Por que a agropecuária brasileira é campeã
13-01-2021

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Para Roberto Rodrigues, Brasil tem uma junção de elementos que elevem o potencial agropecuário do país

Por Roberto Rodrigues

Forbes Agro

Com frequência, analistas perguntam quais são as causas do sucesso da agropecuária brasileira quando comparada com os demais setores da economia.

Foram quatro fatores internos e um externo.

Os internos: tecnologia tropical sustentável criada em nossos institutos de pesquisa públicos e privados, área para crescer horizontalmente, gente capaz em todos os elos das cadeias produtivas e algumas políticas públicas.

Sobre tecnologia: nos últimos 30 anos, por exemplo, a área plantada com grãos cresceu 74% enquanto o volume produzido aumentou 346%. E o mais expressivo: hoje cultivamos 66 milhões de hectare/ano com grãos; se tivéssemos a mesma produtividade de 30 anos atrás, seriam necessários mais 103 milhões de hectares para conseguir a colheita recorde de grãos (mais uma!) de 2020. Em outras palavras, 103 milhões de hectares de cerrados, matas e outros biomas foram preservados: isso é sustentabilidade de fato!

Quanto à terra disponível, segundo a Embrapa, ainda temos mais de 65% do nosso território coberto por vegetação nativa, e apenas 9% dele é ocupado com todas as plantas cultivadas, de alface a eucalipto. Mais 21% são pastagens. E o avanço tecnológico da pecuária brasileira está liberando terras para agricultura de alimentos, desobrigando-nos de desmatamentos na Amazônia e em outros biomas.

Sobre gente: enquanto na Europa e na Ásia os agricultores não encontram sucessores, no Brasil há uma nova geração de jovens bem preparados no campo, inclusive para a gestão inovadora da agricultura 4.0 determinada pela digitalização e conectividade.

No que diz respeito a políticas públicas, destacam-se o Moderfrota, que permitiu a renovação do parque de máquinas agrícolas sucateado no final dos anos 90, e a queda das taxas de juros reais.

A tragédia da Covid-19 trouxe duas gigantescas questões para um futuro imediato: segurança alimentar e sustentabilidade. Ambas passam pela agropecuária, e o Brasil saiu na frente: foi um dos poucos países a aumentar exportações de alimentos em plena pandemia. Exportamos mais soja, carnes e açúcar, mostrando competitividade e driblando a problemática logística e a burocracia.

Houve também o importante fator externo: a crescente demanda de países consumidores, especialmente asiáticos (com ênfase para a China), que estimulam a expectativa do papel protagonístico do agro brasileiro no combate à fome nos próximos anos.

Estudos da OCDE e do USDA coincidem em que, para acabar com a fome no mundo em dez anos, a oferta de alimentos precisa crescer 20%. Para isso acontecer, e pelas mesmas razões acima descritas, o Brasil precisa aumentar suas exportações de alimentos em 40% no período.

Será possível isso, transformando o Brasil no campeão mundial da segurança alimentar e, por conseguinte, da paz, visto que esta não acontecerá enquanto houver fome?

Sim, desde que resolvamos velhos problemas de infraestrutura e logística, desde que tenhamos uma diplomacia capaz de organizar acordos bi ou multilaterais com países ou grupos deles (como o sonhado entre UE e Mercosul), e desde que resolvamos certos temas que mascaram nossa competitividade, como desmatamentos ilegais, incêndios criminosos, invasão de terras, descumprimento de contratos. São ilegalidades cometidas por aventureiros, mas servem a interesses de concorrentes para nos tirar mercados. E temos ainda que implementar o Código Florestal e legalizar a estrutura fundiária na Amazônia. Isso feito, mostraremos o que realmente somos: uma potência agrícola e uma potência ambiental.

Roberto Rodrigues é coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas