“Conecta Cana” alia agrícola e indústria para debater aumento da eficiência agroindustrial
25-03-2020

Problemas fitossanitários e presença de impurezas mineiras e vegetais na cana-de-açúcar dificultam processos industriais. Foto: Arquivo CanaOnline
Problemas fitossanitários e presença de impurezas mineiras e vegetais na cana-de-açúcar dificultam processos industriais. Foto: Arquivo CanaOnline

Matéria-prima de boa qualidade é essencial para a melhoria do processo industrial. No entanto, fardo não deve ser carregado unicamente pela agrícola. União entre as áreas é vital para a prosperidade de toda a cadeia de produção

Leonardo Ruiz

Até o início dos anos 2000, o setor canavieiro nacional tinha o sonho de ter “cana fresca”. Com a advento da colheita mecanizada de cana crua, esse sonho enfim se tornou realidade. Hoje, as unidades agroindustriais brasileiras recebem, durante as 24 horas do dia, uma matéria-prima colhida sem o uso do fogo e que chega em tempo hábil às esteiras da indústria.

O problema agora é outro. Na grande maioria das vezes, a cana-de-açúcar descarregada nas usinas é de má qualidade, repleta de impurezas mineiras e vegetais e com problemas fitossanitários provenientes de infestações de pragas e doenças. Os reflexos naturais são quedas na eficiência e no rendimento do processo industrial.

Para a pesquisadora Márcia Mutton, hoje se faz necessário um carinho maior com a cana-de-açúcar para que ela chegue em boas condições à unidade agroindustrial

Foto: Leonardo Ruiz

A professora da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Jaboticabal, Márcia Mutton, explica que uma matéria-prima ruim até consegue ser processada pela indústria, porém, resultará em um produto final de menor qualidade e com alto custo, uma vez que haverá maior necessidade de utilização de insumos e antibióticos. “No mercado atual, o consumidor busca qualidade e preços baixos. Caso o fornecedor não consiga atender essas exigências, ele dificilmente se manterá competitivo.”

A pesquisadora ressalta que o advento da mecanização revolucionou a qualidade da matéria-prima que é entregue à indústria. “A extinção do fogo quebrou paradigmas e tirou o setor da zona de conforto. Hoje, é necessário um carinho maior com a cana-de-açúcar para que ela chegue em boas condições à unidade agroindustrial, seja nos tratos culturais ou na hora da colheita, transbordamento e transporte.”

“Conecta Cana” reuniu representantes da agrícola e indústria para debater formas de melhorar a qualidade da matéria-prima

Foto: Leonardo Ruiz

Preocupada com esse cenário adverso – comum nas mais diversas usinas brasileiras -, a Bayer realizou no início de março o “Conecta Cana”, cujo objetivo foi debater formas sustentáveis de melhorar a qualidade da matéria-prima e, consequentemente, impulsionar a eficiência do sistema de produção agroindustrial canavieiro. O evento foi realizado em Indaiatuba/SP e reuniu representantes de usinas e produtores rurais que juntos representam mais de 40% da cana moída no Centro-Sul e comercializam açúcar e etanol em mais de 90 países. O evento contou ainda com a presença de consultores e pesquisadores de renomadas empresas e universidades brasileiras.

Ao longo do encontro, foram discutidos temas pertinentes ao momento atual do setor, que busca recuperar sua eficiência agroindustrial. Com a chegada do RenovaBio, que proporcionará previsibilidade na oferta futura de energia, não poderia haver momento melhor para essa discussão.

“Diariamente, procuramos inovar em serviços, produtos e tecnologias que impulsionem a eficácia do sistema de produção agrícola-industrial canavieiro. Durante o “Conecta Cana”, apresentamos todas essas soluções ao público presente”, afirmou o gerente de marketing de clientes da Bayer, Valdumiro Garcia.

Caio Carvalho: “Começamos a safra 2020/21 com um debate amplo, mostrando a relevância da qualidade da cana-de-açúcar nos produtos finais do setor”

Foto: Leonardo Ruiz

Parceira da Bayer na realização do evento, a Canaplan, por meio de seu diretor Luiz Carlos Corrêa Carvalho, destacou a elucidação de questões fundamentais relativas à produtividade e qualidade da cana-de-açúcar. “Começamos a safra 2020/21 com um debate amplo, mostrando a relevância da qualidade da matéria-prima nos produtos finais do setor. Ao longo do dia, foram apresentados aos participantes os benefícios da integração das áreas e como o planejamento agrícola tem impacto sobre a produção industrial.”

