Um balde de água fria

Por Arnaldo Luiz Corrêa

A Índia derramou um gigantesco balde de água fria nas pretensões que o mercado futuro de açúcar em NY tinha de experimentar alguma recuperação nos preços. Não bastasse o subsidio de mais de um bilhão de dólares para a exportação, agora o governo indiano sinaliza com um possível aumento da ajuda para a temporada 2018/2019. Além disso, há também a discussão acerca da ampliação do atual preço mínimo. Como a Índia terá eleições no começo do próximo ano é natural que as promessas de campanha privilegiem os produtores de cana que representam uma parcela importante do eleitorado.

Como não poderia ser diferente, a notícia derrubou as cotações do açúcar na bolsa de NY na sexta-feira, quando o contrato para vencimento em outubro de 2018 encerrou o pregão cotado a 11.16 centavos de dólar por libra-peso, uma queda no dia de quase 5%, apesar de ter encerrado a semana com ligeira alta comparativamente ao fechamento da sexta anterior.

Definitivamente, o Brasil é o maior prejudicado com essa atitude do governo indiano, pois sem contar subsidio governamental e tendo sofrido por anos seguidos com o congelamento/subsídio proporcionado à gasolina durante os governos populistas de esquerda, o país mantém praticamente inalterada a produção de ATR de dez safras atrás com enorme perspectiva de perder fatia de mercado.

Com raríssimas e pontuais exceções, ninguém no Centro-Sul consegue produzir açúcar nos atuais preços negociados no mercado internacional. Assim, a solução encontrada pelas usinas do Centro-Sul é maximizar a produção de etanol, cujo preço está de certo modo alinhado com o mercado internacional, diminuindo a disponibilidade de açúcar. Políticas protecionistas, na maioria dos casos, distorcem os valores justos de mercado e aumentam a produção nos países que a implementam, caso da Índia e Tailândia. Resta ao Brasil reclamar junto à OMC, mas sem muito efeito prático no curto e médio prazo. Enquanto isso, os preços reagem fortemente para baixo.

Bastante impressionante foi o volume de contratos negociado no mercado futuro de açúcar em NY nesta última semana. Desde a mínima recente de 9.91 centavos de dólar por libra-peso observada em 22 de agosto até a máxima de quinta-feira última quando o vencimento outubro/2018 bateu 11.80 centavos de dólar por libra-peso, o mercado negociou mais de três milhões de contratos e a posição em aberto caiu 180.000 contratos, com provável liquidação por parte dos fundos. Na quarta-feira, 403.500 contratos foram negociados o maior volume diário desde setembro de 2009.
A posição dos participantes divulgada pelo CFTC, órgão regulador das bolsas de commodities americanas, mostra que na terça-feira passada os fundos estavam ainda vendidos 164,000 contratos. No entanto, de lá para cá a posição em aberto despencou e pode ser que os fundos estejam pouco mais de 100.000 lotes ainda vendidos.

Apesar da Índia e das consequências que uma aceleração do subsidio para o açúcar possa vir a ter, o fato é que no ano que vem o Centro-Sul vai continuar a produzir praticamente a mesma quantidade de ATR. Não parece restar dúvidas de que a safra será direcionada ao produto que melhor remunera, no caso o etanol. Que vamos experimentar uma redução espetacular na disponibilidade de açúcar para o mundo, se olharmos um intervalo de 24 meses. O que o Brasil vai deixar de exportar em 24 meses comparando com a média de exportação brasileira pode se equivaler ao superávit mundial. Some-se a esses pontos mencionados também a possibilidade de melhora na economia (dependendo do eleito) e teremos um déficit de cana de açúcar para atender a demanda interna. Difícil não ser construtivo para 2019/2020 em diante.

Decepcionante foi o consumo de combustíveis pelo ciclo Otto no acumulado de doze meses. Segundo dados da ANP, o consumo cobrindo o período de agosto de 2017 até julho de 2018 somou 52.26 bilhões de litros uma queda expressiva de 2.97% em relação ao mesmo período do ano passado. Foi a maior queda num período de doze meses desde janeiro de 2004. É raro haver queda de consumo no ciclo Otto quando o PIB é positivo. Lembrando que durante o último ano do governo (?) Dilma quando o PIB foi negativo, o consumo no Ciclo Otto ficou inalterado.

Segue o martírio eleitoral. Existe um razoável risco de o Brasil eleger o poste indicado pelo presidiário Lula da Silva. Um país que corre o risco de vir a ser comandado de dentro da cadeia merece, se confirmada a possibilidade, ser chamado de país de bandidos. Não consigo imaginar o que seria o Brasil com mais quatro anos de governo de esquerda. Talvez George Friedman, autor do livro “Os Próximos 100 Anos – Uma Previsão para o Século XXI” pudesse jogar uma luz sobre essa possibilidade. Uma eventual eleição do poste de Lula ou de Ciro Gomes vai jogar o Brasil no precipício, com consequências que fogem da minha criatividade conjecturar sobre.

O endividamento das usinas no final de agosto, segundo apuração da Archer Consulting, atingiu R$ 95.85 bilhões, um aumento de 12.85% em relação a agosto do ano passado. A desvalorização do real, que em doze meses caiu 20% em relação ao dólar, é a principal responsável por esse acréscimo no endividamento. Se estimarmos a safra brasileira como sendo aproximadamente de 600 milhões de toneladas de cana, o endividamento médio das usinas é de US$ 157.65 por tonelada de cana moída.