Estudos do CEPENFITO revelam influência climática e avanços no manejo integrado do Sphenophorus levis
17-11-2025

Pesquisa da Unesp/FCAV associa clima, dinâmica populacional e ganhos de produtividade com estratégias de controle químico e biológico

Por Andréia Vital

O Centro de Pesquisa em Engenharia – Fitossanidade em Cana-de-Açúcar (CEPENFITO), da Unesp/FCAV, vem consolidando uma base científica robusta para o manejo racional do Sphenophorus levis, o bicudo-da-cana, praga subterrânea que causa prejuízos crescentes ao setor sucroenergético. Em uma série de estudos coordenados pelo professor doutor Rodrigo Cupertino Bernardes, o grupo avaliou a influência de variáveis climáticas, a eficácia de diferentes inseticidas, químicos e biológicos, e os impactos diretos sobre a produtividade e a dinâmica populacional do inseto.

Os experimentos foram conduzidos em áreas comerciais e de pesquisa com histórico de alta infestação. Os resultados demonstraram forte correlação entre o regime de chuvas e o aumento populacional da praga. Bernardes, que apresentou a palestra “Contribuições do CEPENFITO no manejo de Sphenophorus levis” durante o III Fitocana, no dia 5 de novembro, no Centro de Convenções da FCAV Unesp Jaboticabal, explicou que cada milímetro adicional de precipitação média ao longo da safra pode resultar em um acréscimo estimado de 67 formas biológicas por hectare.

A temperatura também se mostrou decisiva: ambientes em torno de 24 °C favorecem o desenvolvimento larval, especialmente no microclima estável e úmido sob a palhada.

As análises reforçam que o “gatilho ambiental” da infestação ocorre no estágio larval, e não na fase adulta. “O adulto encontrado no campo é consequência de condições que favoreceram o desenvolvimento das larvas semanas antes. Isso muda a lógica de monitoramento, porque o controle mais eficiente deve ser direcionado ao período em que o inseto está em desenvolvimento subterrâneo”, destacou o pesquisador.

Outro ponto relevante foi a avaliação de estratégias de aplicação. Em ensaios conduzidos com vinhaça localizada e corte de soqueira, misturas de neonicotinoides com piretroides apresentaram desempenho superior, refletindo em ganhos de 13% a 14% na produtividade em comparação com áreas não tratadas. Além da ação inseticida, esses compostos podem atuar como bioestimuladores, favorecendo vigor vegetativo e melhor aproveitamento nutricional.

Nos estudos subsequentes, a equipe comparou também produtos biológicos, como nematoides entomopatogênicos e fungos do gênero Beauveria, aplicados em diferentes épocas, seca e chuvosa, para avaliar a influência das condições ambientais sobre a eficácia de controle. Embora nem sempre houvesse diferenças estatísticas significativas, observou-se tendência de redução na ocorrência acumulada de adultos, sobretudo quando os biológicos foram aplicados no período mais úmido da safra.

A pesquisa também correlacionou índices de infestação e perda de produtividade. Em uma das áreas avaliadas, o grupo verificou que cada aumento de 1% na taxa de ataque resulta na redução média de uma tonelada de cana por hectare, uma relação direta de 1 para 1, consistente com achados anteriores, agora comprovada com dados recentes coletados em condições tropicais. “A solidez dessa correlação reforça a urgência do manejo preventivo. O custo do controle é muito menor que o prejuízo decorrente da perda de biomassa”, observou Bernardes.

Os estudos integraram ainda modelos de correlação temporal, cruzando dados de precipitação, temperatura e umidade com as diferentes fases biológicas do inseto. A partir da análise de janelas de tempo, o CEPENFITO identificou que o pico de sensibilidade do S. levis às variáveis climáticas ocorre quatro a cinco semanas antes da detecção dos adultos em campo, informação estratégica para definir o momento ideal de intervenção.

Os resultados reforçam a necessidade de um manejo integrado de pragas (MIP) que combine tecnologia, biologia e monitoramento ambiental. “A variabilidade climática está redefinindo o comportamento do Sphenophorus. Nosso desafio é transformar esses dados em recomendações práticas para o produtor, ajustando o momento e o tipo de controle para cada região”, afirmou o pesquisador.

Bernardes também ressaltou que o microclima sob a palhada, ambiente úmido, protegido e termicamente estável, favorece a sobrevivência do inseto, dificultando o controle químico tradicional. “Mesmo em dias de 30 °C, a temperatura sob a palhada se mantém próxima de 24 °C. É um ambiente confortável para o inseto e desafiador para o controle. Precisamos pensar em soluções que atuem nesse microecossistema”, disse.

Os dados gerados pelo CEPENFITO contribuem diretamente para políticas de manejo sustentável no setor canavieiro, oferecendo uma visão integrada da ecologia da praga e das variáveis agronômicas envolvidas. “Com base nesses estudos, é possível planejar ações mais eficazes e ambientalmente responsáveis, reduzindo perdas e aumentando a eficiência dos insumos”, concluiu.