CTC inaugura unidade de sementes e apresenta tecnologias no campo
17-04-2026

UPS viabiliza novo plantio e integra genética, IA e automação

Andréia Vital

O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) inaugurou nesta quinta-feira (16) sua primeira Unidade de Produção de Sementes Sintéticas (UPS), em Piracicaba – SP. A estrutura marca a transição da pesquisa para a aplicação em larga escala, consolidando mais de uma década de estudos e investimentos voltados à transformação do sistema produtivo da cana-de-açúcar.

Desenvolvida ao longo de 15 meses, a unidade possui 10 mil metros quadrados e capacidade inicial para atender até 500 hectares por ano em um turno, com potencial de expansão. A iniciativa, conduzida desde 2013 por uma equipe de cerca de 150 especialistas, demandou investimentos estimados em R$ 1 bilhão até a etapa de lançamento comercial.

“A UPS marca a transição entre o desenvolvimento científico e sua aplicação em escala. É o ponto em que a pesquisa se converte em capacidade operacional no campo, permitindo ao setor capturar valor de maneira mais ágil e consistente”, afirmou o CEO do CTC, Cesar Barros.

A tecnologia viabiliza, em escala, o uso de sementes sintéticas, substituindo o plantio tradicional por colmos e reduzindo o volume de material por hectare de cerca de 16 toneladas para aproximadamente 400 quilos, com impacto direto na logística e nos custos operacionais.

Na frente genética, Barros destacou o avanço da série CTC Advana. “Hoje os presentes aqui nesse evento representam quase 70% da moagem de cana do Brasil. Já tem uma área de plantio de 94% dos produtores do país com viveiros primários, secundários ou já em áreas comerciais com a Advana A1. É o maior lançamento que a gente já fez na nossa história”, disse.

Ainda no melhoramento genético, o CTC apresentou o Soma, um robô desenvolvido para ampliar a capacidade de análise no campo. O equipamento atua como uma “lente de aumento” na lavoura, permitindo identificar doenças antes da percepção humana e medir com precisão parâmetros como o número de colmos e de perfilhos por linha, considerados críticos na seleção de variedades. A tecnologia integra o conceito de melhoramento de precisão, que combina ciência, dados e algoritmos para acelerar o desenvolvimento de novas cultivares.

No campo da biotecnologia, a companhia apresentou a evolução da plataforma VerdPRO2, que combina resistência à broca-da-cana e tolerância a herbicidas. O CTC informou que desenvolve 14 variedades com essa tecnologia, sendo que uma delas já está em processo de aprovação na CTNBio e pode ser liberada para uso comercial no curto prazo.

Outro eixo de pesquisa envolve o controle do bicudo-da-cana, o Sphenophorus levis, que pode provocar perdas de até 30 toneladas por hectare. Segundo Barros, a empresa identificou um conjunto de oito proteínas com potencial de controle do inseto. “Esse é um projeto desafiador. Hoje já temos proteínas que controlam o inseto”, afirmou.

Na área digital, o CTC demonstrou um protótipo de inteligência artificial generativa, o GPT da Cana, voltado ao apoio à tomada de decisão no campo, com respostas em tempo real a simulações de desempenho produtivo.

Automação no plantio

Além da produção das sementes, o sistema inclui a mecanização do plantio com alto nível de automação. O projeto conta com parcerias com fabricantes como John Deere, TT do Brasil e Civemasa, empresa do grupo Tatu Marchesan, responsáveis pelo desenvolvimento de plantadoras específicas para o novo sistema. Os protótipos já estão na versão 2.0, com avanços na automação e na deposição em duas linhas.

Segundo Maximiliano Farré, gerente de engenharia da TT do Brasil, o equipamento é resultado de mais de dois anos de desenvolvimento. “No ano passado apresentamos a primeira versão e hoje trazemos uma máquina com melhorias, incluindo o aumento do número de linhas. Atualmente, temos duas linhas, com capacidade para plantios superiores a 800 metros”, afirmou.

