Cocal projeta eliminar diesel com avanço do biometano
23-03-2026
Usina amplia uso do combustível na frota e reduz emissões
Andréia Vital
O aumento do consumo de diesel com a mecanização tem pressionado custos e estimulado a busca por alternativas energéticas, afirmou Luís Paulo do Val Cervelatti. “A pergunta nossa é se o diesel ainda é a única resposta que a gente tem para esse processo”.
O gerente apresentou a estratégia na palestra “Economia circular aplicada à mecanização: a transição energética na Usina Cocal”, durante o 27º Seminário de Mecanização e Produção de Cana-de-Açúcar do Grupo IDEA, realizado nos dias 18 e 19 de março, em Ribeirão Preto - SP, ao detalhar o uso de biometano como substituto do diesel na frota agrícola.
De acordo com Cervelatti, a proposta está inserida em um movimento estratégico da companhia para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar a eficiência operacional. Com mais de 45 anos de atuação, a Cocal possui unidades em Paraguaçu Paulista, Narandiba, Rio Brilhante e Passa Tempo e prevê, para a safra 2026/27, moagem de 16 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, produção de 1 milhão de toneladas de açúcar, equivalente a 2,8% da produção brasileira, e 595 milhões de litros de etanol. A companhia administra cerca de 257 mil hectares e estabeleceu como meta eliminar o uso de diesel na frota até 2033.
Segundo o gerente, a estratégia integra produção agrícola, industrial e energética, com aproveitamento de subprodutos da cana-de-açúcar para geração de energia, biogás e biometano, além da reciclagem de resíduos como vinhaça e torta de filtro no campo. Cervelatti destacou que o biometano, com teor de metano de até 97%, é utilizado na frota, comercializado e distribuído por uma rede de 68 km, com capacidade de 118 mil m³ por dia, além de atender clientes em um raio de até 400 km.
No aspecto ambiental, ele explica que o modelo reduz a intensidade de emissões para até 2,69 g de CO2 por megajoule. Na frota, a substituição do diesel permite corte de até 95% nas emissões e redução de 97% em relação à gasolina, com impacto equivalente à preservação de cerca de 1.860 hectares de floresta nativa.
A integração com outras cadeias produtivas também foi destacada na apresentação, com uso de resíduos de granjas para ampliar a produção de biometano e estudos para utilização de resíduos urbanos como insumo energético.
A mecanização concentra parcela relevante dos custos operacionais. No setor, o uso médio gira em torno de 0,91 litro de diesel por tonelada colhida. Na Cocal, a frota soma cerca de 2.500 equipamentos, sendo mais de mil motorizados, com consumo anual próximo de 30 milhões de litros de diesel.
Cervelatti disse que a substituição por biometano avança em escala. Na safra 2026/27, o combustível deve representar cerca de 20% do consumo da frota agrícola, com projeção de 103 frotas abastecidas, ante 10 na safra 2022/23. O consumo acumulado deve atingir 8,5 milhões de m³ na operação agrícola, além de 4,4 milhões de m³ utilizados por parceiros logísticos.
Ele afirmou que, até o momento, foram substituídos cerca de 7,5 milhões de litros de diesel, com mitigação estimada de 20 mil toneladas de CO2 equivalente. O biometano é aplicado em motobombas, tratores, caminhões e veículos leves, além de integrar operações logísticas, incluindo transporte de açúcar e, em desenvolvimento, etanol para a região de Ribeirão Preto – SP.
“A gente começou entendendo o produto, trazendo especialistas e estruturando a operação antes de escalar. O projeto precisa ser viável técnica e economicamente”, ressaltou.
O gerente destacou que a adoção do biometano envolve diferentes configurações, incluindo caminhões retrofit e modelos originais com potência entre 280 e 520 cavalos, autonomia de até 370 km e consumo entre 0,8 e 1,7 km por metro cúbico. Motobombas já operam integralmente com o combustível, com consumo entre 18 e 20 m³ por hora e autonomia de até 18 horas.
Entre os principais desafios, segundo o executivo, estão a disponibilidade de peças, a adaptação da manutenção e a estrutura de abastecimento. O modelo atual utiliza módulos móveis com capacidade de 360 m³ por kit e tempo médio de abastecimento de 20 minutos, enquanto soluções para abastecimento a campo estão em desenvolvimento.
A empresa também avalia alternativas complementares, como eletrificação de equipamentos, uso de etanol e biodiesel B100, além de novas plataformas de máquinas agrícolas, dentro da estratégia de redução da dependência de combustíveis fósseis.
Confira:

