Debates sobre jornada de trabalho, mercado e inovação marcam reunião da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool, em Brasília
20-03-2026

A reunião da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura e Pecuária, realizada nesta quarta-feira (18), em Brasília, reuniu representantes do setor produtivo, entidades e especialistas para discutir temas estratégicos que impactam diretamente a cadeia sucroenergética. O encontro foi conduzido pelo presidente da Câmara, Pedro Campos Neto.

Entre os principais pontos debatidos, ganhou destaque a preocupação do setor com propostas de mudança na jornada de trabalho em tramitação no Congresso Nacional. De acordo com os participantes, há movimentações para pautar ainda este ano projetos que tratam da redução da carga horária, incluindo a chamada PEC 221, que prevê jornada de 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial. A proposta, que já reúne diferentes iniciativas legislativas sobre o tema, preocupa especialmente produtores do Nordeste. Segundo representantes do setor, a eventual constitucionalização de um novo modelo de jornada pode engessar as relações de trabalho e dificultar a adaptação às realidades regionais.

“Uma mudança impositiva na Constituição retira a capacidade de negociação dos setores. No campo, já enfrentamos escassez de mão de obra e, em muitos casos, dificuldade de contratação devido à manutenção de benefícios sociais. A combinação desses fatores pode gerar um cenário crítico”, alertou o advogado da CNA, Rodrigo Alves Costa. Outro ponto levantado foi a incerteza quanto ao instrumento legal que será adotado — se por meio de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) ou projeto de lei — além da falta de clareza sobre o conteúdo final a ser votado.

Além das questões trabalhistas, a reunião abordou desafios de mercado, especialmente no segmento de etanol. Representantes do setor alertaram para o descompasso entre o crescimento da produção — impulsionado, sobretudo, pelo etanol de milho — e a demanda ainda insuficiente para absorver esse volume, o que tem pressionado preços e margens. Por outro lado, foi ressaltado o potencial de expansão do etanol como alternativa energética global, inclusive com boas perspectivas no setor marítimo, com destaque para iniciativas internacionais de descarbonização e uso de combustíveis renováveis. O etanol brasileiro foi apontado como uma das opções mais viáveis e sustentáveis nesse cenário.

A reunião também abriu espaço para a apresentação de iniciativas de inovação, como o programa “Cana Mais”, da Embrapa, que pretende fortalecer a pesquisa, ampliar a produtividade e aproximar o setor produtivo das soluções tecnológicas. Também foi apresentado dados das safras na região Centro/Sul, que até a segunda quinzena de janeiro, mostrou a produção de açúcar se mantendo crescente e a produção de etanol em decréscimo, e uma safra com estimativa de 635 milhões de toneladas de cana. Abordou-se também a safra do Nordeste que tem atravessado momentos difíceis desde o ano passado, com redução em quase todos os estados e, principalmente, com relação a queda nos preços.

Ao final, ficou evidente que o setor atravessa um momento de grandes desafios, que envolvem desde questões regulatórias e trabalhistas até a necessidade de expansão de mercados e ganhos de eficiência. A avaliação geral dos participantes é de que o acompanhamento permanente dessas pautas e a articulação institucional serão decisivos para garantir a sustentabilidade da atividade.

Na avaliação do presidente da Câmara Setorial do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura e Pecuária, Pedro Campos Neto, a reunião foi produtiva e estratégica diante dos desafios enfrentados pelo setor. “Debatemos sobre temas sensíveis, como as propostas de mudança na jornada de trabalho, o cenário do mercado de etanol e as perspectivas de inovação. O setor vive um momento que exige atenção redobrada e essas pautas podem alterar significativamente a nossa realidade. E a Câmara cumpre um papel essencial de integração, permitindo que possamos alinhar posições, antecipar desafios e buscar soluções conjuntas para garantir a sustentabilidade do setor”, finalizou.

Fonte: Asplan