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Publicado em : 16/04/2018
Mercado extremamente pesado, mas quem se importa?

Por Arnaldo Luiz Corrêa

O mercado de açúcar permanece sob o bombardeio de notícias desfavoráveis à recuperação de preços. Comentários acerca de uma safra indiana continuamente crescente seguida também pela volumosa safra tailandesa reforçam a ideia de que o mundo está carregado de açúcar e o chão é o limite para os preços.
O vencimento maio/2018 na Bolsa de NY encerrou a semana cotado a 12.10 centavos de dólar por libra-peso, uma variação negativa de 24 pontos (5.30 dólares por tonelada) em relação ao fechamento da semana anterior. O spread outubro/2018-março/2019 terminou a sexta-feira cotado a 118 pontos, representando um carrego equivalente a 24.3% ao ano, convidando os atentos consumidores industriais a apontarem seus lápis para aproveitar essa enorme distorção. A estatística não mente.
Analisando os dados dos últimos 10 anos dos fechamentos diários do contrato de açúcar mais negociado em NY, cobrindo o período de abril de 2008 até final de março de 2018, observamos que em apenas 7.5% dos casos NY encerrou a sessão abaixo dos 12 centavos de dólar por libra-peso. E em apenas 2.3% das vezes encerrou abaixo de 11 centavos de dólar por libra-peso. Mercado abaixo de 10 centavos de dólar por libra-peso foi observado em apenas 0.3% das ocasiões.
Só para que o leitor possa comparar esses valores com os seus equivalentes do outro lado da curva de distribuição, podemos afirmar que em apenas 7.5% das vezes o mercado encerrou acima de 27.48 centavos de dólar por libra-peso, em 2.3% das vezes NY fechou acima de 30.79 centavos de dólar por libra-peso e em 0.3% das ocasiões o mercado terminou o pregão acima de 33.94 centavos de dólar por libra-peso. Em outras palavras, a chance de o mercado permanecer abaixo de 12 centavos de dólar por libra-peso é a mesma que ele tinha de negociar e permanecer acima de 27.48 centavos de dólar por libra-peso! Traduzindo para o português, fixar vendas a 12 centavos de dólar por libra-peso tem uma gigantesca chance de se tornar um péssimo negócio (já falamos isso na semana passada).
Agora, note como o preço está em descompasso: o fechamento do contrato com vencimento maio/2018 de açúcar em NY nesta sexta-feira, 12.10 centavos de dólar por libra-peso combinado com o fechamento do câmbio em R$ 3.4120 correspondem a um valor de 41.29 centavos de real por libra-peso. Esse valor, comparado com os fechamentos dos últimos dez anos, corrigido pelo IGPM é o mais baixo em 99.74% das vezes.
Duas notícias podem contribuir para impactar ainda mais negativamente o mercado de açúcar: a primeira, a revisão do crescimento da economia brasileira para 2018, antes falava-se em 3.5%, mas agora alguns economistas baixaram essa previsão para 2.8%. A razão é principalmente a piora do quadro político, com os ânimos exaltados depois da prisão do criminoso e ex-presidente Lula. As indefinições acerca da sucessão presidencial e se o Brasil elegerá alguém comprometido com as necessárias reformas da previdência, política e tributária contribuem apara que os investidores adiem seus investimentos. A segunda, diz respeito ao consumo de combustível ciclo Otto. No acumulado de doze meses, o crescimento do consumo foi de pífios 0.52%. A explicação pode estar no preço do combustível ao consumidor, que passa a usar menos o veículo próprio, ou restringe seu uso.
O etanol hidratado despenca no início dessa safra, como sabíamos que iria ocorrer. As usinas, em especial aquelas com sérias restrições de caixa, precisam fazer dinheiro e pressionam os preços. No entanto, acreditamos que o hidratado tem um suporte de preços muito forte ao redor de 65% do preço da gasolina. Hoje, o consumidor olha os preços do combustível no posto de abastecimento e vê o preço da gasolina com o numeral 4 na frente (R$ 4.09) e o etanol com 2 (R$ 2.89) e ele nem faz muita conta, muitas vezes ignorando que a paridade está pior que 70%, como é o caso agora, mas ele tem a sensação que com R$ 50 coloca muito mais combustível no tanque do seu automóvel. É ilusório, mas psicologicamente ativo. É essa sensação que nos faz acreditar que o limite do hidratado é 65% da paridade.
Trabalham em favor da recuperação dos preços a fricção dos Estados Unidos com a Rússia, que podem elevar o preço do petróleo no mercado internacional e melhorar a arbitragem do hidratado aumentando ainda mais o mix de etanol no Centro-Sul, e também, muito importante, o fato de o presidente Trump ter sinalizado possíveis mudanças nas leis dos biocombustíveis nos EUA que podem aumentar em 26 bilhões de litros a demanda de etanol naquele país. Essa é uma resposta às retaliações da China e certamente deixarão os produtores felizes.
Petróleo em alta e real pressionado colocam nossa estimativa de preço de realização da Petrobras em R$ 1.8700 por litro (8% acima do preço que a empresa publicou na sexta, de R$ 1.7115 por litro). Usando o preço de realização da estatal brasileira, podemos prever que o preço mínimo que o hidratado chegaria na bomba em R$ 2.5700, equivalente a R$ 1.5163 por litro na usina, sem impostos. Na sexta-feira, esse preço era R$ 1.4900 por litro aproximadamente. Ou seja, estamos no chão. Mas, ainda assim, esse preço equivale a açúcar a 14 centavos de dólar por libra-peso, mais de 150 pontos acima de NY. Se a Petrobras corrigir seu preço de realização em linha com o que estimamos que seja o valor justo, o preço do hidratado na usina deveria ser de R$ 1.6300 por litro, equivalente a NY a 15.08 centavos de dólar por libra-peso.

 

 


Fonte: Archer Consulting
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