Controle da broca-da-cana deve estar calcado em três pilares: eficiência, seletividade e sustentabilidade
20-11-2019
Nova estratégia de manejo da Bayer alia os inseticidas Belt e Certero. Solução visa evitar os altos prejuízos ocasionados pela praga, que chegam a R$ 5 bilhões por safra no setor
Texto: Leonardo Ruiz
Fotos: Arquivo CanaOnline
Até o início dos anos 2000, a broca-da-cana (Diatraea saccharalis) era uma praga de importância secundária, com danos mais expressivos em cana-planta e em socas de primeiro corte. Este fato levava usinas e fornecedores a concentrarem suas medidas de controle unicamente em canaviais mais novos. O manejo em cortes avançados era realizado apenas se houvesse mosca remanescente. Vale ressaltar que naquele período o controle biológico era a ferramenta mais eficaz de combate, em função do número reduzido de inseticidas para a broca disponíveis na época.
Hoje, o cenário já não é mais o mesmo. A broca alcançou o status de principal praga da cultura. Decorrência das profundas alterações no sistema produtivo ocorridas ao longo das duas últimas décadas. A principal delas foi a mudança na colheita, que migrou do sistema manual de cana queimada para o mecanizado de cana crua.
| Evolução da colheita mecanizado X Índices de infestação de broca |
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| Fonte: Leila Luci-Dinardo Miranda |
Se observamos os gráficos de evolução da colheita mecanizada no Estado de São Paulo e compará-los os índices de infestação da broca ao longo dos anos fica claro que a falta de fogo beneficiou demasiadamente a praga. Conforme a mecanização da colheita avançava, a incidência de broca seguia no mesmo patamar, aumentando não somente em área, mas também em danos, que não já eram restritos apenas aos canaviais mais jovens.
A pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Leila Luci Dinardo-Miranda, explica que, ao extinguir o fogo da operação, começaram a surgir problemas com outras pragas, como a cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata). Para o controle, eram utilizados inseticidas não tão seletivos aos inimigos naturais da broca, que foram então sumindo dos canaviais. O resultado foi um aumento nas populações de Diatraea saccharalis.
| Variedades mais suscetíveis, expansão da cultura para regiões mais quentes e a falta de controle também foram fatores preponderantes para uma rápida guinada nas infestações |
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No entanto, a colheita de cana crua não é a única razão da rápida “escalada” da broca pelas lavouras brasileiras. Variedades mais suscetíveis, expansão da cultura para regiões mais quentes e propícias ao desenvolvimento da praga – e inadequadas para a Cotesia flavipes – e a falta de controle em diversas usinas e agrícolas também foram fatores determinantes.
Como consequência direta, Leila relata que as infestações foram aumentando ano a ano até atingirem seu ápice em 2011. No entanto, a partir do ano seguinte, começou a ocorrer uma retração neste quadro, com uma diminuição gradativa das populações. Fato impulsionado pelo aumento na utilização de inseticidas.
“Desde então, o químico segue como carro-chefe do manejo. Mas não podemos esquecer que o inseticida sozinho não faz milagre. O correto é adotar um manejo integrado, aliando métodos químicos, biológicos e culturais, como a utilização de variedades mais resistentes em locais mais propícios à broca - áreas de vinhaça ou muito infestadas por Sphenophorus levis.”
| A partir de 2012, setor passou a utilizar inseticidas em larga escala para o controle da broca |
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A pesquisadora do IAC ressalta, ainda, a importância da utilização de diferentes grupos químicos durante as aplicações de inseticidas, ato que reduz a velocidade do estabelecimento da resistência nas populações de broca. “Quando usamos constantemente o mesmo inseticida, selecionamos os indivíduos resistentes àquele produto, cuja frequência na população será impulsionada. Em consequência, o defensivo se torna menos eficiente.”
Área tratada com inseticidas para a broca chega a quase 5 milhões de hectares
As constantes alterações no sistema produtivo de cana-de-açúcar impulsionaram as infestações de broca-da-cana por todo o Centro-Sul do país. São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás compartilham o topo no ranking dos estados mais afetados, com Índices de Infestação Final (I.I.F) variando de 4% a 6%. Em seguida, aparecem Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com I.I.F na ordem de 2%.
Preocupada com os danos causados, a comunidade sucroenergética tem, ano a ano, aumentado seus investimentos em ferramentas de controle, especialmente no uso de inseticidas. Um levantamento do instituto de pesquisa Spark mostrou que, de 2017 a 2018, houve um aumento de 22% no manejo da broca-de-cana, totalizando quase seis milhões de hectares tratados. Olhando para os químicos de forma isolada, também é notável uma evolução. Em apenas dois anos (2016 a 2018), a área tratada saltou de 3,7 milhões de hectares para 4,7 milhões de hectares.
| Evolução do manejo da broca-da-cana |
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| Fonte: Sparks 2018 |
Esse crescente no manejo da broca se deve, principalmente, aos altos danos causados. Quando jovem, a lagarta se alimenta das folhas para depois penetrar pelas partes mais moles do colmo. Nesse momento, ela abre galerias de baixo para cima - longitudinais ou transversais -, que podem ocasionar perda de peso, morte da gema apical, enraizamento aéreo, germinação das gemas laterais e tombamento.
