EMBRAPII, que já teve R$ 1 bi em investimento, fomenta inovação no país

Hugo Molinari, da Embrapa: projeto para desenvolver variedades resistentes à broca-da-cana (foto: Daniela Collares/Divulgação Embrapa Agroenergia)

 

Em um país como o Brasil, que investe apenas 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), o caminho mais curto para as empresas lançarem novos produtos passa pela interação com instituições científicas de competências tecnológicas consolidadas. Unir essas duas pontas tem sido o papel da organização social Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que já garantiu mais de R$ 1 bilhão em investimentos desde 2014 e pretende dobrar o valor acumulado em 2019.

O modelo da Embrapii permite a redução de riscos inerentes a processos inovadores e estimula a maior participação da iniciativa privada. Em países desenvolvidos, 70% dos investimentos em PD&I são feitos por entes privados. “No Brasil, a relação é diferente: 60% público e 40% privado”, diz Jorge Guimarães, presidente da Embrapii. Segundo o executivo, o objetivo de sua organização é inverter essa lógica.

A Embrapii foi criada em 2013 para fomentar a inovação por meio de parcerias entre empresas e instituições de pesquisa públicas e privadas. Seu objetivo, segundo o presidente Jorge Guimarães, é agilizar o financiamento de projetos inovadores. São elegíveis iniciativas de diversos setores, mas principalmente de tecnologia da informação, biotecnologia, materiais e química.

O modelo prevê o compartilhamento de custos do projeto (veja quadro). Para levar os planos adiante em 2019, a Embrapii tem no orçamento R$ 50 milhões do Ministério da Saúde, R$ 70 milhões da Ciência e R$ 30 milhões da Educação. “Estamos buscando mais R$ 100 milhões com outros ministérios”, diz Guimarães. “O modelo garante emprego qualificado, desenvolvimento social e acúmulo de competências, além da retenção de talentos no país e arrecadação de impostos.”

Em um mundo em permanente transformação, destinar recursos para a inovação é a melhor maneira de tornar a empresa competitiva. Manter departamentos de pesquisa e desenvolvimento, porém, é bastante dispendioso, o que limita a atuação de muitas companhias. “A grande maioria não tem centro de pesquisa porque é caro manter”, diz Guimarães. “Nas nações desenvolvidas, as empresas soltam produtos novos a cada dois, três, quatro meses. No Brasil, o período é muito maior.”

A Embrapii, com seus 42 centros de pesquisa no país, entra em cena para reduzir esse gargalo. Atende, atualmente, 460 empresas. “Há muitas startups, mas também atuamos com companhias consolidadas. Temos, por exemplo, 16 projetos com a Embraer”, ressalta o executivo.

No Distrito Federal, a unidade Embrapii Bioquímica de Renováveis, hospedada na Embrapa Agroenergia, desenvolve uma tecnologia que poderá representar uma revolução em biofertilizantes a partir de algas marinhas. A iniciativa é da startup Dimiagro, de Formosa (GO), que tem apenas oito funcionários — mas muitas ideias inovadoras. “Há um estudo que mostra que o biofertilizante aumenta em até 15% o rendimento de qualquer tipo de cultura”, diz Grégori Boligon Vieira, dono da Dimiagro.

O executivo conta que, atualmente, importa o extrato de alga para fabricar o produto, mas que a ideia é desenvolver uma tecnologia 100% nacional. O extrato de alga é a matéria-prima mais cara do fertilizante da Dimiagro, responsável por 50% dos custos. “Somos uma empresa de pequeno porte, atendemos cerca de 300 produtores na região”, afirma o empreendedor.

Patentes

O presidente da Embrapii destaca que o objetivo do negócio não é fazer pesquisa básica, mas aplicada às necessidades das empresas. “A gente quer resultados para as companhias, desejamos que elas registrem patentes”, diz. “Hoje, já são 140 registros de propriedade intelectual que ficam com as companhias.”

Em alguns casos, há consórcios de empresas do mesmo segmento que competem entre si, mas querem desenvolver algo em comum. Isso já acontece na área de cosméticos, com um projeto de encapsulamento de princípios ativos solicitado por Natura, Boticário, Theraskin e Yamá.

O potencial é enorme nas áreas de saúde, como química, farmacêutica e equipamentos. Por isso, entre os parceiros estão muitas federações de indústrias. Na área de tecnologia, destacam-se projetos ligados à Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), Internet das Coisas (IoT) e desenvolvimento de equipamentos. “Temos como cobrir praticamente todos os segmentos”, destaca Guimarães.

O valor médio dos projetos gira em torno de R$ 1,6 milhão. “Às vezes, o investimento é desse montante, mas resulta em patentes que rendem centenas de milhões de dólares”, garante o executivo. Em outras oportunidades, o investimento é menor, mas com potencial para gerar economia significativa.

É o caso da pesquisa que a startup PangeiaBiotech, incubada na Unicamp (SP), desenvolve na Embrapa Agroenergia (DF). Com investimento de R$ 600 mil, o projeto pretende desenvolver variedades de cana-de-açúcar capazes de realizar o controle biológico da broca-da-cana (uma espécie de mariposa presente nos canaviais) e facilitar o manejo da cultura com o herbicida glifosato.

De acordo com Hugo Molinari, pesquisador da Embrapa Agroenergia, além dos prejuízos anuais de quase R$ 5 bilhões, a broca deprecia a produção de açúcar. “O projeto vai gerar um material muito importante para o setor sucroenergético, porque também desenvolve resistência ao herbicida para controle de ervas daninhas, que competem por água e nutrientes com a planta”, afirma.

O projeto, que já passou da fase de laboratório, gerou plantas modificadas e com características incorporadas. “Vamos fazer a multiplicação das mudas em 2019 e, em 2020, será o primeiro teste, com a brotação da cana”, afirma Molinari. “A ideia é finalizar todos os ensaios e validações em 2022. O mais importante dessa conexão é atender uma demanda real do mercado ao desenvolver um produto.”

Apesar de a maioria das empresas atendidas ser de médio e pequeno portes, grandes companhias também apostam na fórmula da Embrapii. A gigante alemã Siemens desenvolveu, em parceria com a Fundação Certi, a Sala de Comando Inteligente (Virtual Operation Center — VOC), que possibilita o controle remoto de equipamentos de ressonância magnética.

Os aparelhos são conectados ao VOC por meio de um kit de hardware e software, que conta com câmeras, interfaces de áudio para comunicação e sensores diversos. Isso permite a interação entre pacientes, auxiliares e operadores, além do monitoramento do ambiente.

O superintendente de Negócios da Fundação Certi, Laercio Silva, explica que o operador físico do equipamento normalmente é um técnico que captura imagens. “Percebemos que seria viável reunir técnicos especializados numa sala remota, acessando o equipamento”, explica. “As vantagens são redução de custos, melhor qualidade das imagens e maior produtividade dos profissionais.” O índice de repetição dos exames também cai com o modelo. “Fizemos o projeto-piloto para o grupo, mas agora virou uma iniciativa global da empresa, que já colocou o produto no mercado”.

 

Fonte: Correio Brasiliense