Seguindo tendência de queda no Nordeste, Paraíba enfrenta redução na produção de açúcar
27-01-2026

Projetos de investimento para o aumento da capacidade produtiva de açúcar foram desacelerados. A situação é delicada, sobretudo, no que diz respeito à remuneração da cana fornecida pelos produtores.

Por Kiara Duarte

A região Nordeste registra uma redução estimada entre 500 e 600 mil toneladas na produção de açúcar na safra 2025/2026. A moagem de cana caiu pouco mais de 7%, o que já sinaliza uma safra menor do ponto de vista físico. No entanto, o dado mais relevante é a queda de cerca de 24% na produção de açúcar, percentual muito superior à retração da matéria-prima. A redução da moagem de cana na região vem sendo registrada pelo noticiário especializado. O Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool), que representa as usinas de açúcar e etanol no estado, também confirma esse cenário.

O Sindalcool explica que, do ponto de vista agrícola, houve de fato uma quebra de oferta. A moagem regional caiu pouco mais de 7%, reflexo de um ciclo climático irregular, marcado por seca em fases iniciais do canavial e excesso de chuvas durante o período de colheita. Esse ambiente afetou tanto o volume quanto a qualidade da cana. No entanto, se o problema fosse exclusivamente agrícola, a produção de açúcar teria recuado em proporção semelhante à moagem. O que se observa, na prática, é uma queda muito mais acentuada do açúcar, superior a 24%.

Em 2025, o mercado internacional de açúcar operou com preços mais baixos, em função da recomposição da oferta global. Para o Nordeste, onde os custos industriais e logísticos são estruturalmente mais elevados, esse patamar de preços reduziu significativamente a rentabilidade da exportação. 

A situação foi agravada pela perda do acesso a mercados preferenciais, como a cota americana, que historicamente funcionava como um amortecedor de preços para a região. Diante desse cenário, muitas usinas deixaram de produzir açúcar e 

“As usinas da Paraíba, e do Nordeste, têm custos de exportação menores em comparação aos estados do  Centro-Sul. Contudo, por prudência, essas passaram a reavaliar a velocidade dos projetos de expansão de capacidade produtiva de açúcar. Isso também indica que as novas fábricas deverão incluir tecnologias de coleta de dados ao longo do processo produtivo. A disponibilidade de produto continuará sendo uma vantagem competitiva da região. As usinas vêm discutindo com o Estado a gestão de riscos e a arrecadação. O fato é que temos uma redução substancial do volume produzido na região, de 600 mil toneladas de açúcar a menos”, disse Edmundo Barbosa, presidente-executivo do Sindalcool. 

Situação na Paraíba

Estados do Nordeste, como Alagoas, por ser o maior produtor da região e ter uma estrutura fortemente orientada à exportação, e Pernambuco, que, além da decisão econômica, foi afetado pelo excesso de chuvas que comprometeu o ATR, foram fortemente impactados. 

Na Paraíba, os projetos de investimento para o aumento da capacidade produtiva de açúcar foram desacelerados. A situação é delicada, sobretudo, no que diz respeito à remuneração da cana fornecida pelos produtores.

Além da cana própria, as usinas dependem fortemente de pequenos e médios fornecedores de cana, cuja remuneração está diretamente ligada ao desempenho do açúcar e do etanol. 

Com a queda da produção de açúcar e a pressão sobre os preços da matéria-prima, esses produtores enfrentam dificuldades para manter o nível de investimento necessário para a próxima safra, o que pode gerar efeitos persistentes nos ciclos subsequentes, como a redução na adubação.

As usinas da Paraíba também registram queda de produção, embora em menor magnitude quando comparadas a outros estados. A redução da moagem foi relativamente contida, mas a produção de açúcar caiu de forma significativa, refletindo tanto a perda de qualidade da cana quanto a decisão estratégica de reduzir a fabricação do produto. 

Para fins de transparência e acompanhamento do setor, o Sindalcool divulgou em seu site o Boletim da Safra 2025/2026 na Paraíba (2ª quinzena de dezembro), disponível em:   https://sindalcool.com.br/paraiba-safra-2025-2026-2a-quinzena-de-dezembro/.

Usinas investem na produção de anidro para manter receita

A maior destinação da cana para o etanol é um dos pontos centrais da safra 2025/2026. Esse movimento não ocorre por acaso, mas representa uma resposta racional das usinas ao atual ambiente econômico. Com o açúcar apresentando baixa rentabilidade e elevada incerteza no mercado internacional, o etanol, especialmente o anidro, tornou-se uma alternativa mais estável.

O etanol anidro conta com demanda interna garantida pela política de mistura obrigatória na gasolina, o que reduz o risco de preço e assegura fluxo de caixa. Mesmo com menor disponibilidade de cana, a produção de anidro cresceu, evidenciando que as usinas ajustaram seu mix industrial como forma de proteger a receita e garantir a continuidade das operações. 

Na Paraíba, o decreto estadual nº 47.764/2025 alterou o decreto nº 22.066/2001 para instituir incentivo de ICMS, concedido ao estabelecimento fabricante de Álcool Etílico Anidro Combustível (AEAC), com foco em:

  • Estímulo à produção local de etanol;
  • Manutenção da competitividade do setor sucroenergético;
  • Estabilidade de preços no mercado de combustíveis;
  • Promoção do desenvolvimento regional e da sustentabilidade ambiental.

Essa medida positiva deve garantir as saídas interestaduais e não apenas as operações internas, além de dar garantia de que o incentivo venha a ser efetivo, e não apenas formal”, destacou o presidente-executivo do Sindalcool. 

Fonte: Sindalcool