Cenário macroeconômico aponta desaceleração gradual e espaço limitado para valorização do real
21-01-2026
Revisões do Itaú indicam crescimento puxado pelo agro em 2025, inflação mais comportada e início cauteloso do ciclo de queda dos juros
Por Andréia Vital
A economia brasileira caminha para um processo de desaceleração gradual, com crescimento ainda sustentado em 2025 pelo desempenho do agronegócio, mas com desafios fiscais e monetários que devem limitar a recuperação nos anos seguintes. A avaliação consta do relatório de cenário macroeconômico do Itaú, divulgado em dezembro, que revisou projeções para atividade, inflação, mercado de trabalho e política monetária.
Segundo o banco, o Produto Interno Bruto deve crescer 2,3% em 2025, levemente acima da estimativa anterior, refletindo sobretudo um avanço mais forte da agropecuária. Para 2026 e 2027, a projeção é de expansão de 1,7% ao ano, em um ambiente de menor impulso fiscal e política monetária ainda restritiva.
Os dados mais recentes confirmam a perda de fôlego da economia nos setores mais sensíveis aos juros. O PIB do terceiro trimestre de 2025 avançou apenas 0,1% na comparação trimestral, com desaceleração do consumo das famílias e menor dinamismo das atividades cíclicas. Em contrapartida, segmentos menos dependentes do crédito, como agropecuária e indústria extrativa, seguem sustentando o nível de atividade.
O Itaú estima crescimento de 11% do PIB agropecuário em 2025, acima da projeção anterior de 8,3%, o que explica a revisão altista do resultado agregado do ano. Para o quarto trimestre, a expectativa é de estabilidade na margem, com algum alívio pontual vindo de condições de crédito ligeiramente melhores.
No campo inflacionário, o banco revisou a projeção do IPCA para 4,4% em 2025 e 4,0% em 2026, incorporando a desinflação de bens industriais, a queda dos índices gerais de preços e a expectativa de redução no valor da gasolina nas refinarias no início do ano. Apesar da melhora, a inflação projetada permanece acima da meta de 3% também em 2027.
O relatório aponta que estoques elevados, demanda mais fraca por bens duráveis e menor pressão dos preços internacionais devem sustentar a desaceleração dos preços de bens ao longo de 2026, com balanço de riscos assimétrico para baixo, especialmente entre os itens comercializáveis.
A avaliação do Itaú é que o Banco Central ganhou confiança de que a política monetária está surtindo efeito, diante da desaceleração da atividade e da melhora qualitativa da inflação. Ainda assim, a comunicação recente do Copom indica cautela, elevando a exigência para um eventual início do ciclo de cortes já em janeiro.
O banco mantém a expectativa de que a taxa Selic encerre 2026 em 12,75% ao ano, com redução acumulada de 225 pontos-base, mesmo que o início do ciclo seja postergado para março. Para 2027, a projeção é de Selic em 11,75%.
No mercado de câmbio, o Itaú manteve a projeção de R$ 5,50 por dólar em 2026 e de R$ 5,70 em 2027. Apesar de um cenário externo mais benigno, com expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos e enfraquecimento do dólar, o banco avalia que fatores domésticos devem limitar uma valorização mais consistente do real.
Entre esses fatores estão o aumento do prêmio de risco em ano eleitoral e a trajetória fiscal ainda desafiadora. O déficit em conta corrente deve permanecer acima da média histórica, embora em trajetória de convergência gradual, alcançando 3,1% do PIB em 2026 e 2,8% em 2027.
No campo fiscal, o Itaú revisou a projeção de resultado primário de 2025 para um déficit de 0,5% do PIB, incorporando melhor desempenho das receitas de royalties. Para 2026 e 2027, o banco projeta deterioração adicional, com déficits de 0,8% e 0,9% do PIB, respectivamente, mesmo com o cumprimento formal das regras do atual arcabouço fiscal.
Segundo o relatório, o desenho vigente das regras fiscais é insuficiente para estabilizar a dívida pública no médio prazo, especialmente na ausência de novas fontes estruturais de receita ou medidas de controle mais efetivas sobre o crescimento das despesas.