Em canas novas, a broca pode causar também o secamento dos ponteiros e morte da planta (dano conhecido como "coração morto"). Além disso, os orifícios criados funcionam como porta de entrada de microrganismos - fungos e bactérias -, que geram impactos negativos no rendimento industrial e também sobre a qualidade do produto final.
| Prejuízos da broca vão muito além do canavial, com impactos negativos no rendimento industrial e também sobre a qualidade do produto final |
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Estimativas apontam que a broca-da-cana causa perdas de R$ 5 bilhões por safra, já que a cada 1% de infestação, perde-se 35kg de açúcar e 30 litros de etanol por hectare. “Diante desse cenário nada favorável, temos que optar por medidas que sejam assertivas, como a associação de químicos e biológicos e a utilização de inseticidas que sejam seletivos aos inimigos naturais e que possuam diferentes mecanismos de ação”, afirma porta-voz da Bayer CropScience, companhia que apresenta ao mercado canavieiro nacional sua mais nova estratégia para o controle da Diatraea saccharalis, que vem calcada em três pilares: seletividade, eficiência e sustentabilidade.
A solução engloba os inseticidas Belt e Certero. O primeiro é uma Diamida cujo ingrediente ativo é o Flubendiamida. Com modo de ação por contato e ingestão, o Belt possui uma ação translaminar e atua na liberação de cálcio, paralisando o sistema muscular da lagarta. Já o Certero, um fisiológico com o Triflumuron como ingrediente ativo, atua na inibição da síntese de Quitina. Seu modo de ação também é por contato e ingestão.
| Seletividade de Belt e Certero sobre inimigos naturais |
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| Fonte: Alexandre Sene, 2019 |
“Os produtos se complementam no controle da praga, sendo altamente seletivos aos inimigos naturais, incluindo Cotesia flavipes e Trichogramma galloi; entregando alta eficiência de controle com longo período residual; proporcionando um rápido controle, cessando a alimentação e os danos aos colmos; e possibilitando uma flexibilidade na colheita devido ao período de carência da solução. No final, tudo se traduzirá em maior produtividade e qualidade da matéria-prima.”
Pesquisadores validam novo programa de manejo da Bayer
Para validar seu programa de manejo para a broca-da-cana, a Bayer reuniu um time de especialistas para conduzir experimentos de campo e comprovar, na prática, os benefícios alcançados.
| Programa de Manejo Bayer – Sustentabilidade que vai além |
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| Fonte: Leila Luci-Dinardo Miranda, 2019 |
A pesquisadora do IAC, Leila Luci-Dinardo Miranda, realizou um trabalho que buscou avaliar a sustentabilidade da solução. Foram separadas quatro áreas: testemunha; Diamida A 60 g/ha; Diamida B 200 ml/ha; e Belt 100 ml/ha + Certero 80 ml/ha. Após 129 dias, o canavial tratado com o programa de manejo da Bayer resultou em uma intensidade de infestação (% de entrenós brocados) de apenas 1,4%, contra 4% da Diamida A; 4,7% da Diamida B e 5,3% da testemunha.
Extrapolado os dados para uma área de 10 mil hectares, a solução da Bayer evitaria a perda de 429 toneladas de açúcar e 256 mil litros de etanol em comparação com a Diamida A, totalizando um ganho de R$ 976,3 mil por safra. Já na comparação com a Diamida B, seriam evitadas perdas de 544,5 toneladas de açúcar e 324 mil litros de etanol, totalizando mais de R$ 1,3 milhão por safra.
| Belt e Certero - Efeitos na geração seguinte |
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| Fonte: Newton Macedo, 2019 |
O pesquisador Newton Macedo também trabalhou a fundo com o programa de manejo da Bayer. Um dos experimentos buscou avaliar os efeitos de Belt e Certero na geração seguinte em diversas fases da broca: ovos, lagartas e pulpas. Ao final dos testes, foi atestada a eficiência da solução.
Com base em seus trabalhos, Macedo recomenda o seguinte manejo para a broca-da-cana:
- Cana planta, soca de precoces e soca de mudas: 1ª aplicação com Belt (100 ml/ha) quando ocorrer infestações acima de 2%; 2ª aplicação com Certero (80 ml/ha) de quatro a seis semanas após primeira aplicação.
- Canas de meio de safra: 1ª aplicação com Belt (100 ml/ha) quando ocorrer infestações acima de 2%; 2ª aplicação com Certero (80 ml/ha) de quatro a seis semanas após primeira aplicação.
- Canas tardias: 1ª aplicação com Belt (100 ml/ha) quando ocorrer infestações acima de 2%. A segunda aplicação, com Certero (80 ml/ha), deverá ser realizada apenas com levantamento
O pesquisador ressalta que o levantamento da praga deve ser realizado em 30% dos talhões, visando otimizar a equipe. “Lembrando que o levantamento nas socas de mudas deverá ser realizado a partir de abril. Já em cana-planta, de maio em diante.”
CONFIRA ESPECIAL CANAONLINE – INOVAÇÕES INCREMENTAM O SETOR - http://www.canaonline.com.br/conteudo/edicao-62-portal-canaonline-outubro-novembro-2019.html









