Irrigação por gotejo garante canaviais longevos com alta produtividade, reduzindo o custo da produção canavieira
24-11-2021

 Não basta apenas postergar a reforma. Canavial precisa se manter produtivo ao longo dos cortes. Foto: Arquivo CanaOnline
Não basta apenas postergar a reforma. Canavial precisa se manter produtivo ao longo dos cortes. Foto: Arquivo CanaOnline

Mas, não adianta postergar reformas em canaviais quase deteriorados e pouco produtivos, essa alternativa só deve ser adotada nos canaviais que mantiveram uma produtividade alta ao longo dos cortes

Leonardo Ruiz e Luciana Paiva

Os preços dos produtos da cana-de-açúcar (etanol, açúcar, energia e até o bagaço) estão altamente remuneradores, no entanto, o que também está batendo recorde é o custo de produção do setor. E tudo começa com a implantação do canavial. Na última safra, na região Centro-Sul, cada novo hectare plantado representou um custo de R$ 10.395, segundo dados do Projetos Pecege-Esalq.

Os números do ciclo atual ainda não foram calculados, mas, o Gestor de Projetos do Pecege, João Rosa (Botão), acredita que eles devam facilmente ultrapassar os R$ 12.000/ha. “A desvalorização cambial, aliada a um contexto de pandemia global, impulsionou os preços dos insumos, que já chegam à casa dos R$ 5.000 por tonelada e hoje respondem por cerca de 48% dos custos com formação de novas áreas.” Outro elemento que vem sendo responsável pelo aumento dos custos de implantação é a muda utilizada para plantio. Hoje, esse item já representa 18% dos custos atuais de implantação.

Diante desses números nada animadores, elevar a longevidade dos canaviais e, consequentemente, reduzir o custo com a formação, é a melhor saída. Porém, é importante que essa alternativa de manejo seja adotada apenas nos canaviais que mantiveram uma produtividade alta ao longo dos cortes. Infelizmente, em decorrência da falta de liquidez, muitos deixam de renovar canaviais que estão deteriorados e pouco produtivos, buscam aproveitar ao máximo os bons preços do ATR. Mas se trata de um ganho enganoso.

Para ter canaviais longevos com alta produtividade, o correto é realizar um bom manejo começando pela implantação do canavial e seguindo pelos anos da socaria. Faz parte desse manejo a adoção tecnologias que se apresentam como essenciais para a conquista dessa dobradinha alta produtividade por muitos cortes. Muitos estão descobrindo que a principal dessas tecnologias é a irrigação tecnificada.

A implantação de canavial apresenta o maior custo de produção de cana-de-açúcar

Entre as modalidades de irrigação, a mais eficiente é o gotejo subterrâneo. Daniel Pedroso, Especialista Agronômico da Netafim, empresa pioneira e líder mundial em soluções para irrigação, salienta que a eficiência do uso da água nesse sistema vai de 95% a 100%. Além disso, ele entrega as quantidades ideais de recursos hídricos de acordo com as fases do cultivo, no momento certo e diretamente na raiz da planta, maximizando os resultados.

Outro diferencial do gotejo é a possibilidade de aplicação de moléculas químicas e orgânicas e produtos biológicos através dos mesmos equipamentos de injeção de água. “A Nutrirrigação foi desenvolvida pela Netafim e permite ao agricultor aprimorar sua adubação convencional, aplicando parte dos nutrientes de forma mais parcelada seguindo uma agenda previamente determinada visando suprir a necessidade da planta para seu pleno desenvolvimento e produção. Além de uma cana mais vigorosa, essa prática também reduz custos de aplicação, evita a alta salinidade causada pelo uso excessivo de fertilizantes e impede a lixiviação e, consequentemente, a perda dos produtos aplicados”, afirma Daniel.

COM IRRIGAÇÃO POR GOTEJO, O SETOR PODE PARAR DE PENSAR EM CANAS DE CINCO OU SEIS ANOS

 Ao utilizar a tecnologia de irrigação por gotejo da Netafim, alta produtividade se manterá por, no mínimo, 12 cortes

Em mais de 20 anos de atuação no Brasil, os ganhos decorrentes dos projetos da Netafim são notórios. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a média de produtividade das lavouras do Centro-Sul em 2018 atingiu 76,26 Tonelada de Cana por Hectare (TCH). No mesmo ano, as áreas irrigadas com a tecnologia da empresa alcançaram médias de 131,47 TCH, um avanço de 55 ton/ha. No Nordeste, o crescimento foi ainda maior, cerca de 65 ton/ha a mais do que a média regional.

