Custo de fertilizante nitrogenado renovável já é competitivo com o de origem fóssil, diz estudo
22-01-2026
Pesquisa foi desenvolvida por think tank brasileiro e organização não-governamental norte-americana
Por Clarice Couto — São Paulo
O custo para produzir fertilizantes nitrogenados com matérias-primas renováveis no Brasil já é muito similar ao da produção nacional com gás natural, de acordo com o estudo “Decarbonizing the Ammonia Fertilizer Supply Chain in Brazil”, desenvolvido pelo think tank brasileiro Instituto E+ Transição Energética e a organização não-governamental norte-americana Rocky Mountain Institute (RMI), que atua em mais de 50 países.
O documento considera a produção de nitrogenados utilizando biometano para produzir amônia, matéria-prima base desse tipo de fertilizante, além do uso de eletricidade gerada por fontes renováveis. O biometano é o gás obtido da purificação de outros gases gerados pela decomposição de matéria orgânica, como resíduos agrícolas - vinhaça a partir da cana-de-açúcar e dejetos de animais, por exemplo - e urbanos, e é um substituto do gás natural, de origem fóssil.
“Com abundância de vento, sol, biomassa e um mercado agrícola robusto, o país reúne condições únicas para desenvolver uma indústria doméstica de fertilizantes de baixo carbono, capaz de reduzir riscos, gerar competitividade e apoiar metas climáticas”, disse o especialista em combustíveis renováveis e fertilizantes do Instituto E+, Pedro Guedes, um dos autores do estudo, em nota.
O estudo compara custos de produção da chamada amônia verde, produzida com fontes renováveis, da amônia cinza, feita com gás natural, e a azul (gás natural com captura e armazenamento de carbono) no Brasil. Também se baseia em tecnologias já disponíveis e preços praticados ou potenciais.
O custo da amônia verde já seria competitivo com o da azul e da cinza no caso de projetos híbridos - quando há geração de energia elétrica dedicada no local de consumo, também conhecida como behind-the-meter, e conexão à rede nacional - em portos como Rio Grande (RS) e Pecém (CE).
A análise não compara o custo dos fertilizantes nacionais com os importados porque se orienta pelo Plano Nacional de Fertilizantes 2050, que busca a ampliação da produção nacional e a redução das emissões do setor, explica Guedes.
Hoje, 97% dos fertilizantes nitrogenados usados na agricultura brasileira são importados. O plano desenvolvido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) prevê uma redução gradual desse volume, com aumento da produção nacional.
O estudo também destaca que com as plantas de fertilizantes nitrogenados já instaladas no Brasil e projetos anunciados e em desenvolvimento, o país teria capacidade instalada de 3,8 milhões de toneladas por ano, o suficiente para atender 45% da demanda projetada para 2050. Disso, 1,2 milhão de toneladas seriam provenientes de fontes de baixo carbono.
Os autores do trabalho lembram que a dependência do Brasil aos fertilizantes importados deixa a agricultura brasileira exposta a choques como os decorrentes da guerra na Ucrânia, que elevaram os preços do insumo globalmente em 2021 e 2022.
Para reduzir essa exposição e avançar em nitrogenados renováveis, os pesquisadores enfatizam a necessidade de ações em outras frentes, como visão estratégica e alinhamento de políticas na área, mobilização de investimentos, expansão de infraestrutura e ativação da demanda.
Fonte: Globo Rural

