Caminhos para expansão do consumo do etanol -
23-01-2026
O setor nacional de biocombustíveis vem atravessando uma mudança estrutural com a rápida e forte expansão do etanol de milho nos últimos anos. De recente volume marginal, o etanol fabricado a partir do grão passou a representar na atual safra cerca de 27% da oferta doméstica.
Por Martinho Ono
Números da Unica referentes à safra 2025-2026 confirmam a tendência: enquanto a produção de etanol de cana no Centro-Sul recuou 5,4% no acumulado de abril até a primeira quinzena de dezembro, a de milho cresceu 14,5%, atingindo 6,4 bilhões de litros na mesma base comparativa. A estimativa é que a produção total do biocombustível a partir do cereal tenha fechado o ano passado na casa dos 10 bilhões de litros.
No entanto, conforme detalhei em entrevista para o portal NP Agro publicada em 19 de janeiro último, o crescimento do consumo encontra limites geográficos e tributários no mercado interno. Atualmente, entre 70% e 80% do consumo nacional está concentrado em apenas seis estados: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Fora deste eixo, há unidades da federação com consumo residual ou praticamente inexistente.
A relação entre o etanol de cana e o de milho, até então pautada pela complementaridade, tende a se tornar competitiva a partir da safra 2026-2027. Com a elevação da mistura obrigatória de anidro na gasolina para 30%, houve um alívio temporário para o escoamento da produção, mas o equilíbrio de longo prazo depende de uma base de consumidores mais ampla. Com o término da temporada 2025-2026 se aproximando, em março, o consumo total de etanol no país, indicam projeções da SCA Brasil, deverá chegar a algo em torno de 36 bilhões de litros, total que na próxima safra deve aumentar para cerca de 40 bilhões de litros.
O fato é que diferentemente da cana, cujas fronteiras agrícolas são delimitadas por fatores climáticos e de solo, o milho permite a instalação de usinas em novas regiões, como o Matopiba (confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) - além de áreas mais distantes no próprio Centro-Oeste. O desafio reside em tornar o etanol competitivo em novos mercados, sobretudo em Estados onde a produção do biocombustível a partir do grão avança.
Nesta agenda, elevar a competitividade do etanol frente à gasolina passa, primeiro, pela adoção de incentivos fiscais favoráveis aos biocombustíveis frente às fontes fósseis em Estados com demanda represada. Além disso, serão necessários esforços para o desenvolvimento de uma nova logística de distribuição, que viabilize o transporte do etanol aos centros consumidores, já que a partir do milho a fabricação do biocombustível vem se tornando cada vez mais "interiorizada".
Mas, as perspectivas para a próxima década são sim de crescimento. Com o marco legal de políticas públicas, como o "Combustível do Futuro" - além do Mover e Paten - projeta-se que a demanda nacional de biocombustíveis tenha potencial para atingir entre 48 bilhões e 50 bilhões de litros até 2035.
Além da frota de veículos leves e do transporte rodoviário pesado, as oportunidades que despontam para fabricação de combustível sustentável de aviação (SAF) e marítimo (biobunker) a partir da rota tecnológica do etanol devem criar novos mercados para o biocombustível, assim como uma nova indústria química sustentável, hidrogênio verde, e assim por diante.
O recado é que a sustentabilidade do setor sucroenergético na vertical do etanol requer que o esforço de produção seja acompanhado por uma estratégia de democratização do acesso ao biocombustível em todo o território nacional.
Fonte: UDOP

