Açúcar orgânico do Brasil ainda sofre com tarifas
08-01-2026

Leontino Balbo Júnior, da Native: apenas o Canadá como opção no exterior — Foto: Ricardo Benicchio Divulgação/Native
Leontino Balbo Júnior, da Native: apenas o Canadá como opção no exterior — Foto: Ricardo Benicchio Divulgação/Native

Exportadores brasileiros têm dificuldades para encontrar alternativas ao mercado americano

Por Camila Souza Ramos — São Paulo

Seis meses após o início do tarifaço americano contra o Brasil, que continua vigente para uma fatia das vendas ao mercado externo, os exportadores de açúcar orgânico enfrentam dificuldades para encontrar alternativas para embarcar o produto nacional. Antes isento de tarifa para entrar nos Estados Unidos, agora, na prática, o açúcar orgânico do Brasil paga cerca de 100% de tarifa.

O presidente americano Donald Trump atingiu o açúcar orgânico brasileiro duplamente. Além de continuar a pagar a sobretaxa de 40%, que passou a vigorar em agosto de 2025, acrescida dos 10% que os EUA cobram sobre exportações de todo o mundo, o produto deixou de usufruir da “Specialty-Quota” para o açúcar orgânico, perdendo a isenção da tarifa de US$ 327 a tonelada que beneficiava uma cota de 240 mil toneladas.

Os EUA respondem por boa parte do consumo global de produtos orgânicos. O uso de açúcar orgânico é obrigatório para alimentos industrializados orgânicos, como granolas, barras de cereais e iogurtes, o que significa que, sem ele, as indústrias americanas não podem vender produtos como orgânicos.

A Native, do Grupo Balbo, começou a buscar outros mercados e estava começando a abrir portas no México — até ter uma má notícia em 31 de dezembro. Naquele dia, o governo mexicano anunciou que retiraria a isenção de tarifas de importação para diversos produtos, entre eles o açúcar.

“Chegamos a embarcar dez contêineres para o México e havia pedidos de mais, mas não vamos mais conseguir exportar”, lamenta Leontino Balbo Júnior, vice-presidente da Native Produtos Orgânicos. Com a decisão, o México passou a cobrar uma tarifa de 200% sobre o açúcar orgânico.

Ele conta que a incursão no país começou em 2025, quando incentivou um distribuidor americano a abrir mercado no México. A distribuidora chegou a contratar funcionários mexicanos, que foram treinados pela Native, o que começou a dar resultados. A expectativa da Native era exportar até 3 mil toneladas até junho de 2026 — os americanos chegam a consumir 300 mil toneladas ao ano.

Atualmente, a única alternativa que a empresa vem encontrando é o Canadá, cujas indústrias têm recebido mais pedidos de clientes americanos para suprir a demanda nos EUA. Ainda assim, os volumes são pequenos. A empresa de Balbo, que antes vendia 6 mil toneladas de açúcar orgânico ao Canadá, agora deve embarcar 9 mil toneladas anuais.

Sem outro mercado relevante como opção, a Native tem hoje 30 mil toneladas em estoque, um volume alto para uma empresa que esperava exportar 40 mil toneladas aos EUA nesta safra e zerar os estoques em abril. “O distribuidor não tem caixa para comprar. Está sem capital de giro”, afirma Balbo.

A Jalles Machado, outra exportadora brasileira de açúcar orgânico, ainda está conseguindo vender seu produto aos EUA. “Continuamos vendendo para nossos clientes porque os Estados Unidos precisam. Mas estão repassando [o custo] para o varejo”, conta Rodrigo Penna, diretor financeiro da companhia.

Segundo ele, a empresa tenta aumentar as vendas a outros mercados, mas sem grandes destaques. “[A tarifa] está encarecendo o açúcar para o consumidor e não ajuda o produtor americano, que não produz orgânico”, diz.

Fonte: Globo Rural