Safra de cana-de-açúcar cresce e muda perfil: mais etanol, menos açúcar
27-03-2026

Plantação de cana-de-açúcar no Brasil, matéria-prima para fabricação de etanol  • . Raízen é uma grande produtora de etanol. REUTERS/Marcelo Teixeira/File Photo
Plantação de cana-de-açúcar no Brasil, matéria-prima para fabricação de etanol • . Raízen é uma grande produtora de etanol. REUTERS/Marcelo Teixeira/File Photo

Cenário reforça protagonismo do biocombustível diante da maior demanda interna, políticas de descarbonização e melhor rentabilidade

A produção brasileira de cana-de-açúcar deve superar as 677 milhões de toneladas na safra 2026/27, registrando uma alta de 3,15% em relação à safra anterior. O avanço será impulsionado pela produção da região Centro-Sul, que vai moer 620 milhões de toneladas no período, volume 3,68%, maior que o obtido no ciclo anterior. As projeções são da empresa de consultoria Safras & Mercado, que aponta que as regiões Norte e Nordeste devem registrar retração na produção, refletindo condições menos favoráveis.

Essa é a segunda estimativa da Safras & Mercado.  Embora as projeções se mantenham na mesma linha da primeira estimativa, o novo levantamento já considera os impactos da guerra no Oriente no mercado interno. "O que acarretou em concentração maior da produção de etanol e queda maior tanto na produção quanto exportação de açúcar", avalia Maurício Muruci, analista de açúcar e etanol da consultoria Safras & Mercado.

Muruci explica também que a retração de 1,8% na produção do Nordeste e de 7,5% na produção da região Norte se devem ao fato de essas regiões serem tradicionalmente focadas na produção de açúcar, "e como os preços estão baixos desde dezembro, apesar de recentes altas, que serviram apenas para tirar os preços da condição crítica, produtores vão moer menos cana", diz.

O destaque da nova safra é a melhor qualidade da matéria-prima.  O ATR (Açúcares Totais Recuperáveis), que indica a quantidade de açúcar da cana, deve subir 2,22%, indicando maior eficiência industrial na produção.

Etanol ganha protagonismo

O principal movimento da próxima safra, segundo a consultoria, será a ampliação da produção de etanol,  tanto de cana quanto de milho, em resposta ao aumento da demanda doméstica, às mudanças na política de combustíveis e à Guerra no Oriente Médio.

A produção de etanol hidratado de cana no Brasil deve crescer 8,21%, alcançando 21,1 bilhões de litros, enquanto o etanol anidro tem projeção de alta ainda mais expressiva, de 14,24%, para 14,68 bilhões de litros. "O etanol de milho também segue em expansão, com crescimento relevante tanto no hidratado quanto no anidro", comenta Muruci

Esse movimento está diretamente ligado ao aumento da mistura de etanol na gasolina. A Safras & Mercado destaca que a elevação do teor de anidro, de E27 para E30 e possivelmente para E35, deve impulsionar fortemente a demanda. Segundo a consultoria, cada ponto percentual adicional na mistura representa cerca de 920 milhões de litros de demanda ao ano, podendo gerar um acréscimo de até 4,6 bilhões de litros com a possível nova elevação.

Açúcar perde espaço no mix

Com a maior atratividade do etanol, o mix de produção da nova safra será de 53% do volume de cana destinado ao etanol, ante 51% na safra anterior, enquanto a participação do açúcar recuará para 47%. Com isso, haverá queda de 7,36% na produção brasileira de açúcar, para 40,3 milhões de toneladas. No Centro-Sul, principal polo produtor, o recuo será ainda mais evidente: de 40 milhões para 37 milhões de toneladas.

A menor produção de açúcar deve impactar diretamente o mercado externo. As exportações brasileiras do produto estão projetadas em 29 milhões de toneladas, queda de 14,2% frente ao ciclo anterior. Na avaliação da SAFRAS & Mercado, o cenário reforça uma mudança estrutural no setor sucroenergético brasileiro, com o etanol ganhando protagonismo diante de uma combinação dos seguintes fatores: maior demanda interna por biocombustíveis, políticas de descarbonização e melhor rentabilidade que o açúcar no mercado internacional.

Fonte: CNN