Áreas com maior conectividade têm menos incêndios florestais, aponta pesquisa
16-03-2026

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Estudo inédito da ConectarAgro e da Universidade Federal de Viçosa (UFV) estabelece relação entre exclusão digital e avanço do fogo no meio rural

Igor Savenhago | Ribeirão Preto

Um estudo inédito conduzido pela ConectarAgro, associação que busca levar acesso à internet a todo o território brasileiro, e pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, lança luz sobre um fator ainda pouco explorado no debate público: a relação entre a ausência de conectividade digital no meio rural e a maior incidência de incêndios florestais. Ao cruzar dados de cobertura de internet móvel com áreas efetivamente queimadas no ano de 2024, a pesquisa oferece evidências de que a exclusão digital pode agravar a vulnerabilidade ambiental em diferentes regiões do País.

O levantamento analisou a totalidade do território brasileiro, utilizando dados de áreas queimadas do MapBiomas Fogo e informações sobre cobertura de internet móvel (4G e 5G) fornecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A metodologia combinou técnicas avançadas de geoprocessamento com análises estatísticas, permitindo sobrepor, em escala municipal, estadual e por bioma, a ocorrência de fogo e a presença de infraestrutura digital.

O resultado foi um panorama detalhado e inédito: municípios, Estados e biomas com menor cobertura de internet móvel apresentam, de forma consistente, maiores proporções de áreas queimadas. 

Em 2024, cerca de 31,3 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo no Brasil, o equivalente a aproximadamente 4% do território nacional — uma área superior à da Itália ou do Reino Unido. Segundo estimativas citadas no estudo, apenas os custos diretos associados a saúde pública, agricultura e infraestrutura de energia ultrapassaram US$ 220 milhões no período, sem contar os prejuízos de longo prazo à biodiversidade, avaliados em mais de US$ 14 bilhões.

A pesquisa destaca que a conectividade não atua isoladamente como causa ou solução do problema, mas exerce um papel estratégico ao viabilizar comunicação, monitoramento e respostas rápidas — elementos decisivos na prevenção e no controle de incêndios florestais.

Diferenças regionais 

A análise por Estados reforça o padrão observado. As maiores proporções de áreas queimadas em relação ao território estadual concentram-se nas regiões Norte e Centro-Oeste. Tocantins, Roraima e Mato Grosso lideram o ranking proporcional de áreas atingidas pelo fogo, todos com menos de 3% de seu território coberto por internet móvel. Por outro lado, Estados com maior cobertura digital, como São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, registraram percentuais significativamente menores de locais consumidos pelos incêndios.  

O estudo também utiliza a dimensão ambiental do Indicador de Conectividade Rural (ICR), que pondera a cobertura de internet em áreas de conservação pública, terras indígenas e áreas protegidas privadas, como reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs). Estados com os menores valores desse indicador ambiental coincidem com aqueles que apresentam os maiores índices de incêndios, reforçando a relação inversa entre conectividade e incidência do fogo.

De acordo com Paola Campiello, presidente da ConectarAgro, 33% do campo brasileiro está conectado atualmente, o que reforça a necessidade de ampliar a abrangência. Um dos motivos é que o acesso a internet é habilitador de outras tecnologias usadas pelos produtores rurais. 

“A conectividade coloca o produtor como agente de mudança, já que permite operacionalizar soluções com câmera, controle de temperatura, entre outras. Sem contar que as informações geradas com auxílio da tecnologia são aliadas importantes de políticas ambientais e de governança pública”, afirma Paola. 

Municípios críticos 

No recorte municipal, o estudo revela uma concentração ainda mais expressiva. Apenas dez cidades brasileiras responderam por cerca de 20% de toda a área queimada em 2024, somando mais de 6 milhões de hectares — uma extensão superior à área da Croácia. Entre eles, estão São Félix do Xingu (PA), Corumbá (MS) e Altamira (PA), todos com percentuais ínfimos de cobertura por sinal de internet móvel.

Em muitos desses municípios, menos de 1% da área incendiada contava com cobertura digital, o que limita drasticamente o uso de sistemas de alerta precoce, aplicativos de monitoramento, comunicação com órgãos ambientais e coordenação de brigadas. Por outro lado, municípios com alta conectividade apresentaram, de modo geral, menores proporções de área queimada, mesmo quando localizados em regiões suscetíveis ao fogo.

Biomas mais afetados 

A leitura por biomas reforça a gravidade do cenário. Amazônia e Cerrado, juntos, concentraram 87% de toda a área queimada do País em 2024, totalizando 27,2 milhões de hectares. Em ambos os biomas, a cobertura média de internet móvel é inferior a 6%. O Pantanal, apesar de menor em extensão territorial, apresentou um dado alarmante: 14,33% de seu território foi queimado em um único ano, com apenas 1,18% de área conectada.

