Expodireto deixa de divulgar público e volume de negócios pela primeira vez
17-03-2025

Movimentação na 25ª edição da Expodireto Cotrijal: organizadores não informaram número de visitantes nem volume de negócios — Foto: Divulgação/Expodireto Cotrijal
Movimentação na 25ª edição da Expodireto Cotrijal: organizadores não informaram número de visitantes nem volume de negócios — Foto: Divulgação/Expodireto Cotrijal

Edição 2025 da feira agrícola de Não-Me-Toque (RS) terminou nesta sexta-feira (14/3)

Por Marcelo Beledeli — Porto Alegre

A 25ª edição da Expodireto Cotrijal, em Não-Me-Toque (RS), encerrou-se nesta sexta-feira (14/3) sem a tradicional divulgação de números oficiais de negócios e visitação. Essa foi a primeira vez que os organizadores deixaram de informar os resultados do evento.

Segundo o presidente da cooperativa Cotrijal, Nei César Manica, a decisão de não informar o balanço final de público e negócios tem relação com a ideia de não fazer uma “competição” com outras feiras agropecuárias do Rio Grande do Sul, como Expointer e Fenasoja.

“Ficar fazendo comparativos de quem vendeu mais não agrega nada. Não é esse o objetivo da Expodireto, mas sim apresentar o que há de mais moderno em tecnologia agrícola”, afirmou o dirigente.

Em edições anteriores, mesmo em um cenário adverso para o produtor rural do Estado, a feira divulgou a movimentação de negócios. Foi o que ocorreu, por exemplo, em 2006. Naquele ano, o volume de negócios na Expodireto foi de R$ 50 milhões, ou menos da metade do resultado da edição do ano anterior, quando a movimentação foi de R$ 105 milhões.

Nos bastidores, fontes ligadas ao agronegócio comentaram que uma das razões para a não divulgação dos dados seria não “chamar a atenção” para altos valores de negócios fechados no Rio Grande do Sul em um momento em que os produtores rurais do Estado estão mobilizados para conseguir a securitização de suas dívidas rurais.

A Expodireto Cotrijal não falou sobre essa correlação, mas muitas das discussões na feira tratavam dessa incerteza. O ambiente de preocupações ratificou-se com a informação da Emater-RS de que a quebra da safra de soja do Estado será de 17,4%. As perdas para a economia do Estado podem passar de R$ 14 bilhões.

A securitização das dívidas foi tema de audiência pública que ocorreu nesta sexta-feira no parque da Expodireto. No encontro, a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) divulgou levantamento em que mostrou que o Estado deixou de produzir 40,6 milhões de toneladas entre 2020 a 2024 devido aos problemas climáticos, o que representou perdas de R$ 117 bilhões para o setor e de R$ 319 bilhões para a economia gaúcha de forma geral.

“Seriam necessárias mais de 875 mil carretas bitrem para carregar toda essa produção. E se colocássemos elas em fila, uma do lado da outra, seriam cinco filas do Oiapoque ao Chuí”, exemplificou o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz, que apresentou o levantamento.

O produtor Charles Macedo, de Rosário do Sul, onde planta 1,2 mil hectares de soja, falou sobre os efeitos práticos do clima adverso. “Vamos colher de cinco a dez sacas de soja por hectare nesta safra. Em 2024, tivemos perda de 60% devido ao excesso de chuva, e as safras anteriores também foram problemáticas, então precisamos de amparo para quitar os débitos e seguir produzindo”, disse.

Rodrigo Stefanelo, de Tupanciretã, participou da mobilização com um grupo de cerca de 30 produtores da região de Cruz Alta. “Só em 2021 a safra de soja normal nesses últimos anos. Trabalho com gado de corte também, então consigo me manter, mas vim para apoiar os produtores que precisam de socorro”, informou. Dois projetos de lei solicitando a securitização das dívidas rurais dos produtores gaúchos tramitam no Congresso Federal.

Alguns dos números da feira

Antes do início da feira, a estimativa da organização era de que o evento receberia entre 230 mil e 280 mil visitantes. Ao todo, a 25ª Expodireto Cotrijal contou com 610 expositores em 131 hectares. Representantes e delegações de mais de 80 países participaram das atividades da feira. No Pavilhão da Agricultura Familiar, foram 222 expositores, enquanto a Arena Agrodigital contou com mais de 30 startups, empresas e hubs de inovação.

Em 2024, o volume de negócios da Expodireto foi de R$ 7,9 bilhões, e a feira recebeu mais de 377 mil visitantes - em ambos os casos, os números foram recorde. O evento reuniu 577 expositores no ano passado.

Fonte: Globo Rural