Cenário global amplia riscos para crédito, inflação e agronegócio
17-06-2026

Análise de Sérgio Vale destaca petróleo, tarifas e inadimplência

Andréia Vital

O ambiente econômico global entrou em uma nova fase de incertezas em 2026, marcada pelo aumento das tensões geopolíticas, expansão da dívida pública e desafios estruturais nas principais economias do mundo. A avaliação foi apresentada por Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, durante a 1ª reunião de 2026 da Canaplan, que reuniu análises sobre os impactos desses movimentos para o Brasil e para o agronegócio.

Segundo Vale, o processo de perda relativa de competitividade dos Estados Unidos não começou com o atual governo. Dados apresentados mostram que o país permanece abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em desempenho educacional, enquanto a China assumiu a liderança mundial em inovação. Em 2024, os chineses registraram volume de pedidos de patentes três vezes superior ao dos norte-americanos.

Outro indicador destacado foi a redução do investimento federal dos Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento. A participação caiu de 1,86% do Produto Interno Bruto (PIB), em 1964, para 0,63% em 2022. Paralelamente, avaliações da infraestrutura americana permaneceram por quase três décadas em patamares considerados insatisfatórios.

O cenário é agravado pelo crescimento da dívida pública global, que alcançou nível equivalente ao tamanho da economia mundial, o maior percentual observado desde o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Nos países desenvolvidos, políticas fiscais expansionistas têm contribuído para a elevação dos juros de longo prazo, movimento observado nos Estados Unidos, Alemanha e Japão.

A instabilidade aumentou após o agravamento dos conflitos no Oriente Médio. As revisões mais recentes da OCDE indicam aceleração das expectativas de inflação em diversas economias. Nos Estados Unidos, a projeção para 2026 passou de 3% para 4,2%. No Reino Unido, subiu de 2,5% para 4%. Também houve revisões para cima na Zona do Euro, Alemanha, China, Índia e Rússia.

O mercado de combustíveis já sente os reflexos do novo cenário. Desde janeiro, os preços do diesel acumulavam alta superior a 61% nos Estados Unidos, enquanto a gasolina avançava quase 48%. Apesar disso, a MB Associados avalia que o impacto econômico tende a ser menos severo do que em choques anteriores, devido à menor dependência mundial do petróleo na matriz energética.

Ainda assim, o comportamento da commodity segue sendo uma variável de risco. Projeções do Goldman Sachs indicam que uma interrupção prolongada da oferta pode levar o barril do Brent para patamares significativamente superiores aos observados atualmente.

Entre os temas de maior interesse para o agronegócio brasileiro está a intensificação das disputas comerciais entre Brasil e Estados Unidos. A apresentação destacou que o etanol se tornou um dos principais pontos de atrito nas investigações conduzidas pelo governo norte-americano.

A alegação dos Estados Unidos é que o Brasil retomou uma tarifa de 18% sobre o etanol importado, enquanto o produto brasileiro enfrenta tarifa de 2,5% mais cobrança fixa por galão no mercado americano. Segundo a análise apresentada, o resultado das investigações pode abrir espaço para medidas de retaliação contra produtos brasileiros.

Entre os setores potencialmente afetados aparecem açúcar, café, carne bovina e suco de laranja. A definição dos próximos passos deve ocorrer ao longo dos próximos meses, período considerado decisivo para as relações comerciais entre os dois países.

No mercado interno, os indicadores de crédito mostram deterioração gradual das condições financeiras. Em janeiro de 2026, 49,7% da população adulta com CPF válido possuía algum tipo de dívida, percentual próximo ao maior nível da série histórica.

A inadimplência das pessoas físicas atingiu 6,9% em fevereiro, enquanto a das empresas alcançou 3,3%. O avanço ocorre em praticamente todas as faixas de renda, indicando que os efeitos dos juros elevados continuam pressionando consumidores e negócios.

A situação é ainda mais sensível nas operações ligadas ao setor rural e agroindustrial. Entre pessoas físicas com renda inferior a dois salários mínimos, a inadimplência nessas linhas de crédito saltou de 4,5% para 16% em apenas um ano. Nas demais faixas de renda também foram registrados aumentos expressivos.

O estudo aponta ainda que os efeitos positivos do programa Desenrola foram temporários. Segundo a MB Associados, a iniciativa contribuiu para reduzir o endividamento por cerca de 18 meses, mas a tendência voltou a se deteriorar após esse período.

Para 2026, a consultoria projeta inflação de 5%, acima do centro da meta. Alimentação e bebidas devem registrar alta de 5,4%, enquanto transportes podem avançar 6,2%. O comportamento dos preços dos alimentos continuará sendo acompanhado com atenção, especialmente diante da possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño, fenômeno que historicamente influencia a produção agrícola e a inflação no Brasil.