Em contrapartida, biomas como Mata Atlântica, Caatinga e Pampa, que apresentam percentuais significativamente maiores de cobertura digital, registraram menores proporções de áreas queimadas. Para os pesquisadores, esse padrão reforça a hipótese de que a conectividade atua como um fator de mitigação indireta, ao facilitar ações preventivas, fiscalização, conscientização e respostas rápidas.

Ferramenta de gestão ambiental

O estudo destaca que a ocorrência de incêndios é resultado de uma interação complexa de fatores físicos, biológicos, sociais, econômicos e culturais. Ainda assim, todas as etapas da prevenção e do combate — do alerta inicial à coordenação das operações — dependem de canais de comunicação eficientes.

Nesse contexto, a conectividade rural emerge como um componente estratégico da gestão ambiental. Ela permite que produtores rurais atuem como agentes ativos na identificação de focos iniciais, amplia o acesso a informações sobre práticas sustentáveis, viabiliza sistemas de alerta precoce e fortalece a articulação entre comunidades, poder público e instituições ambientais.

Como conclusão, o estudo recomenda que expandir a conectividade no campo não deve ser visto apenas como política de inclusão digital ou de aumento da produtividade agropecuária, mas como uma estratégia fundamental de prevenção de desastres ambientais, com impactos diretos sobre a resiliência dos ecossistemas e das populações rurais.

Manejo integrado do fogo ganha força na esfera municipal 

Enquanto a ciência aprofunda o diagnóstico, políticas públicas começam a se materializar em território brasileiro. Um ano após a criação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), Piracaia (SP) e Pouso Alto (MG) se tornaram, no segundo semestre de 2024, os primeiros municípios a estruturar e iniciar a implementação de seus Planos Municipais de Manejo Integrado do Fogo (PMIF).

Localizados em áreas estratégicas da Serra da Mantiqueira, os dois municípios enfrentam desafios ambientais distintos, mas igualmente sensíveis. Piracaia abriga mananciais essenciais para o abastecimento de milhões de pessoas, enquanto Pouso Alto convive com incêndios cada vez mais severos, impulsionados por mudanças climáticas e alterações históricas no uso do solo.

Os PMIFs propõem uma abordagem integrada, que combina prevenção, uso planejado do fogo, fortalecimento de brigadas, monitoramento por câmeras, envio de alertas e governança local. Com apoio técnico da The Nature Conservancy (TNC) Brasil e de diferentes instituições públicas, os planos reconhecem o papel ecológico do fogo e buscam seu uso estratégico, em vez de tratá-lo exclusivamente como ameaça.

De acordo com Vinicius De Zorzi, especialista na TNC Brasil, outros três municípios estão com processos avançados de implantação de seus PMIFs: Bragança Paulista (SP), que já conclui o plano e deve lançá-lo em breve, além de Itamonte e Itanhandu, ambos em Minas Gerais, que estão em fase de elaboração. 

De Zorzi explica que, com essa ampliação, o PMIF deixa de ser uma experiência pontual e passa a se consolidar como um modelo necessário de atuação, “já que a efetividade da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo depende diretamente do fortalecimento dos municípios e das brigadas voluntárias, com mecanismos estáveis de financiamento”. 

Inteligência artificial

Um exemplo de que as tecnologias podem contribuir para ditar políticas públicas está em sistemas desenvolvidos pela SOL by RZK, que combinam redes 3G e 4G em áreas remotas, estações meteorológicas de precisão e telemetria para identificar, em tempo real, condições favoráveis ao surgimento de incêndios. Alertas automáticos permitem acionar equipes de campo com mais agilidade, reduzindo danos e prejuízos.

O avanço mais recente é uma inteligência artificial capaz de integrar dados climáticos, operacionais e ambientais, analisando riscos continuamente e entregando recomendações diretas aos gestores. Além da prevenção de incêndios, a tecnologia contribui para ganhos em eficiência hídrica, uso racional de insumos e planejamento agrícola.

A empresa atende áreas de cultivo de diversos produtos, com foco na cana-de-açúcar. A Usina Guaíra, no município de mesmo nome, no interior paulista, conseguiu reduzir, com o uso de inteligência artificial, os incêndios na lavoura em 85%. 

Giovanna Correia, gerente de Produtos, afirma que, entre os principais objetivos da empresa, não está apenas a venda de sistemas, mas a difusão da conectividade. “Isso porque o nosso sinal de internet é gratuito e quem está embaixo dele pode se beneficiar. Ele não é transmitido apenas para o canavial, mas fica aberto, por exemplo, a prefeituras, escolas e postos de saúde”. 

Fonte: Estadão