Brasil pode triplicar produção de bioenergia ao converter 36 milhões de hectares de pastos degradados, aponta estudo do LNBR
26-11-2025
Projeção apresentada em evento paralelo à COP30, indica impacto global na segurança energética e na descarbonização
Por Andréia Vital com informações da Agência FAPESP
A conversão de pouco mais de 30% dos 100 milhões de hectares de pastagens degradadas existentes no Brasil em áreas de cultivo de cana-de-açúcar, milho e soja pode triplicar a produção nacional de bioenergia e gerar um volume anual de 6,8 exajoules, equivalente à atual produção mundial de energia renovável.
De acordo com matéria publicada pela Agência FAPESP, as conclusões fazem parte de estudo conduzido pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), do CNPEM, em Campinas - SP, e foram apresentadas por seu diretor, Mário Murakami, durante mesa-redonda sobre bioeconomia realizada em Belém, paralelamente à COP30.
Murakami afirmou à Agência FAPESP que o trabalho utilizou imagens de satélite de alta resolução e um conjunto rígido de restrições ambientais para identificar os 100 milhões de hectares de pastos degradados, excluindo áreas de preservação ecológica, zonas próximas a florestas nativas, nascentes ou regiões sensíveis da transição Cerrado-Amazônia. “Fomos bastante restritivos para garantir que essas áreas realmente não vão afetar o sistema hídrico, a disponibilidade de água e, muito menos, mata nativa”, disse.
Desse total, apenas 36 milhões de hectares foram considerados aptos para cultivo de culturas energéticas. Os outros 64 milhões poderiam ser destinados ao reflorestamento. A análise também avaliou logística e integração regional das cadeias produtivas, definindo onde seria mais eficiente expandir cana, milho ou soja. “Talvez em uma região faça mais sentido cultivar milho e soja e em outra cana-de-açúcar. Isso foi mapeado para indicar qual cultura se encaixa melhor em cada local”, afirmou Murakami.
A projeção parte de uma base atual de 9 milhões de hectares cultivados com cana. Segundo o pesquisador, a expansão agrícola nas áreas degradadas permitiria multiplicar por três a oferta de bioenergia. “O Brasil tem o potencial de triplicar sua produção usando somente uma pequena parcela das terras degradadas e mantendo mais da metade para reflorestamento”, disse.
Murakami destacou à Agência FAPESP que o país reúne vantagens comparativas decisivas na bioeconomia, entre elas, uma matriz elétrica mais de 90% renovável, condição que permite produzir hidrogênio e combustível sustentável de aviação (SAF) sem emissões fósseis. Ele também ressaltou o diferencial da biomassa cativa: cerca de 500 milhões de toneladas anuais de resíduos agrícolas e agroindustriais, sendo 200 milhões já disponíveis dentro das plantas industriais. “Nenhum lugar no mundo tem essa biomassa cativa. Nos Estados Unidos ela está no solo das fazendas; aqui, está limpa, abundante e de baixo custo. Isso reduz de duas a três vezes o custo do produto final”, afirmou.
Parte dos entraves à expansão da bioeconomia, porém, está nas tecnologias, majoritariamente importadas, necessárias para desconstruir a celulose, altamente resistente à despolimerização. O LNBR busca suprir essa lacuna por meio do codesenvolvimento com a indústria nacional, compartilhando riscos e construindo soberania tecnológica. “Nosso papel não é competir com as indústrias, mas dar opções de tecnologias nacionais ou importadas para elas”, explicou.
A resposta para superar essa barreira tem vindo da biodiversidade. Em amostras de solo coberto por bagaço de cana, pesquisadores encontraram um novo filo bacteriano cuja enzima altera o entendimento do metabolismo da celulose. Utilizando a infraestrutura do Sirius, no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, a equipe elucidou o mecanismo de ação da enzima e demonstrou sua aplicação industrial em reatores de 300 litros. O avanço, publicado na Nature em fevereiro, representa, segundo Murakami, “uma das maiores revoluções dos últimos 20 anos” na bioconversão, permitindo ganho superior a 20%.
O resultado já integra uma plataforma de produção de coquetéis enzimáticos do MCTI, aberta à pesquisa colaborativa. Para Murakami, trata-se de evidência concreta do valor econômico da biodiversidade brasileira. “Isso mostra por que é importante preservar florestas”, avaliou.
O estudo, que aguarda publicação científica, reforça a possibilidade de o Brasil assumir papel central na oferta global de biocombustíveis, meta consolidada na COP30, que prevê quadruplicar a produção mundial até 2035.

