Grãos vitaminam os canaviaisvoltar

Publicado em : 19/11/2018
Grãos vitaminam os canaviais

Amendoim, soja, milho ocupam áreas de renovação de canaviais, promovendo benefícios agronômicos, menor custo no plantio da cana e reforço no caixa

Grãos brotam na maior parte das áreas em que os canaviais serão renovados. Isso ocorre porque a cana-de-açúcar, por ser uma planta semiperene, tem prazo de validade, que gira, normalmente, entre cinco e sete ano. Após este período, na maioria das vezes, a soqueira perde a produtividade ao ponto de não ser mais economicamente viável, levando à sua erradicação e a implantação de novo canavial mais produtivo.

Entre a colheita e o novo plantio sobra um período de aproximadamente seis meses em que a área fica vazia, e o produtor sem renda. É aí que entra a opção de rotação de cultura, ou seja, plantar nestas áreas amendoim, soja milho, ou então adubação verde como a crotalária.

Na região de Ribeirão Preto, SP, a cultura mais cultivada nas áreas de renovação com cana é o amendoim, tanto que o nordeste paulista é o maior produtor de amendoim do Brasil, sendo que quase 90% da produção acontece nas áreas de sucessão.

Plantado, dê preferência, em outubro e colhido, no máximo, em até 150 dias, essa leguminosa só traz benefícios ao solo e ao bolso do produtor. Repondo as condições de fertilidade do terreno; ajuda a quebrar o ciclo de pragas, doenças e plantas daninhas e promove a fixação de nitrogênio e a incorporação de matéria orgânica; além de gerar renda extra num período em que o caixa ficaria vazio.

Na fazenda do produtor Roberto Rossetti, por exemplo, não tem conversa. Em 100% da área de renovação de canavial é feita rotação cana-amendoim. Uma prática que não é nem ao menos recente na propriedade. É realizada desde o tempo em que seu pai comandava o negócio, há mais de 20 anos. “Nunca deixei a área vazia”, enfatiza.

O ato é tão rentável que apenas suas áreas de renovação não são suficientes para apaziguar seu desejo de plantar amendoim. Todos os anos, ele arrenda cerca de 450 hectares de outros produtores que optam por não fazer rotação em suas propriedades. Azar o deles. O agricultor conta que a renda proporcionada pela leguminosa é infinitamente superior ao que ele ganharia caso apenas arrendasse seu terreno para terceiros. Hoje, a produção de Rossetti beira as 220 sacas/ha, um número bastante considerável.

Mas, afinal, o que torna o amendoim tão atrativo para os produtores de cana? Quem explica é Valdeci Malta da Silva, gerente de originação da Cooperativa Agroindustrial (Coplana), maior cooperativa de processamento e comercialização de amendoim do Brasil. Correção e incremento da fertilidade do solo, através da fixação biológica de nitrogênio; redução da infestação das principais pragas e doenças da cana; utilização de herbicidas de diferentes mecanismos de ação em relação aos utilizados na cana visando o controle de plantas daninhas e a redução da população de nematoides, já que o amendoim não é hospedeiro do mesmo, são apenas algumas das vantagens. “Após a rotação, o ciclo da cana será mais produtivo, devido a todos os benefícios agronômicos citados.”

O amendoim não é bom apenas para o solo, é para ao bolso também. Além da receita extra no final do mês com a venda do amendoim, o produtor ainda amortizará os custos do plantio da cana naquela área. “Os benefícios agronômicos, mesmo importantes, acabam sendo intangíveis para alguns produtores, que não enxergam o retorno no bolso diretamente. Já a renda líquida gerada - em torno R$ 1.652,00/ha, podendo chegar a R$ 1.980,00/ha - acaba sendo o fator decisivo na hora de optar pela rotação.”

SOJA GANHA ESPAÇO E SE TORNA OPÇÃO AO USO DO AMENDOIM EM ÁREAS DE RENOVAÇÃO

Por muito tempo, o amendoim foi a escolha de muitos agricultores para ser rotacionado com a cana nas áreas de reforma. No entanto, nos últimos anos, uma crescente parcela vem optando pela soja, que tem ganhado força no cenário nacional e passa a disputar acirradamente com o amendoim a preferência dos canavicultores brasileiros.

Os motivos são vários. O pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Denizart Bolonhezi, enumera alguns deles: (1) No cultivo direto da soja é possível diminuir o tempo de espera até o novo plantio da cana. Com o amendoim, são necessários quase cinco meses do plantio à colheita. Já na soja, o tempo é de pouco mais de três meses; (2) Ampla possibilidade de venda do produto. O agricultor não fica atrelado a apenas um comprador; (3) Por ser uma commodity, quem regula seu preço é o mercado internacional, o que abre um leque de possibilidades de negociações para o produtor que pode, por exemplo, vender no mercado futuro; (4) Proximidade do porto, que reduz o frete e aumenta a remuneração;

Entretanto, Bolonhezi explica que há espaço para ambas as culturas, ressaltando que cada uma delas possui prós e contras que devem ser levados em conta pelo produtor. “O amendoim dá mais retorno, mesmo nos períodos em que a soja está com preços altos. Porém, ele é muito específico em relação ao maquinário utilizado. Em termos de benefício para o solo, as duas culturas são semelhantes. O amendoim, por ser uma planta vigorosa, acaba produzindo mais por hectare e, consequentemente, fixa uma quantidade maior de nitrogênio. Por outro lado, ele é bastante exigente, e exporta mais fósforo do que a soja.”

