Seca reduz safra canavieira e aumenta desemprego em Pernambuco
21-03-2017

As secas provocadas pelo fenômeno climático El Niño já contribuíram para reduzir sete safras de cana­deaçúcar na Zona da Mata, nos últimos 24 anos. Isso significa que foram 14 anos de estiagem nesse período. “A primeira consequência da seca é o desemprego, porque as usinas passam um tempo menor moendo e também empregam menos na entressafra”, diz o presidente da Federação dos Trabalhadores Assalariados Rurais no Estado de Pernambuco (Fetaepe), Gilvan José Antunes. Numa estimativa feita pelo Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar­PE), a seca fez com que cerca de 15 mil trabalhadores não fossem contratados na última safra por um motivo simples: a perda de parte da cana­deaçúcar.
Geralmente, as usinas empregam cerca de 60 mil trabalhadores numa safra. “Na última moagem, percebemos uma redução de 30% na contratação de canavieiros. Na Mata Norte, teve gente que só trabalhou por dois meses enquanto durou a moagem”, conta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nazaré da Mata, Tracunhaém e Buenos Aires, José Pereira da Silva Filho.
”A seca desestrutura tudo, porque a cana­de­açúcar continua sendo a principal atividade econômica da região. O comércio fica mais fraco, acaba demitindo também. E a gente percebe nitidamente o aumento do desemprego”, lamenta a prefeita de Lagoa de Itaenga, Maria das Graças Arruda Silva (PSB). Todas as cidades citadas estão na Mata Norte.
Embora as estiagens sejam cíclicas na Mata Norte, o governo do Estado não tem qualquer ação de convivência com a seca naquela região. Ao ser questionado sobre as iniciativas que o Estado desenvolve nessa área, o secretário estadual de Agricultura, Nilton Mota, citou as seguintes ações: o incentivo fiscal dado pelo Estado para estimular a reabertura de três usinas, uma articulação para que os fornecedores tenham o acesso mais facilitado ao crédito, além de deixar menos burocrático o licenciamento ambiental.
“A convivência com a estiagem não é só uma ação direta. Não adiantava somente fazer poço para os fornecedores”, defende Mota. E acrescenta: “o problema da cana­de­açúcar é uma política econômica que deixou o preço do álcool baixo, o preço do açúcar caiu e o aumento da importação de álcool no Nordeste. É mercado, preço e um problema energético do Brasil no qual a seca é apenas um componente”. Entre os sete produtores entrevistados pelo JC, o que mais está contribuindo para a não recuperação da safra, desde 2015, é a estiagem, embora eles reconheçam os outros problemas citados pelo secretário.
A última grande seca que atingiu a Zona da Mata foi em 1997 e se estendeu até 2000. Depois dessa estiagem, o consultor do setor sucroalcooleiro, Gregório Maranhão, fez um projeto chamado Águas do Norte, que previa a implantação de 130 micro e médias barragens na Mata Norte. O documento foi apresentado ao governo do Estado em 2002, quando Jarbas Vasconcelos (PMDB) era governador. Na época, o governo já tinha feito o Prorenor (um programa do Estado que ajudou a replantar os canaviais da Mata Norte) e aí faltaram recursos. Esse projeto tem um custo estimado em R$ 300 milhões e aproveitaria a topografia da Mata Norte para fazer as barragens. “Essa água seria de múltiplo uso. Ajudaria aos fornecedores, aos produtores de hortifrutigranjeiros e até ao abastecimento humano. É um plano de desenvolvimento daquela região”, afirma Gregório.