Compostagem de bagaço exige engenharia antes da biologia
10-03-2026
Palestra no BioShow detalha manejo, custos e ganhos operacionais
Andréia Vital
A maior disponibilidade de bagaço em algumas usinas tem levado o setor sucroenergético a avaliar novas formas de valorização da biomassa, entre elas a produção de composto orgânico para uso agrícola. O tema foi apresentado pela engenheira agrônoma Katia Goldschmidt Beltrame, da ESALQ, durante o BioShow, realizado pelo Grupo IDEA no dia 25 de fevereiro, em Ribeirão Preto - SP, que reuniu produtores, gestores, pesquisadores e empresas do setor.
Historicamente ligado à geração de vapor e bioeletricidade nas caldeiras das usinas, o bagaço continua sendo uma das principais fontes de energia da atividade. Oscilações no preço da eletricidade e ganhos de eficiência energética em unidades industriais mais modernas, porém, têm reduzido a necessidade de consumo da biomassa em algumas situações, abrindo espaço para alternativas de aproveitamento agrícola.
“Compostar bagaço não é difícil. Difícil é compostar grandes volumes com eficiência técnica e econômica”, afirmou Katia durante a apresentação.
O desafio ajuda a dimensionar a escala do tema na produção de cana. A cada tonelada de cana moída são gerados entre 250 e 280 quilos de bagaço. O material apresenta lignina entre 18% e 24%, relação C N elevada entre 80 e 120 para 1, razão obtida pela divisão da percentagem de carbono orgânico pela percentagem de nitrogênio total, e baixa densidade aparente, características que resultam em grande volume operacional e cinética de degradação lenta.
Na prática, essas características ampliam as exigências de manejo do processo. O bagaço possui deficiência de nitrogênio e estrutura lignocelulósica complexa formada por celulose, hemicelulose e lignina, o que prolonga a fase lag da compostagem, período em que os microrganismos ainda estão se adaptando ao substrato antes do aumento da atividade biológica. “Quando a gente fala em compostagem de bagaço estamos falando de uma operação de guerra”, disse.
Para viabilizar o processo em escala industrial, a engenharia da mistura é considerada decisiva. O bagaço precisa ser combinado com resíduos ricos em nitrogênio, principalmente torta de filtro, para reduzir a relação C N para a faixa adequada de 25 a 35 para 1. A umidade inicial deve ficar entre 50% e 60% e a densidade operacional da mistura precisa permanecer entre 0,55 e 0,75 tonelada por metro cúbico.
A estrutura física da leira influencia diretamente a disponibilidade de oxigênio, elemento essencial para a degradação aeróbica da matéria orgânica. Por isso, a concentração interna de oxigênio deve permanecer acima de 10%. A fase ativa da compostagem ocorre normalmente entre 58 e 65 graus e o revolvimento das leiras é recomendado quando a temperatura ultrapassa 65 ou 70 graus ou quando ocorre compactação do material.
“A curva térmica revela a eficiência da engenharia do sistema, não apenas a temperatura”, explicou a pesquisadora.
Além do manejo físico do processo, a utilização de bioinsumos pode contribuir para acelerar a decomposição do material. Microrganismos celulolíticos, como fungos dos gêneros Trichoderma, Aspergillus e Penicillium e bactérias como Bacillus, podem reduzir a fase lag e aumentar a taxa inicial de degradação.
Estudos citados na apresentação indicam que consórcios microbianos podem antecipar a atividade biológica inicial em três a seis dias e aumentar a atividade enzimática lignocelulolítica, favorecendo a formação de substâncias húmicas. Em experimentos relatados na literatura, compostagem de bagaço com resíduos ricos em nitrogênio elevou a formação de ácido húmico em 43,85% e registrou pico térmico próximo de 72,5 graus.
Mesmo assim, Katia ressaltou que os inoculantes não substituem o controle adequado das variáveis físicas do sistema. “Bioinsumo não faz milagre. Ele potencializa uma ação, mas não corrige defeito de estruturação ou compactação da leira”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, o principal ganho econômico da compostagem eficiente está associado à redução do tempo de permanência das leiras no pátio e à diminuição do número de revolvimentos necessários para estabilizar o material. “O maior ganho econômico não é a temperatura. É a redução de dias de ciclo e custo de engenharia”, concluiu.
Confira:

