Crédito rural sustentável cai R$ 3,6 bilhões enquanto o total contratado recua 28,8%, aponta boletim da Agroicone
29-10-2026

Contratação total de crédito rural cai de R$ 113,4 bilhões para R$ 80,7 bilhões, e a retração, que já vinha entre os não familiares, atinge agora a agricultura familiar

O crédito rural contratado no primeiro trimestre da safra 2026/27 somou R$ 80,7 bilhões, 28,8% abaixo do mesmo período da safra anterior (R$ 113,4 bilhões), em um mercado tensionado por passivos acumulados e restrição de liquidez. Os dados são do boletim trimestral “Crédito Rural em Jornada de Sustentabilidade”, elaborado pela Agroicone, com base no Sicor/BCB. Segundo o estudo, o crédito enquadrado em jornada de sustentabilidade recuou de R$ 21,1 bilhões para R$ 17,5 bilhões (R$ 3,6 bilhões a menos), embora sua participação no total de custeio e investimento tenha subido de 22,8% para 26,3%.

Dentro desse recuo, os pesquisadores identificam um movimento proporcionalmente favorável. “Apesar do menor apetite por crédito, a carteira tem apresentado um direcionamento relativo maior para intervenções com atributos socioambientais e climáticos”, afirma Lauro Vicari, pesquisador da Agroicone e um dos autores do boletim.

Crédito em retração

O total contratado no trimestre se distribuiu em 562 mil operações, contra 717 mil no primeiro trimestre da safra 2025/26. A queda deixou de ser restrita aos médios e grandes produtores e chegou à agricultura familiar. No Pronaf, a contratação foi de R$ 22,7 bilhões em 480 mil operações, abaixo dos R$ 23,9 bilhões em 591 mil operações do primeiro trimestre anterior (dados de 08/10/2026, sujeitos a alteração). Entre os não familiares (crédito fora do Pronaf), o declínio já vem de safras anteriores. O volume contratado no primeiro trimestre passou de R$ 140,9 bilhões em 2023/24 para R$ 58 bilhões na safra atual, e o número de operações caiu de 194 mil para 81,5 mil.

A retração vem sendo associada à deterioração da carteira de crédito rural. O estudo Raio-X do Crédito Rural Problemático, também conduzido pela Agroicone, mostra que o saldo de operações problemáticas passou de R$ 34,1 bilhões em julho de 2023 para R$ 188,8 bilhões em abril de 2026, e que a inadimplência efetiva subiu de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões no período. Segundo o boletim, esse quadro alterou a percepção de risco das instituições financeiras e a decisão de financiamento.

Alguns analistas de mercado apontam que a dificuldade de arcar com os compromissos financeiros leva muitos produtores a recorrer a recursos próprios ou a deixar de amortizar parcelas de safras anteriores, redirecionando os recursos para novos plantios. “Essa decisão pode trazer riscos ainda maiores, agravando o problema do endividamento. Além disso, a aversão ao risco retraiu o apetite geral e afetou até mesmo o acesso a instrumentos de financiamento privado”, avalia Gustavo Lobo, pesquisador da Agroicone e um dos autores do boletim.

A emissão de Cédulas do Produtor Rural (CPR), instrumento com regras mais flexíveis que as do crédito rural, somou R$ 50,3 bilhões no trimestre, valor inferior aos R$ 68,3 bilhões do primeiro trimestre do ciclo 2025/26.

Onde está o recurso sustentável

Dos R$ 17,5 bilhões enquadrados, R$ 12,4 bilhões foram para custeio, ante R$ 14,2 bilhões um ano antes, e R$ 5,1 bilhões para investimento, ante R$ 6,9 bilhões. Por atividade, R$ 15,8 bilhões foram para a agricultura, ante R$ 19,1 bilhões, e R$ 1,7 bilhão para a pecuária, ante R$ 2 bilhões.

Os chamados produtos associados responderam por R$ 13,7 bilhões (78,3%) do total enquadrado. Pelo princípio adotado na metodologia, em seu nível mais amplo, basta que um produto do contrato seja sustentável para que toda a operação seja contabilizada. Em segundo lugar, destacaram-se os produtos da categoria melhoramento de solos, que somaram R$ 2,3 bilhões (13,4%). No investimento, os destaques foram correção intensiva do solo (R$ 1,4 bilhão), pastagem (R$ 578,2 milhões) e máquinas e implementos (R$ 456,2 milhões). No custeio, lideraram soja (R$ 5,2 bilhões), milho (R$ 2,1 bilhões) e café (R$ 2,1 bilhões).

Por fonte de recurso, os Obrigatórios lideraram, com R$ 5 bilhões, seguidos pela LCA Controlados com subvenção econômica (R$ 4,5 bilhões) e pelo Fundo Constitucional do Nordeste (FNE), com R$ 1,9 bilhão. Na variação anual, a poupança rural com subvenção cresceu 33,6% e o FNE, 32,2%, enquanto o BNDES/Finame equalizável recuou 27,7%.

Entre os estados, o Rio Grande do Sul concentrou o maior volume enquadrado (R$ 4,5 bilhões), seguido por Paraná (R$ 2,2 bilhões), Minas Gerais (R$ 2 bilhões), Espírito Santo (R$ 1,4 bilhão) e Mato Grosso (R$ 1,1 bilhão).

Pronaf liderando as linhas com finalidade sustentável

Dos cerca de R$ 2 bilhões contratados em programas e subprogramas com finalidade sustentável, o Pronaf somou R$ 978,3 milhões. O destaque foi o Pronaf Bioeconomia, com R$ 925 milhões. Entre os produtores não familiares, o RenovAgro e os demais subprogramas somaram R$ 974,8 milhões, com Recuperação e Conversão na liderança (R$ 268,5 milhões, ou 27,5% do valor rotulado para esse público).

Em valores nominais, as linhas sustentáveis do Pronaf cresceram R$ 129,1 milhões, enquanto o RenovAgro e os demais subprogramas recuaram R$ 725 milhões. Segundo o boletim, o movimento expõe como o cenário macroeconômico desafiador ameaça o processo de transição da agropecuária.

A participação desses subprogramas no total de investimento contratado por cada grupo subiu 3,42 pontos percentuais no Pronaf e 0,65 ponto percentual entre os não familiares, mas o boletim ressalta que o avanço relativo ocorreu em meio à redução geral da contratação.

Risco para a transição

Para os pesquisadores, o cenário exige monitoramento ativo. Mesmo com o ganho relativo de participação, a queda em valores absolutos, assim como a do financiamento em geral, é um ponto de preocupação.

“A transição para uma agropecuária de baixa emissão de carbono e resiliente às intempéries climáticas é intensiva em capital. Sem mecanismos adequados para a mitigação do risco de crédito e climático, como o seguro rural, e alternativas viáveis para a reestruturação do endividamento atual, a capacidade de investimento do produtor tende a ficar comprometida”, explica Leila Harfuch, sócia da Agroicone e uma das autoras do boletim.