Pragas, doenças, isoporização e impurezas mineiras e vegetais reduzem a qualidade da matéria-prima

Embora esteja em linha com uma produção mais sustentável, a colheita mecanizada de cana crua impôs ao setor vários desafios no que tange a qualidade da matéria-prima. Uma das consequências que mais exige atenção é o crescimento do índice de impurezas minerais e vegetais que vão do campo, com a cana, para a indústria.

Uma matéria-prima ruim irá resultar em um produto final de pior qualidade e com alto custo

Foto: Arquivo Sabaralcool

As impurezas minerais acarretam maior desgaste de equipamentos na indústria, sobretudo no setor de extração, tratamento de caldo e caldeiras. As vegetais, por sua vez, afetam a capacidade de extração do açúcar; provocam buchas na esteira de cana; impactam a umidade do bagaço, diminuindo seu poder calorífico; e elevam os custos com tratamento do caldo.

Mas não são apenas as impurezas mineiras e vegetais que dizimam a qualidade da cana-de-açúcar. A isoporização, por exemplo, é outro grave problema. Esse fenômeno se caracteriza pelo secamento do interior do colmo e perda de peso final. Na indústria, essa cana dificultará a extração do açúcar, reduzindo o rendimento do processo industrial.

A associação mais comum do Colletotrichum falcatum é com a broca-da-cana, formando o complexo broca – podridão

Foto: Arquivo CanaOnline

Outra adversidade que está tirando o sono dos profissionais do setor é o Colletotrichum falcatum, que nos últimos anos foi elevado ao status de doença mais importante e prejudicial da cana-de-açúcar. O fungo ressurgiu das cinzas e pode ocasionar prejuízos devastadores, no campo e na indústria.

Já a broca-da-cana (Diatraea saccharalis) é uma velha inimiga do setor. Além das perdas no canavial, a praga também provoca impactos negativos sobre o rendimento industrial e sobre a qualidade do produto final, especificamente do açúcar, que tem sua coloração alterada. A inversão de sacarose e as infecções nas dornas de fermentação também estão entre os danos indiretos.

Campo e indústria precisam trabalhar em conjunto para minimizar efeitos negativos

Com tantas novas variáveis que impactam negativamente a qualidade da cana-de-açúcar, o setor precisa, mais do que nunca, conhecer e discutir essas características para conseguir frear os danos e, consequentemente, minimizar seus efeitos nos produtos finais.

Mas engana-se quem pensa que esse é um problema exclusivo da agrícola. Embora ela seja a responsável direta pela produção de cana-de-açúcar, ambas as áreas devem trabalhar juntas para solucionar essas questões. O “Conecta Cana”, da Bayer, buscou atuar exatamente nesta frente, unindo os profissionais do campo e da indústria para que juntos eles possam debater formas de melhorar a eficiência de todo o processo agroindustrial canavieiro.

Para Valdumiro Garcia, seria importante a agrícola seguir as orientações da indústria no que tange aos impactos das operações de tratos, colheita, transbordo e transporte na matéria-prima

Foto: Leonardo Ruiz

Para o gerente de marketing de clientes da Bayer, Valdumiro Garcia, a prosperidade e sucesso do setor estão intimamente ligados a sinergia dessas áreas. “Além de proporcionar resultados financeiros sustentáveis, um processo de produção agrícola-industrial eficiente fará com que seja possível capturar, por exemplo, os benefícios proporcionados pelo RenovaBio, que propiciará renda extra aos players que conseguirem um processo mais eficiente, sustentável e rastreável.”

Mas, de acordo com o profissional, para obter sinergia e aumento de eficiência agroindustrial, é necessário que haja uma estreita conexão entre os elos. “Eles precisam compartilhar as tomadas de decisão. Seria importante, por exemplo, a agrícola seguir as orientações da indústria no que tange aos impactos das operações de tratos, colheita, transbordo e transporte na matéria-prima.”

