Pesquisa paulista explica como a produtividade de cana varia no mesmo tipo de solo
07-04-2021

Estudo do IAC mostram as interferências das condições climáticas no resultado toneladas por hectare

São muitas as tecnologias que fazem do Brasil o maior produtor de cana-de-açúcar e de etanol do mundo, competência recentemente ressaltada no cenário em que a Índia anunciou o uso do etanol puro nos postos de combustíveis daquele país. Para alcançar os três dígitos de produtividade, o pacote tecnológico gerado pela pesquisa brasileira é complexo e cada fator determina índices para cima ou para baixo. Conhecer os diversos componentes que definem os números da produção é essencial para desperdiçar energia e recursos.

No universo dos ambientes da canavicultura, destaca-se o fato de exatamente o mesmo tipo de solo se enquadrar em ambiente de produção diferente, desde que as condições climáticas sejam também diversas. Assim, lavouras instaladas em um mesmo tipo de solo, porém com condições de temperaturas e disponibilidade hídrica diversas, terão produtividades variadas. Pesquisas do Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mostram que é importante conhecer a produtividade do ambiente de produção para saber qual é o ponto de partida, isto é, o mínimo que é possível produzir em determinada localidade.

"Por exemplo: o Nitossolo eutrófico, textura argilosa, enquadra-se no ambiente A1, onde a produtividade média é de cinco cortes é de 100 toneladas por hectare, no manejo convencional e na colheita do meio de safra", explica o pesquisador do Instituto Agronômico (IAC), Hélio do Prado.

Esse mesmo solo, em Goianésia, Goiás, onde ocorre seca durante cinco meses seguidos, o ambiente de produção muda para o chamado C1, com produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas por hectare, também no manejo convencional e na colheita do meio de safra. "A maior deficiência hídrica em Goiás é responsável pela menor produtividade", resume.

Outro exemplo que comprova esse fenômeno: o Latossolo com teor de argila relativamente baixo atinge cinco cortes de cana no Estado de São Paulo. Porém, o mesmo solo na Paraíba atinge apenas dois cortes. "No terceiro corte nem compensa insistir porque nada produz", garante o pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).

Segundo Prado, se o ambiente for restritivo, a produtividade é tão baixa que, para alcançar produtividade a partir de 100 toneladas, por hectare, será preciso muito investimento. "No entanto, se o ambiente de partida for favorável, com pouco recurso já é possível atingir os três dígitos", diz.

No Estado de São Paulo existem locais com clima muito diferentes. Considerando as regiões paulistas canavieiras de Assis e Ribeirão Preto, na primeira a distribuição da chuva é bem melhor do que na segunda. Nessas condições, são diferentes as interações entre solo e clima.

"A região de Piracicaba possui área representativa com solo originado da rocha folhelho, muito pobre em cálcio, elemento que estimula o crescimento radicular. Além disso, esse solo é naturalmente muito duro, o que dificulta a exploração radicular em profundidade", explica.

Por esse motivo, os ambientes de produção paulistas mais restritivos estão em Piracicaba, exceto nos locais geograficamente direcionados para Campinas e para Rio Claro, que correspondem a 25% da região, no máximo.

O pesquisador relata que em suas pesquisas já encontrou o solo mais rico do mundo, chamado Vertissolo, em Juazeiro, na Bahia. Lá, a cana-de-açúcar com manejo de irrigação por gotejamento atinge quase 200 toneladas, por hectare. "Na nova edição do meu livro Pedologiafacil - Aplicações em Solos Tropicais mostrarei as produtividades de 17 cortes, normalmente o que existem são cinco a dez cortes, no máximo", diz. A nova edição estará disponível em julho de 2021, nas versões online e impressa.

Em Goiás, na usina Jalles Machado, onde o solo é tipo Latossolo acrico, tem-se produtividade média de cinco cortes de 68 a 71 toneladas, por hectare, na colheita de meio de safra. Este mesmo solo, na usina Santa Juliana, em Minas Gerais, tem produtividade média de cinco cortes de 84 a 87 toneladas, por hectare, também com colheita no meio de safra.

Prado explica que isso ocorre porque na Jalles Machado a altitude é de 780m, já na Santa Juliana é de 1.100m. De novo é o clima mudando um ambiente de produção. "Em Goianésia, na usina Jalles Machado esse solo enquadra-se no ambiente E2, mas na Santa Juliana enquadra-se no ambiente C1, ambas no manejo convencional, com colheita no meio de safra", complementa.

O pesquisador classificou os ambientes por letras: G2, G1, F2, F1, E2, E1, D2, D1, C2, C1, B2, B1, A2, A1, A+1, A+2, A+4 , A+5. São muito favoráveis os ambientes A+1, A+2, A+3, A+4, A+5; favoráveis A1, A2, B1, B2; médios C1, C2, D1; desfavoráveis D2, E1, E2, muito desfavoráveis os ambientes F1, F2, G1 e G2.

No G2 a produtividade média é inferior a 52 toneladas, por hectare, no A+4 é próxima de 200 toneladas, por hectare. "Um solo muito rico pode ser ambiente G2, isto é, muito desfavorável, se a deficiência hídrica for extrema, tal como em Juazeiro, na Bahia, onde não chove durante oito meses do ano", explica.

No México, Peru e Guatemala existem locais com deficiência hídrica muito grande. Essa condição torna seus ambientes muito mais restritivos, de acordo com Prado, que palestrou sobre Produção de cana-de-açúcar no Brasil e países da América Latina e Central, 2° Fórum Latino-Americano do Agronegócio, evento online e gratuito, em 25 de março de 2021.

Fonte: Comunicação da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo