O número de empresas sucroenergéticas que estão altamente endividadas supera 60%voltar

Publicado em : 14/12/2018
O número de empresas sucroenergéticas que estão altamente endividadas supera 60%

O que diferencia as 40% de unidades que estão sobrevivendo com melhores condições econômica, porém no mesmo mercado?

*MARCOS FRANÇÓIA

Como compreender o que se passa com o setor produtivo de açúcar e etanol quando o que se vê é de um lado da linha,empresas agonizantes e de outro lado, grupos preparados para receber aporte de capital internacional e com planos estratégicos de investimentos em expansão.

Em termos de quantidade, o número de empresas que estão altamente endividadas supera 60% do setor. Muitas estão em processo de recuperação judicial, outras renegociaram suas dívidas e estão penando para conseguir honrar com os compromissos acordados, muitas vezes se endividando em outras fontes operacionais, e outras que já não tem mais fôlego para renegociar e que seguirão para os requisitos da lei 11.101/2005.

O endividamento do setor tem sido um dos assuntos mais recorrentes nos últimos tempos e é um ferimento que sangra os resultados das empresas, pois cresce aceleradamente com as altas taxas de juros que impede investimentos no campo e na indústria, causando danos maiores e irreversíveis em alguns casos.

O etanol brasileiro atraiu bilhões em investimentos nacionais e internacionais a partir de 2004, com ápice em 2007. Porém, muitos projetos foram abortados ou nem saíram do papel por falta de planejamento e foram enterrados com a crise financeira mundial de 2008.

Dez anos se passaram e a dívida somente cresceu, chegando ao panorama atual de empresas fechando, outras usando ao longo do tempo os requisitos da lei de recuperação judicial, grupos paralisando unidades e concentrando a moagem, alémde disponibilizar unidades para venda. Uma dívida que não tem sua história iniciada nos últimos 12 anos como muitos afirmam (2006). A origem da dívida remonta os tempos do Proálcool e foi alimentada por fatores políticos, econômicos, climáticos e de gestão.

O que diferencia então as 40% de unidades que estão sobrevivendo com melhores condições econômica, porém no mesmo mercado? O que permite que uma parte desses 40% de empresas tenham crédito para investimentos se o clima, a política e a economia são iguais?

O planejamento estratégico é o que diferencia e está ligado diretamente a qualidade da gestão, que focou no problema dívida e esqueceu da solução que passa pelo campo, dando prioridade na renovação e tratos culturais, levantamento de perdas e planejamento correto do plantio (plantio fora de época).

Faltou ações de monitoramento e gestão de custos operacionais. Em alguns casos houve excesso de otimismo na expansão industrial sem o plano de desenvolvimento do campo e estruturas de apoio logístico.

Outros fatores contribuíram para prejudicar os resultados do setor, com parcela de culpa do Governo Federal pelo controle dos preços, mas os impactos políticos, econômicos e climáticos foram para todo o setor e mesmo assim há empresas com melhores resultados, pois dedicaram em planejar, conhecer e controlar seus custos através de gerenciamento e um orçamento econômico bem aplicado, além de modelos de governança.

O que se observa é que nesses 40% de empresas o paternalismo deixou de existir. Os resultados são cobrados independente do cargo e do grau de parentesco. E isso vem de um gestor qualificado e preparado, mesmo sendo membro da família.

Para esse grupo de empresas, o planejamento estratégico sinaliza novos investimentos, já que para o ano 2019 o cenário econômico vislumbra melhora no rendimento real, juros estabilizados em patamares menores (Selic próxima de 7%), maior disponibilidade de crédito e contas externas relativamente equilibradas.

Nessa linha, grupos como COFCO e Usina Batatais anunciam novos investimentos, sendo a segunda com a liberação de crédito de R$ 332,7 milhões por parte do BNDES, para plantio e cogeração. A COFCO anuncia o seu interesse em expandir no mercado com novas aquisições.

Os reflexos disso já são sentidos nas indústrias de Sertãozinho.
O aumento da atividade operacional da indústria de base não está somente por conta da entressafra, que é quando as empresas recebem os equipamentos para reforma das usinas, mas também por novos produtos que vão desde equipamentos intermediários de ligação produtiva, automação industrial e até caldeiras para a geração de energia.

Muitas unidades estão potencializando a produção de etanol, pois o plano estratégico mostra que poderemos ter um mercado não tão atrativo para o açúcar nas próximas safras, vide o anúncio de maior produção pela Índia veiculado no início de novembro. Com isso novas destilarias serão implantadas em parques até o momento exclusivamente de produção de açúcar e outras serão acopladas a destilarias já existentes aumentando a capacidade produtiva. Muitos trabalhos de análise de viabilidade econômica estão sendo solicitados nessa linha de investimentos, bem como na linha de estudos de redução de custos.

O interesse em analisar projetos disponíveis para venda também aumentou e vem de encontro com grandes grupos que anunciam o interesse em receber investimentos e/ou transferir a gestão de suas fábricas.

Diante desse quadro, o que se espera para o setor em 2019 são muitas mudanças no sentido de organizar-se para os resultados positivos anunciados pelo RENOVABIO. Mudanças que obrigam as empresas a planejarem adequadamente suas ações para não incorrerem nos mesmos erros que os condenaram e estão condenando parte do mercado. Muitos vislumbram o paraíso, outros nem tanto.

Quanto as empresas mais endividadas, ainda acredito que haverá um programa para sanear o endividamento ao estilo PESA (Programa Especial de Saneamento de Ativos), de 1998, porém com maior rigor por parte de quem poderá usufrui-lo e nas exigências de governança, gestão de custos e orçamento, caso contrário, efetivamente haverá uma consolidação do setor em poucos e grandes grupos operacionais.

*MARCOS FRANÇÓIA – DIRETOR DA MBF AGRIBUSINESS – SOLUÇÕES DO CAMPO AO BANCO – www.mbfagribusiness.com.br

 

 


Fonte: MARCOS FRANÇÓIA
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