De acordo com Farré, a máquina realiza automaticamente a distribuição das cápsulas no espaçamento definido, entre 40 e 80 centímetros, sem necessidade de intervenção do operador. “É uma máquina 100% tecnológica e automatizada, que já atinge a velocidade das plantadoras disponíveis no mercado e busca ampliar a capacidade que o CTC projeta para o sistema de sementes”, disse. Já o CEO da TT do Brasil, Guillermo Abratte, ressaltou o papel da tecnologia na evolução do plantio e no aumento da eficiência operacional.

O gerente comercial da Civemasa, Júlio César Urbano, destacou a adaptação dos equipamentos ao novo modelo de plantio. Segundo ele, o desenvolvimento das plantadoras exigiu ajustes para garantir precisão na deposição das cápsulas, uniformidade no espaçamento e estabilidade operacional, fatores considerados decisivos para o desempenho agronômico das sementes sintéticas.

Ganho operacional e escala

O modelo de sementes de cana elimina a necessidade de viveiros e pode liberar até 5% da área agrícola. “O sistema tradicional de plantio é utilizado há séculos. Estamos transformando isso em um processo mais leve, mais eficiente e com maior aproveitamento”, afirmou o diretor de agronomia do CTC, Luiz Antônio Dias Paes.

Representantes do setor destacaram o potencial da tecnologia. O diretor da Usina Batatais, Luiz Gustavo Diniz Junqueira, apontou a perspectiva de redução de custos operacionais, especialmente na etapa de plantio, enquanto o vice-presidente da Adecoagro, Renato Junqueira Santos Pereira, avaliou que a adoção do sistema pode impulsionar ganhos de produtividade e maior eficiência no manejo do canavial.

O diretor agrícola da Nardini Agroindustrial, Jaime Stupiello, destacou o impacto na operação. Segundo ele, o novo sistema tende a reduzir gargalos no plantio, aumentar a eficiência logística e trazer mais previsibilidade às operações no campo.

O presidente do conselho de administração da Cosan e da Raízen, Rubens Ometto, afirmou que a tecnologia tende a acelerar a evolução da cultura. “É fundamental o sucesso do CTC para acelerar a evolução da cana-de-açúcar. Essa tecnologia permite competir com outras culturas e proporciona um avanço muito mais rápido em relação a outros produtos agrícolas. Estou muito confiante”, disse.

Também participaram do evento Luiz Augusto Contin Silva, da Alta Mogiana, Paulo Leal, presidente da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana), e Alexandre Figliolino, conselheiro de empresas do setor.

Luiz Augusto Contin Silva, o Guto, destacou o potencial da tecnologia na operação agrícola. “É uma mudança relevante na forma de plantar cana, com impacto direto na eficiência e na organização das operações no campo”, afirmou.

Leal ressaltou o caráter inovador da solução. “A UPS é a primeira do tipo no mundo e deve mudar profundamente a forma de plantio quando estiver plenamente operacional. Hoje utilizamos cerca de 16 toneladas de cana por hectare, e a proposta é reduzir esse volume para aproximadamente 400 quilos, com menor custo e maior eficiência”, disse.

Já Alexandre Figliolino avaliou que a tecnologia tende a ampliar a competitividade do setor. Segundo ele, a integração entre genética, mecanização e dados pode acelerar ganhos de produtividade e reduzir gargalos históricos da cultura.

O presidente do Conselho Deliberativo do CTC, Luís Roberto Pogetti, destacou o papel da inovação diante dos desafios de aumento da produção e descarbonização.

A cerimônia reuniu lideranças do setor sucroenergético, executivos de usinas, fornecedores e empresas de tecnologia, entre outras lideranças, como o deputado federal Zé Vitor, o deputado Arnaldo Jardim, o presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Luiz Antônio Elias, e Mário Campos, da SIAMIG Bioenergia (Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais) e Bionergia Brasil, reforçando o interesse institucional e do mercado nas novas soluções apresentadas.