A transição da mobilidade exige realismo: o Brasil não pode ignorar a vantagem estratégica do etanol
16-03-2026
Confira artigo de Edmundo Barbosa, presidente-executivo do Sindalcool)
A recente repercussão de matéria publicada na imprensa internacional sobre as limitações práticas dos veículos elétricos recoloca em pauta uma questão central para o setor de energia e transportes: a transição energética não será bem-sucedida se for conduzida por narrativas simplificadas, dissociadas da realidade da infraestrutura, do custo ao consumidor e das vocações produtivas de cada país.
O debate é especialmente relevante para o Brasil.
Em mercados desenvolvidos, já se observam sinais claros de que a eletrificação veicular, embora importante, não se apresenta como solução única nem linear. Persistem desafios associados à depreciação dos veículos, ao custo de reposição e manutenção, à disponibilidade de oficinas qualificadas, ao desempenho em viagens longas e, sobretudo, à dependência de uma infraestrutura de recarga ainda heterogênea.
Para o Brasil, esses alertas devem ser lidos com atenção estratégica.
Nosso país possui uma singularidade que raramente é devidamente valorizada no debate público: já conta com uma solução de mobilidade de baixo carbono em larga escala, operacional, nacional e integrada à economia real. Essa solução é o etanol.
Ao longo de décadas, o Brasil construiu uma base robusta formada por produção agroindustrial competitiva, tecnologia automotiva flex fuel, rede de distribuição instalada, conhecimento técnico acumulado e capacidade de oferta em escala. Poucos países no mundo dispõem de uma alternativa renovável com esse grau de maturidade.
Por isso, a discussão sobre descarbonização do transporte no país não pode ser importada de forma acrítica. O erro está em presumir que a rota tecnológica ideal para economias com outra matriz energética, outra estrutura industrial e outra geografia logística deva ser automaticamente replicada em território brasileiro.
No caso brasileiro, a política pública mais racional é aquela que reconhece o valor da complementaridade tecnológica.
Veículos elétricos podem cumprir papel relevante em nichos específicos, sobretudo em ambientes urbanos, frotas cativas e aplicações em que a previsibilidade da recarga esteja assegurada. Mas o transporte de passageiros em larga escala, em país continental, com forte sensibilidade a preço, renda e infraestrutura, exige abordagem mais pragmática. É justamente nesse ponto que o etanol, inclusive em combinação com veículos híbridos flex, ganha centralidade estratégica.
O etanol oferece atributos que dialogam diretamente com as prioridades nacionais. Reduz emissões, aproveita ativos já existentes, fortalece a segurança energética, diminui a dependência de combustíveis fósseis importados, interioriza desenvolvimento econômico e sustenta empregos ao longo de cadeias produtivas intensivas em investimento e geração de valor regional.
Do ponto de vista industrial, seu papel é ainda mais relevante. A cadeia sucroenergética não apenas abastece o mercado de combustíveis, mas organiza atividades de agricultura, indústria, logística, energia elétrica, inovação tecnológica e arrecadação tributária. No Nordeste, e particularmente em estados produtores, essa dimensão assume caráter adicional: o etanol não é apenas um produto energético, mas vetor de estabilidade econômica regional e de dinamização do interior.
Nesse contexto, a insistência em uma visão binária — como se o futuro se resumisse à substituição rápida e integral do motor a combustão pelo veículo elétrico a bateria — representa mais um reducionismo ideológico do que uma estratégia consistente de transição.
O que o setor produtivo espera é uma agenda baseada em eficiência de carbono por resultado efetivo, e não em preferência abstrata por determinada tecnologia.
O Brasil precisa avançar em neutralidade tecnológica com metas objetivas de descarbonização, reconhecendo o papel dos biocombustíveis, dos híbridos flex, da eficiência veicular e da inovação incremental como instrumentos concretos e imediatos de redução de emissões. Essa agenda é mais aderente à realidade nacional e mais compatível com a necessidade de preservar competitividade, abastecimento e inclusão econômica.
Em vez de marginalizar ativos já consolidados, o país deveria fortalecer suas vantagens comparativas.
Isso significa ampliar a previsibilidade regulatória para os biocombustíveis, aperfeiçoar a comunicação com o consumidor, estimular o uso de métricas mais transparentes de emissões no ciclo de vida, promover a inovação automotiva compatível com etanol e híbridos flex e evitar políticas que, na prática, penalizem soluções nacionais já maduras para favorecer modelos importados ainda distantes da realidade da maioria da população.
A transição energética do transporte será mais robusta quando combinar ambição ambiental com racionalidade econômica.
O Brasil não precisa escolher entre modernidade e etanol. Ao contrário: uma das formas mais inteligentes de ser moderno, no nosso caso, é justamente valorizar o que já temos de competitivo, renovável e escalável.
A lição setorial é clara. O futuro da mobilidade brasileira não deve ser construído por imitação. Deve ser estruturado com base em segurança energética, eficiência climática, competitividade industrial e realismo de mercado.
E, nesse desenho, o etanol continua sendo um dos principais ativos estratégicos do país.
Edmundo Barbosa é presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Fabricação do Álcool no Estado da Paraíba (Sindalcool)

