Déficit hídrico ganha relógio fisiológico para orientar intervenções na cana
19-12-2025

Pesquisador defende manejo pré-seca com base na umidade da planta e mostra impacto direto sobre ATR e produtividade

Por Andréia Vital

O déficit hídrico na cana-de-açúcar precisa ser interpretado a partir da fisiologia da planta, e não apenas pelo volume de chuvas ou pela umidade do solo. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo Paulo Alexandre Monteiro de Figueiredo, pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas (FCAT), campus da Unesp em Dracena, durante o Conexão Cana Regenerativa, promovido recentemente pela Agrociência Consultoria a bordo do navio Homero Krähenbühl, em Barra Bonita, no interior paulista.

Segundo o pesquisador, a umidade da planta funciona como um relógio fisiológico capaz de orientar decisões de manejo e de colheita. A lógica parte do princípio de que a água é o meio onde ocorrem todas as reações metabólicas. Quanto maior a hidratação dos tecidos, maior a taxa metabólica e a capacidade de resposta da cana a intervenções agronômicas.

Figueiredo destacou que lavouras com umidade acima de 70% a 74% ainda se encontram em uma janela favorável para manejo fisiológico, especialmente antes da fase final de maturação. Nessa condição, é possível lançar mão de tecnologias como aminoácidos, extratos de algas, pré-maturadores ou maturadores, conforme o objetivo produtivo. Abaixo de aproximadamente 60% de umidade, no entanto, a planta perde capacidade de resposta, com queda acentuada do metabolismo.

Para ilustrar o conceito, o pesquisador comparou o teor de água no corpo humano ao longo da vida. Um bebê possui cerca de 80% de água, enquanto um idoso pode ter pouco mais de 60%. Na cana, o raciocínio é semelhante. A perda de água compromete o metabolismo e limita a eficiência das intervenções no campo.

O pesquisador detalhou os mecanismos fisiológicos acionados pelo déficit hídrico. À medida que o solo seca, a planta acumula ácido abscísico nas células-guarda dos estômatos, elevando a concentração de cálcio e promovendo a saída de potássio. Cada íon de potássio arrasta moléculas de água para fora da célula, provocando fechamento estomático.

Com isso, há queda da condutância estomática, redução da entrada de CO₂ e forte limitação da fotossíntese. A síntese de proteínas e de parede celular diminui, e a expansão celular praticamente cessa. Segundo Figueiredo, esses processos ocorrem de forma contínua no campo, mesmo quando não são visíveis a olho nu.

Manejo pré-seca preserva metabolismo e colmos

Nesse contexto, o manejo pré-seca ganha relevância como ferramenta de mitigação do estresse hídrico. Figueiredo apresentou resultados de um ensaio conduzido em 2024, ano marcado por condições climáticas mais secas. Quatro produtos pré-seca, de empresas diferentes, foram aplicados no fim de maio e avaliados 75 dias depois, em agosto.

As áreas tratadas apresentaram teores de clorofila significativamente superiores aos da testemunha, além de maior atividade de enzimas antioxidantes, como superóxido dismutase, catalase e peroxidase, indicando maior capacidade da planta de lidar com o estresse oxidativo e de manter o funcionamento metabólico.

A avaliação dos tecidos também mostrou ganhos relevantes. Na área sem tratamento, o terço basal do colmo praticamente não apresentava tecido não isoporizado, enquanto no terço médio esse índice era de 13% e, no terço apical, de 33%. No tratamento de melhor desempenho, a proporção de tecido preservado aumentou em todos os terços, com o apical se aproximando de 60%. Os colmos tratados também apresentaram maior peso unitário, reflexo direto da maior hidratação interna.

O pesquisador alertou ainda para o impacto do estresse hídrico combinado a problemas fitossanitários sobre a qualidade industrial da cana. Em uma lavoura com sintomas de complexo de murcha, a comparação entre plantas sadias e doentes mostrou queda expressiva nos indicadores tecnológicos.

O pol recuou de 15% para 7%, a fibra subiu de 14% para 17% e o ATR despencou de 127 para 73 kg por tonelada. A pureza do caldo caiu de 74% para 37%, enquanto os açúcares redutores mais que dobraram, alcançando 2,34%. Segundo o pesquisador, esse comportamento reflete uma resposta fisiológica de defesa, na qual a planta quebra sacarose para liberar glicose e sustentar seus mecanismos de sobrevivência, em detrimento da produção de açúcar.

Ao encerrar, Figueiredo reforçou que o manejo pré-seca deve ser encarado como parte da estratégia de gestão do risco climático no setor sucroenergético. Tecnologias capazes de preservar hidratação, clorofila e o sistema antioxidante contribuem para a construção de uma memória fisiológica de estresse, permitindo respostas mais rápidas em episódios subsequentes de seca. Para ele, observar o solo continua sendo fundamental, mas é a leitura da fisiologia e da umidade da planta que define o momento mais eficiente para intervir e colher.

Confira: