Alta nas recuperações judiciais no agronegócio reflete crise concentrada em produtores pessoas físicas
03-07-2026

Apesar do recorde de 1.990 pedidos de RJ em 2025, inadimplência entre empresas permanece controlada. Para o Martinelli Advogados, mercado de capitais e engenharia financeira despontam como alternativas para evitar a via judicial

O agronegócio brasileiro atravessa um período de intensos desafios financeiros, tendo registrado uma escalada de pedidos de Recuperação Judicial entre 2021 e 2025. Contudo, mais do que apontar para uma suposta crise sistêmica, o fenômeno exige uma leitura estratégica: o setor necessita de uma governança financeira e uma gestão de passivos tão sofisticada quanto a evolução tecnológica na área produtiva, segundo avaliação do Martinelli Advogados, um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil.

Dados da Serasa Experian revelam que o setor atingiu um recorde histórico em 2025, com 1.990 pedidos de RJ. Trata-se de um aumento de 56,4% no ano, o que revela uma escalada drástica frente aos 534 pedidos registrados em 2023.

Filipe Kuss, advogado cível do Martinelli, ressalta que a análise dos dados de inadimplência do Banco Central mostra uma disparidade interessante. Na carteira de crédito rural com recursos direcionados, a inadimplência média entre os produtores rurais pessoas físicas (PF) saltou de 1,40%, em 2021, para 4,37% no ano passado, praticamente dobrando a partir de 2024 e alcançando seu maior patamar. Em contrapartida, entre os produtores estruturados como pessoas jurídicas (PJ), a inadimplência permaneceu estável e sob rígido controle durante todo o período, variando entre 0,33% e 0,67%, fechando 2025 em 0,52%.

“Essa disparidade indica que produtores desprovidos de ferramentas corporativas de gestão de risco estão sendo afetados de forma muito mais severa pela volatilidade internacional e por quebras localizadas de safra”, explica o especialista do Martinelli. “Já os grupos com maior maturidade gerencial conseguem absorver os choques, mantendo-se competitivos.”

Embora a RJ seja um instrumento legítimo e fundamental para a preservação da atividade, Kuss alerta que ela não deve ser tratada como a primeira resposta a um momento de aperto de caixa. Isso porque a entrada em recuperação judicial altera o relacionamento com credores, impõe forte retração na oferta de crédito novo e pode afetar a credibilidade perante o mercado, dificultando o acesso a insumos essenciais para safras futuras.

Antes da adoção de medidas extremas, o advogado lembra que o mercado oferece mecanismos de reestruturação que podem proteger a operação e evitar o desgaste de um processo judicial. Essa reestruturação deve ser precedida por um diagnóstico profundo da operação e pela análise de alternativas disponíveis.

Isso inclui, por exemplo, o mercado de capitais, com a substituição de dívidas de curto prazo por estruturas mais eficientes. Instrumentos como FIDCs, Fiagros, Notas Comerciais e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) permitem alongar o passivo, adequando o fluxo de caixa à capacidade real de pagamento.

Outro caminho, explica o especialista do Martinelli, é a utilização do Manual de Crédito Rural (MCR), que assegura ao produtor o direito de alongar o vencimento de operações em casos de frustração de safra ou queda de preços.

Há, ainda, a possibilidade de renegociação extrajudicial bilateral. A ideia aqui, afirma, é buscar acordos diretos com fornecedores de insumos e revendas, parceiros que muitas vezes detêm tickets médios de dívida superiores aos dos bancos e possuem interesse direto na manutenção da atividade produtiva.

Kuss ressalta ainda um movimento interessante apontado pelo Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (OBRE). Embora o número de processos permaneça estável (13 em 2025), o número de requerentes saltou de 26 para 55. "Isso evidencia que grupos familiares e conglomerados econômicos têm buscado soluções conjuntas e estruturadas para o seu passivo", pontua o advogado.

"O cenário atual comprova que, em um setor submetido a variáveis incontroláveis — como clima, flutuações cambiais e tensões geopolíticas —, a gestão financeira madura é tão decisiva quanto a capacidade de produzir no campo. As dificuldades existem, mas devem ser enfrentadas com diagnóstico técnico e assessoria especializada para garantir a continuidade do negócio no longo prazo", conclui Kuss.