O pesquisador informa que o tipo de solo da propriedade também deve pesar na hora de escolher com qual cultura rotacionar a cana. “Em regiões de solos mais fracos, arenosos e suscetíveis a erosão, o produtor deve escolher uma cultivar de soja muito rústica ou não optar pela cultura, pois a tendência de frustação será grande. Neste caso, o amendoim seria a melhor opção. Já nas áreas de solos mais férteis e argilosos, como na região de Ribeirão Preto, a soja é mais interessante, pois provavelmente atingirá tetos produtivos mais altos.”

MILHO EM ROTAÇÃO COM CANA É ALTERNATIVA PARA PRODUÇÃO DE RAÇÃO E ÁREAS DE CANA DE ANO

Na corrida pela preferência dos canavicultores, o milho corre por fora. A parceria cana-milho até existe, mas é restrita ao interesse do empreendedor. Algumas propriedades, por exemplo, o utilizam com o objetivo de produzir ração para seu confinamento de gado. Caso utilizassem soja ou amendoim, teriam que vender sua produção para comprar ração.

O pesquisador da APTA, Denizart Bolonhezi, explica que, caso seja adotada essa opção, o nitrogênio que deixará de ser fixado no solo, pelo não uso da soja ou amendoim nas áreas de renovação, poderá ser fornecido utilizando o esterco do confinamento. “O produtor consegue produzir um fertilizante orgânico. Dessa forma, o déficit de nitrogênio no solo não será tão alto.”

Embora não fixe nitrogênio, o pesquisador ressalta que a utilização do milho em parceria com a cana também tem suas vantagens: (1) Em solos mais arenosos - com grande vulnerabilidade a erosão - pode contribuir em termos de conservação, pois vai deixar maiores quantidades de palha na área do que as outras duas culturas; (2) Algumas variedades de milho transgênicas podem ter efeito supressor na broca da cana (Diatraea saccharalis), que também é uma praga da cultura.

Outra possibilidade que se abre para o milho é nas áreas que receberão cana-de-ano. Como explicado no início, da colheita da cana até o plantio da cana-de-açúcar existe uma janela de cerca de seis meses em que a terra fica ociosa. No caso da cana-de-ano, essa janela é ainda maior, pois o plantio do novo canavial será feito, não mais em março, como na cana de 18 meses, mas em agosto. Neste caso, após a colheita da soja no início do ano, o produtor entraria com milho safrinha, criando renda naquela terra até que o canavial de cana-de-ano seja implantado dali a seis meses.

É o caso do produtor Pedro Luís Guerini, detentor de 900 hectares de terras na região paulista de Porto Feliz. Este ano, uma área de 200 hectares - destinada ao plantio de cana-de-ano - recebeu milho safrinha após a soja. A produtividade colhida foi de 130 sacas/ha. “O milho, por ser da mesma família da cana, não quebra o ciclo de pragas e doenças. Mas isso não é um problema, porque já quebrei esse ciclo anteriormente com a soja. O que ele proporcionará é uma matéria orgânica alta e renda extra.”

O produtor se recusa a tratar o milho levianamente. Pelo contrário. Faz um arroz com feijão mais do que bem-feito. Até mesmo com três aplicações de fungicida na área. Coisa que quase ninguém faz. “Como o preço está ruim, a maioria do pessoal trata o milho de qualquer jeito. Eu não. Trato ele muito bem”, garante.

Independente da cultura intercalar escolhida, o engenheiro agrônomo e produtor rural Ismael Perina Júnior, salienta que a lavoura que irá rotacionar com a cana deverá ser tratada com excelência. “Não podemos esquecer que essa área vai receber a cana, e o objetivo é que o canavial mantenha alta produtividade por muitos anos. Além disso, o objetivo não é só os ganhos agronômicos, mas obter renda com essa rotação. Para isso, é fundamental fazer a lição de casa bem-feita, começando pelo preparo de solo, é preciso adquirir a semente do grão de alta qualidade, oferecer à planta nutrição adequada, assim como o correto controle de daninhas, pragas e doenças”, aconselha Perina Júnior, que em sua fazenda, a Belo Horizonte, em Jaboticabal, faz bonito ao alcançar alta produtividade nos grãos e na cana.

 


Fonte: CanaOnline
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