Do campo à exportação, agro brasileiro precisa conectar dados para comprovar origem e sustentabilidade
29-10-2026
Discussões no Agro em Código apontam que a integração de informações sobre origem, produção e conformidade é estratégica para atender a exigências comerciais, reduzir riscos e ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro
A capacidade de comprovar a origem e as condições de produção dos alimentos pode se tornar um fator decisivo para a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado internacional. O desafio, porém, vai além da adoção de tecnologias. O setor precisa integrar informações hoje dispersas entre diferentes sistemas, garantir a confiabilidade dos registros e transformar esses dados em evidências que atendam às exigências de compradores e mercados importadores. Essa foi uma das questões centrais discutidas no Agro em Código 2026, promovido pela Embrapa e pela Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil, com apoio do Cubo Itaú.
A rastreabilidade permite acompanhar a trajetória de um produto e comprovar atributos relacionados à sua origem, qualidade, segurança e conformidade socioambiental. Na prática, essas informações podem apoiar a gestão das cadeias produtivas, facilitar a resposta a questionamentos comerciais e ajudar empresas brasileiras a demonstrar o cumprimento de requisitos exigidos por outros países.
Um dos entraves está na fragmentação dos dados. Na cadeia pecuária, por exemplo, informações sobre o trânsito de animais e a regularidade ambiental das propriedades seguem registros e sistemas distintos. Durante o encontro, especialistas apontaram a necessidade de integrar essas bases para construir uma comprovação mais consistente sobre a origem e as condições de produção.
A questão ganha relevância diante das exigências do mercado internacional, que podem demandar informações detalhadas sobre a procedência dos produtos e seus insumos. No segmento de proteína animal, o debate também destacou a necessidade de avançar na rastreabilidade dos insumos utilizados na produção, além dos controles já existentes ao longo das etapas de criação e processamento.
Da obrigação de comprovar à oportunidade de negócio
A rastreabilidade também pode ajudar produtores a demonstrar características que diferenciam seus produtos. Um dos exemplos apresentados no evento foi uma iniciativa voltada a produtores de café que utilizam QR Codes para compartilhar informações sobre a origem, a qualidade, a pontuação do produto e a região de produção.
Segundo os dados apresentados no encontro, mais de 4 mil produtores de café participam da iniciativa, cujos códigos já foram acessados em mais de 100 países. O exemplo mostra como informações sobre a produção podem ultrapassar os limites da propriedade rural e chegar a compradores e consumidores de diferentes mercados.
O potencial, contudo, depende da capacidade de demonstrar o valor dessas informações. No debate sobre consumo e sustentabilidade, representantes de empresas e organizações apontaram que a existência de dados de rastreabilidade não garante, por si só, que o consumidor os consulte ou que aceite pagar mais pelo produto.
A experiência relatada por empresas do setor de alimentos reforça esse desafio. Códigos QR e páginas com informações detalhadas sobre a origem nem sempre atraem a atenção do público. Por isso, a comunicação precisa tornar esses dados compreensíveis e relevantes para a decisão de compra, sem perder de vista sua função na gestão da cadeia produtiva e na comprovação de atributos.
Para os negócios, o retorno também pode aparecer em outras frentes, como a redução de riscos, o aprimoramento dos processos e a capacidade de responder a exigências comerciais. Essa perspectiva amplia o papel da rastreabilidade para além do cumprimento de regras e coloca a organização das informações como parte da estratégia de competitividade.
Integração de dados é parte da resposta
A tecnologia, isoladamente, não resolve o problema. Especialistas que participaram do Agro em Código ressaltaram que ferramentas como blockchain podem ajudar a preservar registros, mas sua utilidade depende da qualidade e da confiabilidade dos dados que alimentam os sistemas.
A integração entre bases públicas, registros de produção e informações das empresas é, portanto, um dos pontos necessários para dar consistência à rastreabilidade. Sem dados primários confiáveis e critérios compatíveis entre os diferentes sistemas, a capacidade de comprovar a origem e as condições de produção permanece limitada.
O desafio também envolve os pequenos produtores e negócios, que nem sempre dispõem de estrutura ou recursos para atender às mesmas exigências de empresas de maior porte. Com soluções acessíveis e iniciativas de capacitação podem contribuir para ampliar a adoção da rastreabilidade sem criar barreiras adicionais de acesso ao mercado.

