do biometano frente ao gás fóssil. Ele considera que a rastreabilidade e a precificação ambiental associadas ao certificado reforçam a credibilidade do produto e favorecem a entrada de investidores no segmento.
Economia circular e agregação de valor
O aproveitamento de resíduos como vinhaça, torta de filtro, bagaço e palha tem potencial para elevar a eficiência ambiental e econômica das usinas. O especialista apontou que transformar esses subprodutos em biometano e biofertilizantes é mais vantajoso do que o uso direto no solo, pois amplia a geração de energia limpa, reduz emissões e cria novos produtos com valor agregado.
Para Schmitke, a expansão do biometano está diretamente ligada à consolidação da economia circular no agronegócio. Ele avaliou que o setor sucroenergético reúne infraestrutura, escala e experiência técnica para liderar esse movimento, combinando rentabilidade com sustentabilidade.
O especialista também ressaltou que o crescimento do número de plantas e da produção anual demonstra o amadurecimento da cadeia, que passa a integrar o planejamento energético nacional e ganha relevância no contexto de descarbonização da matriz brasileira.
Schmitke concluiu que o biometano representa uma oportunidade estratégica para diversificar receitas, reduzir passivos ambientais e impulsionar a competitividade das usinas, desde que haja estabilidade regulatória e estímulo à inovação tecnológica.