Valdumiro Garcia ressalta, ainda, que se faz necessário repensar como as tecnologias para proteção da produtividade e da qualidade da cana-de-açúcar são empregadas no campo. “Será que estamos utilizando todo o potencial das soluções que foram criadas visando proteger nossos investimentos?”, questiona. “Precisamos também começar a quantificar corretamente os reais impactos das pragas, doenças e de outros fenômenos na indústria.”

Paulo Donadoni: “A Bayer possui soluções que percorrem toda a cadeia agroindustrial da cana”

Foto: Leonardo Ruiz

Para o gerente de Portfolio e Cultura Cana-de-açúcar da Bayer para o Brasil e América Latina, Paulo Donadoni, o “Conecta Cana” buscou, acima de tudo, fortalecer os elos produtivos. “Preparamos esse encontro pensando em contribuir com o setor com dados essenciais para a melhor tomada de decisão entre os dois componentes do sistema agroindustrial canavieiro. Reunimos profissionais fundamentais do ponto de vista da agrícola e da indústria para que essas decisões possam ser bem discutidas. O objetivo é chegar numa conclusão sobre como obter uma melhor qualidade da matéria prima no curto prazo e preparar o conceito necessário, reconhecido por estes dois elos agrícola e industrial, no futuro, médio e longo prazos”

Segundo ele, a Bayer possui tecnologias em seu portfólio que podem ajudar o setor nesta difícil empreitada. “Nossas soluções entregam resultados não somente no campo, mas na indústria também, percorrendo a inovação ao longo de toda a cadeia agroindustrial da cana. Temos um novo produto oriundo da cadeia da Cana, que é o CBio, podemos contribuir com a eficácia de nossos produtores ao longo do processo de produção deles. Nossas tecnologias são avançadas, temos resultados comparativamente superiores no campo que geram valor para a indústria da usina e queremos demonstrar este efeito para que cada vez mais a cadeia toda da Cana seja beneficiada”

Açúcar e etanol são feitos no campo. À indústria, cabe a recuperação e transformação

A Usina Nardini, de Vista Alegre do Alto/SP, foi uma das participantes do “Conecta Cana”. Os assuntos debatidos durante o evento da Bayer serão de alta valia para os trabalhos da unidade, relatam os profissionais Fábio Cordeiro, supervisor de operações agrícolas da Nardini, e Vagner Rogério Borges, supervisor de produção.

Vagner Rogério Borges e Fábio Cordeiro participaram do “Conecta Cana” para buscar soluções que ajude a Usina Nardini a produzir uma cana-de-açúcar de melhor qualidade

Foto: Leonardo Ruiz

De acordo com eles, o açúcar e o etanol são feitos no campo. À indústria, cabe a recuperação e transformação. “Por conta disso, entregar uma matéria-prima da mais alta qualidade é essencial para todo o processo. Participamos do evento para conhecer as tecnologias da Bayer que nos proporcionarão melhorias na cana que é entregue à indústria, como soluções em maturadores, inibidores de florescimento e inseticidas.”

O Grupo Colorado, com duas unidades agroindustriais localizadas nos Estados de São Paulo e Goiás, também marcou presença no evento. Na opinião do supervisor de qualidade de matéria prima da companhia, Denis Fernando Sousa Mendes, sua área nunca esteve em tamanha evidência. “Como sou o ‘homem’ da qualidade da matéria-prima, atuo como o elo de ligação entre as duas áreas. Dessa forma, um evento como esse serve para reforçar junto ao setor a necessidade de uma atenção especial a esse problema. Na Colorado, por exemplo, já temos há anos um departamento específico para tratar desse assunto.”

Paulo Carvalho e Denis Fernando Sousa Mendes contam que o Grupo Colorado possui há anos um departamento específico sobre controle de qualidade de matéria-prima

Foto: Leonardo Ruiz

Para o responsável pela área industrial e pelo planejamento agroindustrial do Grupo, Paulo Carvalho, o “Conecta Cana” foi uma “sacada” muito grande da Bayer. “O açúcar e o etanol são produzidos no campo. Portanto, essa interação entre as áreas promovida pela Bayer quebrou paradigmas. É um foco interessante e que refletirá positivamente nas usinas como um todo.”