Produtores australianos encerram safra sob pressão de custos e preços baixos do açúcar
17-11-2025
Relato de campo destaca resiliência dos agricultores no extremo norte de Queensland
A temporada de colheita de cana-de-açúcar no extremo norte de Queensland, Austrália, aproxima-se do fim em um cenário desafiador para os produtores. O relato é de Stephen Calcagno, colunista do Czapp, plataforma de inteligência da Czarnikow, e produtor em Cairns, onde cultiva 450 hectares de cana processados na Usina Mulgrave, da MSF Sugar (grupo Mitr Phol). A combinação de clima severo, queda acentuada nos preços internacionais do açúcar e custos elevados de insumos pressiona a rentabilidade do setor, mas não abala a determinação dos agricultores.
Calcagno relata que a colheita está na fase final. A Usina Mulgrave encerrou suas operações em 3 de novembro e South Johnstone deve terminar por volta de 24 de novembro. Em campo, as equipes trabalham na limpeza das áreas e na aplicação de fertilizantes antes do fim do ciclo de cultivo.
Este ano marcou também um momento simbólico: o processamento da última safra de Mossman na usina de Mulgrave, decretando, na prática, o encerramento da indústria açucareira em Mossman, um impacto significativo para a comunidade local.
O produtor descreve 2025 como uma safra marcada por extremos. Chuvas intensas há alguns meses derrubaram vegetação e prejudicaram áreas mais baixas. Agora, a falta total de chuva desde outubro compromete o desenvolvimento das plantas. A seca reduziu a produção e começou a afetar o teor de açúcar da cana, fator crítico para a remuneração do produtor.
Ainda assim, há algum alento: as novas áreas plantadas mostram vigor, desenvolvendo-se bem graças ao clima seco, exceto onde houve alagamentos anteriores.
A maior preocupação, segundo Calcagno, é o preço do açúcar. As cotações ao redor de 14,2 cents de dólar por libra estão abaixo do custo de produção na Austrália. Ele compara com o Brasil, referência global, onde estima-se necessidade de cerca de 15,5 cents/lb apenas para manter a operação sustentável.
No campo, os custos continuam pesados: fertilizantes, energia e combustíveis seguem em patamares elevados, sem margem para economias. Some-se a isso danos inesperados, como os ataques de porcos selvagens que migram de áreas naturais em busca de alimento e umidade, destruindo rebentos e ampliando prejuízos.
Apesar das adversidades, Calcagno reforça um sentimento generalizado no setor: resiliência. Após anos enfrentando enchentes, ciclones, secas e oscilação de preços, os produtores permanecem firmes, planejando a próxima safra e mantendo investimentos essenciais no campo.
Quando a colheita terminar, afirma, haverá um merecido descanso para todos os envolvidos, agricultores, operadores e equipes industriais. Em seguida, começa um novo ciclo, com a expectativa de que o clima seja mais favorável e os mercados ofereçam condições melhores no próximo ano.
Andréia Vital com informações da Czapp