O Especialista Agronômico da Netafim reforça que, ao utilizar a tecnologia de irrigação por gotejo da empresa, o produtor ou usina não alcançarão apenas um pico de produtividade que logo despencará. Pelo contrário. Esses números se manterão altos por, no mínimo, 12 cortes. “Quando irrigamos por gotejamento, paramos de falar de cana de cinco ou seis anos e começamos a pensar em canas acima de 12 anos. Lembrando que são áreas longevas, mas de alta produtividade. Temos canaviais em São Paulo indo para o oitavo corte com uma produtividade média de 130 TCH.”

Daniel Pedroso salienta que, ao “pular” uma ou duas reformas, o produtor ou usina não terão de arcar com altas despesas com implantação, derrubando assim seus custos de produção. E ao produzir mais em uma mesma área, haverá diluição dos gastos com insumos e CTT (Corte, Transbordo e Transporte) e melhoria da pontuação geral da usina no Renovabio.

O profissional da Netafim observa ainda que, quando a reforma se fizer necessária, não será preciso investir em estrutura de irrigação novamente, pois apenas os tubos gotejadores serão trocados, que representam aproximadamente de 35% a 40% do custo total de um projeto. Os demais itens, como moto bomba e filtros, serão mantidos e permanecerão em uso no novo canavial.

No momento em que a reforma se fizer necessária, novo investimento será apenas de 35% a 40% do custo total do projeto inicial de gotejo

Foto: Divulgação Netafim

“Juntos, esses benefícios compensam o custo inicial um pouco mais elevado do sistema do gotejo em comparação com outras modalidades de irrigação. Nossa tecnologia se paga facilmente em 3,5 anos tomando como base os preços históricos de açúcar e etanol. No entanto, em face dos patamares atuais, esse retorno ocorrerá em apenas 1,5 ano”, observa Daniel.

Lembrando que a experiência da Netafim em irrigação é fruto da vivência com a escassez hídrica em seu país de origem, Israel, onde os avanços em irrigação transformaram desertos em lavouras altamente produtivas. Atualmente, a empresa oferece duas modalidades tecnológicas de gotejo para cana-de-açúcar. Em canaviais comerciais, é recomendada a irrigação por gotejamento subterrânea. Já em viveiros (Cantosi ou Meiosi), é possível instalar as mangueiras e tubos gotejadores de forma superficial e movê-los para novas áreas sempre que necessário. Essas soluções podem ser instaladas de pequenos a grandes canaviais.

CANAVIAL IRRIGADO POR GOTEJO NO GRUPO SADA ALCANÇA 16º CORTE COM EXCELENTE PRODUTIVIDADE

Área do Grupo SADA irá para o 16º corte em 2022 com uma produtividade média de 86 TCH

Foto: Divulgação Grupo SADA

Em 2007, a Usina São Judas Tadeu, pertencente ao Grupo SADA e localizada na cidade de Jaíba/MG, adquiriu duas novas áreas que, juntas, somavam 150 hectares. A peculiaridade é que esses canaviais, de segundo corte, eram irrigados via sistema de gotejo da Netafim. A companhia optou por manter a tecnologia em funcionamento, mesmo sem experiencia prévia no sistema. No entanto, foi essa estrutura que permitiu a perpetuação das duas áreas com alta produtividade. Ano passado, em pleno 14º corte, a produção média atingiu 85 TCH.

O supervisor de irrigação da companhia, Ruy Carlos Silveira dos Santos, explica que um desses canaviais foi para a reforma este ano. Não por baixa produtividade - alcançou 77 TCH na colheita do ano passado -, mas para modernização do plantel varietal, uma vez que a variedade cultivada era a SP81-3250. “Já a segunda área, que atingiu 86 TCH este ano, deve ser colhida novamente em 2022, indo para o 16º corte.”

Após essa experiencia positiva, o Grupo SADA passou a investir com mais afinco na irrigação por gotejamento. Nos últimos anos, mais 50 hectares foram formados com a tecnologia da Netafim, totalizando 200 hectares. Até o final do primeiro semestre de 2022, a companhia espera implantar mais 245 hectares irrigados via gotejo.

Até o final do primeiro semestre de 2022, a Sada espera implantar mais 245 hectares irrigados via gotejo

Foto: Divulgação Grupo SADA

O Grupo SADA ainda possui outras duas modalidades de irrigação em suas áreas: aspersão por pivô central em 9.342 hectares e aspersão por autopropelido (hidro roll) em 255 hectares. Santos afirma que, de todos os sistemas, o que traz os melhores resultados é o gotejo. Segundo ele, quando bem manejado, sua eficiência alcança quase 100%, já o pivô gira em torno de 85% e o hidro roll, entre 70% e 75%. “Apesar de possuir um custo de implantação mais elevado e precisar de uma mão de obra mais qualificada, o gotejamento permite maior economia de energia e água, redução de custos e grandes ganhos em produtividade e longevidade. Uma das áreas implantadas em 2020 foi colhida este ano com uma produtividade média de 168 TCH. Nossa expectativa agora é levá-la por, no mínimo, 15 anos.”

NA USINA SERESTA ATÉ A FERTIRRIGAÇÃO É GOTA A GOTA, OU SEJA, A VINHAÇA CHEGA AO CANAVIAL VIA IRRIGAÇÃO POR GOTEJO

Canaviais da Seresta irrigados por gotejo – tecnologia será renovada

Crédito: Divulgação Usina Seresta

A Usina Seresta está localizada no município de Teotônio Vilela, em Alagoas, 100% de seus canaviais são cultivados em áreas de topografia plana, região chamada de tabuleiro, uma característica do sul alagoano. O que também é comum nessa parte de Alagoas é a escassez de chuva, tornando o uso de irrigação uma necessidade para o bom desenvolvimento dos canaviais.

Nos 10 mil hectares cultivados com cana pela Usina Seresta, nas áreas com disponibilidade de água, encontram-se irrigação por aspersão, por pivô e por gotejamento, tecnologia da Netafim. A experiência com irrigação por gotejo na Seresta começou há 25 anos, por meio de um experimento implantado em uma área de 17 hectares, o resultado foi tão positivo, que incentivou a instalação da tecnologia em mais de 2 mil hectares de canaviais.

Experimento por gotejo implantado há 25 anos na Usina Seresta – a média de produtividade neste período foi de 95 toneladas por hectare

André Borges, gerente da Seresta, salienta que o custo de implantação da irrigação por gotejo é maior que as outras modalidades, mas o retorno em produtividade e longevidade dos canaviais oferecido por essa tecnologia compensa e muito o investimento inicial. E mais, essa prática reduz custos com mão de obra, é um sistema fixo, utiliza um bombeamento de baixa vazão e oferece alta eficiência no uso da água.

Nas áreas de sequeiro, a média de produtividade da Seresta é de 53 TCH, nos canaviais que recebem irrigação por aspersão, a média é de 63 TCH, nas áreas com pivô é de 75 TCH e por gotejamento alcança-se 98 TCH.

Análise de Desempenho das variedades plantadas com a irrigação por gotejo durante oito cortes na Seresta

A irrigação por gotejo oferece ao canavial condições para que apresente maior produtividade por muitos cortes, postergando por vários anos a necessidade de renovação. Segundo André, na Seresta, as áreas de sequeiro ou que recebem irrigação por aspersão, são renovadas a cada cinco anos, com canaviais com média entre 55 a 60 toneladas. Já nas áreas com irrigação por pivô, a renovação acontece após seis ou sete cortes e nos canaviais irrigados por gotejo, renova-se a cada 10 anos.

“O maior custo da operação canavieira é a implantação do canavial, que chega a ser R$ 10 mil por hectare. Assim, cada ano que obtemos a mais sem a necessidade de renovar, em decorrência da boa produtividade mantida, resulta em redução de custo. A irrigação por gotejo possibilita isso”, observa André.

Os solos do sul de Alagoas não estão entre os mais férteis do Brasil, tanto que 80% dos canaviais da Seresta se encontram em solos arenosos e de média fertilidade. E o uso da irrigação por gotejo permite levar nutrição líquida aos canaviais, que é depositada na raiz da planta.

Na Seresta, 30% dos canaviais irrigados por gotejo recebem vinhaça gota a gota

Foto: CanaOnline

Na Seresta, todos os resíduos da indústria são aplicados nas áreas de solo de baixa fertilidade. Mas a empresa inovou ao fazer irrigação por gotejo utilizando a vinhaça ao invés da água com nutrientes. A união entre o gotejo e a vinhaça, resulta em redução de custos com fertilizantes químicos como nitrogênio e potássio, além de dar um fim nobre e mais eficiente a esse co-produto da cana. Cerca de 30% dos canaviais da Seresta irrigados por gotejo recebem a vinhaça gota a gota.

Operação de alta eficiência, é assim que André define a irrigação por gotejo. O Gerente da Seresta observa que a irrigação por gotejo não representa diretamente menor consumo de água, mas sim o correto uso da água, com menor perda na operação. E isso pode ser medido pela eficiência, a lâmina aplicada por gotejo alcança em média 95%. Já o uso do pivô apresenta uma eficiência de aplicação de água em torno de 70% a 80%.

A Seresta retomou em 2020 os investimentos em tecnologia e uma das primeiras áreas contempladas está sendo a de irrigação por gotejamento. O sistema já implantado há vários anos está sendo renovado. Afinal, para aproveitar os bons preços dos produtos da cana é fundamental ter maior volume de matéria-prima e menor custo de produção. A irrigação por gotejo oferece isso.

Fonte: CanaOnline