El Niño eleva risco climático e reforça viés positivo para preços do açúcar em 2026, avalia Santander
09-01-2026

Banco detalha efeitos combinados do clima na Índia, decisões de mix no Brasil e impactos defasados sobre a oferta global

Por Andréia Vital

O avanço dos sinais de El Niño amplia a incerteza sobre a oferta global de açúcar e reforça um cenário assimétrico para os preços ao longo de 2026, com maior probabilidade de altas do que de quedas. A conclusão está em relatório do Santander, que aprofunda a análise sobre a interação entre fenômenos climáticos no Pacífico e no Oceano Índico e seus reflexos diretos sobre a produção indiana e o posicionamento estratégico do Brasil no mercado internacional.

De acordo com o estudo, os modelos climáticos indicam probabilidade elevada de instalação do El Niño a partir de meados de 2026, justamente durante o período das monções na Índia. Como a maior parte das chuvas ocorre nessa janela, qualquer desvio negativo tende a afetar de forma relevante o desenvolvimento da cana e a definição do rendimento agrícola. O banco ressalta que o histórico recente mostra que choques climáticos nessa fase têm capacidade de provocar perdas significativas de produção.

O relatório destaca que a dinâmica climática na Índia depende do equilíbrio entre o El Niño, associado à redução das chuvas, e o Dipolo do Oceano Índico, que pode atuar como fator de compensação quando positivo. No cenário de dipolo negativo ou neutro, porém, o efeito seco do El Niño tende a prevalecer, aumentando o risco de frustração de safra. Para o Santander, esse balanço climático segue incerto e amplia a volatilidade esperada para o mercado.

Outro ponto central da análise é o efeito defasado típico da cultura da cana. Mesmo que as condições climáticas se normalizem em um segundo momento, perdas ocorridas em uma safra costumam repercutir no ciclo seguinte, reduzindo a capacidade de resposta rápida da oferta global. Foi esse mecanismo que sustentou preços elevados após o forte El Niño registrado em 2023, segundo o banco.

No caso brasileiro, o relatório chama atenção para a expectativa de redução do mix açucareiro, com maior direcionamento da cana para a produção de etanol. Esse movimento, motivado por fundamentos do mercado de combustíveis e pela estratégia das usinas, limita a expansão da oferta de açúcar justamente em um momento de maior risco climático em países concorrentes.

Na avaliação do Santander, a combinação entre maior vulnerabilidade da produção indiana, rigidez da oferta global e decisões mais conservadoras de mix no Brasil cria um ambiente favorável para sustentação das cotações internacionais. Ainda que não se descarte volatilidade no curto prazo, o banco vê melhora clara na relação risco retorno para os preços do açúcar em 2026.

O relatório foi assinado pelos analistas Guilherme Palhares e Laura Hirata, do Santander, responsáveis pela cobertura do setor sucroenergético brasileiro