China, UE e Índia na disputa pelo comando da FAO
01-02-2019

China, UE e Índia na disputa pelo comando da FAO
China, UE e Índia na disputa pelo comando da FAO

 

A China, a União Europeia (UE) e a Índia entraram na disputa para fazer o sucessor do brasileiro José Graziano da Silva na direção-geral da Agência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Em meio à aproximação entre Brasília e Washington, há grande expectativa sobre quem o governo Jair Bolsonaro apoiará.

As candidaturas para o comando da organização dedicada a erradicar a fome e má nutrição no mundo podem ser apresentadas até 28 de fevereiro. Por enquanto, há cinco candidatos. A eleição ocorrerá durante a conferência da organização, a ser realizada em Roma entre 22 e 29 de junho. O segundo mandato de Graziano termina em 31 de agosto. O brasileiro comanda a FAO desde 2011. A eleição é secreta e ocorre em turnos. Cada país tem um voto.

O candidato chinês é o vice-ministro de Agricultura, Qu Dongyu, visto como forte concorrente. Sua campanha está em curso e ele esteve em Berlim num evento da FAO com 35 ministros de agricultura. Um dos pontos que Pequim usará a seu favor é a relação com a África, com projetos de bilhões de dólares. Por outro lado, alguns analistas avaliam que a China tem uma imagem de arrogância junto a alguns países africanos.

A China até recentemente visava cargos de influência discretos, abaixo da direção-geral de organizações internacionais. Quando tentou dar um salto maior e obter o comando da Unesco, a Agência da ONU para a Educação, Ciência e Cultura, acabou derrotada pela então ministra francesa da Cultura Audrey Azoulay.

Com o apoio da UE, a francesa Catherine Geslain-Lanéelle, ex-diretora-geral da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, também está na disputa. Pesa a favor dela o simbolismo de sua eleição. Seria a primeira mulher a dirigir a FAO. A questão de gênero, porém, nem sempre faz a diferença, como mostrou a escolha do português António Guterres para a secretaria-geral da ONU, em 2016. Na ocasião, o sentimento era de que o cargo ficaria com uma mulher do leste europeu.

Com DNA protecionista, a francesa defende a Política Agrícola Comum (PAC) turbinada com €59 bilhões. Para ela, subsídios agrícolas são aceitáveis desde que adaptados a objetivos como acabar com a má nutrição, o que não é bem o caso na Europa. Indagada sobre como países reagem a sua candidatura, afirmou que não vê "expressão de desgosto".

A Índia, por seu turno, lançou Ramesh Chand, economista especializado na área agrícola. Nova Déli aparentemente tentou, sem sucesso, convencer Pequim a não disputar a eleição da FAO, segundo a imprensa indiana. Os outros candidatos são Médi Moungui, representante permanente dos Camarões junto à FAO, e Davit Kirvalidze, assessor do primeiro-ministro da Georgia e ex-ministro da Agricultura. A avaliação é que os dois têm poucas chances.

As cartas vão ficar mais claras em março, quando houver certeza contra quem se está jogando. Novos candidatos podem surgir. Mas os representantes da China e da UE, que começaram a campanha mais cedo, parecem ter vantagem.

A posição do Brasil, um dos líderes globais no setor agrícola e criador do programa Fome Zero, ainda não está definida. O Itamaraty e o Ministério da Agricultura vão discutir a situação. Vários países esperam para ver a posição dos americanos. O fato é que Washington quer conter a influência dos chineses na África.

Para o Brasil, é difícil votar contra China e India, sócios no Brics, o grupo dos grandes emergentes que fará seu encontro de cúpula este ano justamente em Brasília. Além disso, votar na francesa parece pouco provável dada algumas de suas posições, como a defesa de subsídios.

A eleição na FAO coincide com o aumento do protecionismo nos mercados agrícolas. Em 2018, os EUA deram subsídios diretos para produtores de soja, a Índia deu ajuda para seus produtores de açúcar, e a Rússia deflagrou nova estratégia de ajuda para a produção de trigo.

Além disso, a fome no mundo aumentou em 2017 pelo terceiro ano consecutivo, no rastro de conflitos e mudanças climáticas. A fome cresceu em quase toda a África e América do Sul. Atualmente, são 821 milhões de pessoas famintas – uma em cada nove na população mundial.

Por Assis Moreira


Fonte: Valor Econômico