Safra 23/24 da cana no Centro-Sul deve ter alta de 7% e produção 'maximizada' de açúcar frente a déficit mundial, projeta consultoria
10-03-2023
Datagro prevê 590 milhões de toneladas de matéria-prima e 38 milhões de toneladas do subproduto. Especialista também cita impacto positivo na competitividade do etanol em recente MP dos combustíveis.
Por Rodolfo Tiengo, g1 Ribeirão Preto e Franca
As usinas da região Centro-Sul do país devem ter uma alta de 7% na quantidade de cana-de-açúcar processada na safra 2023/2024 e uma produção ainda mais focada em açúcar do que em anos anteriores, segundo projeções da consultoria agrícola Datagro, durante um painel realizado em Ribeirão Preto (SP) nesta quarta-feira (8).
No evento "Abertura de Safra", considerado um marco no calendário anual do setor sucroenergético, o presidente da entidade, Plínio Nastari, divulgou que as indústrias - que respondem por mais de 90% da produção brasileira da matéria-prima - devem moer 590 milhões de toneladas até abril do ano que vem, 38 milhões a mais do que o esperado para o término da atual safra, de 552 milhões.
Contribuem para esse cenário o bom desenvolvimento fisiológico das plantas, a qualidade dos tratos culturais, além de melhores condições da cana que deve ser colhida no primeiro e terceiro terços da safra. Nas projeções, a Datagro também estima estabilidade - alta de 0,6% - na quantidade de açúcares totais recuperáveis da colheita, com 142 quilos por tonelada de cana.
Em contrapartida, a consultoria cita como desafios para o período:
a expectativa de chuvas abaixo da média em abril, o que pode atrasar a colheita;
o florescimento limitado dos cultivos até março, que pode reduzir o rendimento industrial;
incertezas sobre geadas entre julho e agosto, que podem resultar em antecipações de colheita e perda de rendimento;
o tempo seco e a possibilidade de incêndios, principalmente entre agosto e setembro;
a incidência do fenômeno El Niño, que pode reduzir o aproveitamento de tempo das usinas e os dias de moagem
"É por conta desse tipo de incertezas, embora a gente esteja medindo no campo uma ampliação importante da oferta de cana, que cautelosamente a nossa estimativa é de 590 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul", explicou Nastari.
Açúcar: produção 'maximizada'
Na próxima safra, o Centro-Sul brasileiro deve produzir 38,3 milhões de toneladas de açúcar, 13% a mais em comparação com o estimado para o término da atual safra, em 33,8 milhões, segundo a Datagro.
Segundo Plinio Nastari, as usinas devem maximizar sua produção para o subproduto, com um mix que vai saltar de 45,6% para 48%.
Isso deve acontecer por conta de uma melhor precificação no mercado internacional proporcionada por um déficit mundial projetado em 1,3 milhão de toneladas de açúcar bruto em 2023, levando-se em conta a falta de perspectiva para aumento de produção em outros países.
Além disso, são mencionadas condições anteriores que já vinham favorecendo as exportações, como a perda de competitividade do etanol para a gasolina por conta de isenções em tributos federais.
"VHP [very high polarization, o açúcar bruto] inclusive remunerando mais do que o próprio açúcar de mercado interno, o que não é usual", observou Nastari.
Etanol: bom momento nas exportações
O painel também projetou uma elevação de 5,9% na produção de etanol no ciclo 2023/2024. Ao todo, são esperados 30,9 bilhões de litros, diante dos atuais 29,2 bilhões.
O volume leva em consideração 5,4 bilhões de litros que devem ser produzidos a partir do milho, em alta de 17%, e que já corresponde a percentual da mesma ordem na produção total estimada.
Ainda que insuficiente para deixar o etanol mais atrativo do que o açúcar, Nastari cita como positivo o impacto da medida provisória de 1º de março retomando a tributação federal sobre os combustíveis, que onerou mais a gasolina que o álcool e aumentou a competitividade do produto.
"Tem um espaço de recuperação da participação do etanol perdido por conta de quebra de safra e por conta de quebra de competitividade com relação à gasolina", diz.
O presidente da Datagro ainda mencionou como fator relevante na formação do preço a queda nos estoques nacionais diante do aumento nas exportações do etanol brasileiro.
Entre janeiro e fevereiro deste ano, segundo ele, foram levados para o exterior 417 milhões de litros, 136% a mais do que no mesmo período do ano passado.
"Os preços estão sustentados também por uma vigorosa exportação de etanol. O Brasil está exportando volumes muito significativos de etanol para os Estados Unidos, para a Europa, para a Coreia do Sul."

