Duas estratégias, um objetivo: o que Brasil e Nova Zelândia podem aprender um com o outro sobre segurança fitossanitária
24-08-2026
As mudanças climáticas não estão transformando apenas onde e como os alimentos são produzidos. Elas também estão alterando a geografia, a sazonalidade e a intensidade das pragas agrícolas
Por: Luis Eduardo Pacifici Rangel, Ex-Secretário de Defesa Agropecuária e Conselheiro Científico Agro Sustentável (CCAS)
Temperaturas mais elevadas podem acelerar o desenvolvimento dos insetos, prolongar os períodos reprodutivos e permitir que novas gerações se completem dentro de uma mesma safra. Ao mesmo tempo, a intensificação do comércio e da circulação de produtos agrícolas cria novas rotas para a introdução de espécies invasoras.
Nesse contexto, a segurança fitossanitária deixa de ser apenas uma exigência regulatória. Ela passa a ser um componente essencial da adaptação climática, da segurança alimentar e do acesso aos mercados internacionais.
A história da traça-da-maçã, Cydia pomonella, oferece um exemplo particularmente relevante. Essa espécie está entre as principais ameaças fitossanitárias à produção de maçãs e outras frutas de clima temperado. Em pomares sem controle, a infestação pode atingir 100% dos frutos, enquanto a tolerância comercial a frutos danificados pode ser inferior a 1%.
Brasil e Nova Zelândia enfrentaram a mesma praga, mas seguiram caminhos diferentes. Suas experiências demonstram que uma estratégia fitossanitária eficaz não depende de uma única tecnologia. Ela exige a integração entre ciência, vigilância, gestão territorial, regulação e cooperação.
As mudanças climáticas aumentam o valor da prevenção
O desafio representado pela Cydia pomonella tende a se tornar ainda maior à medida que o clima se aquece. Um estudo de modelagem realizado em dez localidades da Suíça comparou o clima de referência de 1980–2009 com as condições projetadas para 2045–2074. Os cenários indicaram aumentos médios de temperatura de aproximadamente 2,0°C a 2,3°C na primavera e de 2,6°C a 2,9°C no verão, dependendo da região analisada.
Nas condições climáticas atuais, a probabilidade de uma segunda geração expressiva da praga era inferior a 20% na maior parte das localidades. No cenário futuro, essa probabilidade pode aumentar para 70% a 100%. O risco de ocorrência de uma terceira geração, atualmente próximo de zero, pode alcançar 100% nas regiões mais quentes.
O calendário biológico da praga também tende a se modificar. Nas simulações, o início do voo dos adultos da geração que atravessa o inverno passou aproximadamente do 124º para o 111º dia do ano. Já o início do voo da primeira geração passou do 205º para o 187º dia. Isso representa uma antecipação de cerca de duas semanas, acompanhada por desenvolvimento mais rápido e maior duração da atividade da praga.
O estudo também identificou aumento significativo das fases mais tardias do ciclo. Em diversas localidades, a magnitude da segunda geração de larvas praticamente dobrou no cenário futuro.
Essas alterações produzem consequências diretas para o manejo. Os emissores utilizados na confusão sexual poderão não manter sua eficácia durante toda a estação. O período de monitoramento deverá ser ampliado. Aplicações adicionais poderão ser necessárias, aumentando custos e o risco de resistência. Sistemas de apoio à decisão e intervenções mais precisamente programadas se tornarão ainda mais importantes.
Esses resultados ampliam o significado econômico e ambiental da erradicação. Eliminar uma espécie invasora antes de seu estabelecimento permanente evita não apenas perdas imediatas, mas também décadas de monitoramento, aplicações de defensivos e custos crescentes de controle sob condições climáticas mais favoráveis à praga.
Nova Zelândia: tecnologia de precisão dentro dos pomares
A Nova Zelândia desenvolveu um dos sistemas mais sofisticados do mundo para o manejo da traça-da-maçã em uma cadeia produtiva fortemente orientada à exportação. Em Hawke’s Bay, pesquisadores avaliaram o uso combinado de confusão sexual, larvicidas seletivos e da Técnica do Inseto Estéril, conhecida pela sigla SIT. Mariposas estéreis, produzidas no Canadá, foram liberadas semanalmente, primeiro a partir do solo e, posteriormente, com o uso de drones.
O projeto envolveu sete pomares e 391 hectares, incluindo seis unidades de produção integrada e um pomar orgânico. Em média, foram liberados 2.245 insetos estéreis por hectare e por safra, ao longo de aproximadamente 14 a 15 semanas. A relação pretendida era de 40 machos estéreis para cada macho selvagem, embora os valores observados tenham variado de 3:1 a 306:1.
Após seis safras, três pomares de produção integrada registraram reduções de 90% a 99% nas capturas de mariposas selvagens. Na última safra analisada, apenas sete indivíduos selvagens foram encontrados em 186 armadilhas. Em outros três pomares, as reduções variaram entre 67% e 97%, enquanto o pomar orgânico apresentou redução de 81%.
Os resultados demonstram o potencial da combinação entre monitoramento intensivo, manejo com feromônios, produtos seletivos, insetos estéreis e logística de alta precisão.
Entretanto, a erradicação regional não foi alcançada. Uma das principais razões identificadas pelo próprio estudo foi a permanência de plantas hospedeiras fora dos pomares comerciais. Macieiras, pereiras e nogueiras presentes em quintais e áreas periurbanas continuaram funcionando como potenciais fontes de reinfestação.
Os autores destacam que a erradicação exigiria uma atuação sistemática sobre essas plantas externas e a ausência de capturas por dois anos consecutivos.
Brasil: ação territorial além dos limites dos pomares
O Brasil enfrentou o mesmo problema, mas adotou uma estratégia distinta. A primeira detecção da Cydia pomonella ocorreu em 1991, em uma área urbana de Vacaria, no Rio Grande do Sul. A ampliação da vigilância demonstrou que a infestação permanecia restrita a áreas urbanas de quatro municípios: Vacaria, Bom Jesus, Caxias do Sul e Lages.
Ao mesmo tempo, os pomares comerciais passaram a utilizar armadilhas para identificar qualquer possível deslocamento da praga para as áreas produtivas. O programa brasileiro combinou armadilhas com feromônio, técnicas de atração e eliminação, medidas quarentenárias e monitoramento contínuo. No entanto, seu elemento mais característico foi a remoção e substituição sistemática das plantas hospedeiras existentes nas cidades.
As intervenções começaram nas áreas com maiores capturas e nas zonas urbanas próximas aos pomares, reduzindo a possibilidade de migração da praga para a produção comercial. Moradores que aderiram voluntariamente ao programa receberam plantas não hospedeiras, como caquizeiros, videiras, kiwis e citros, em substituição às macieiras, pereiras e outras espécies utilizadas pela praga.
Campanhas em rádios, jornais locais e ações educativas tiveram papel fundamental na mobilização da população. O resultado não decorreu apenas da aplicação de uma técnica entomológica, mas da integração entre o Ministério da Agricultura, a Embrapa, órgãos estaduais, municípios, associações de produtores e comunidades locais.
Ao todo, quase 90 mil plantas hospedeiras foram removidas ou substituídas. Em alguns municípios, mais de 95% das plantas estimadas foram eliminadas. Os dados de monitoramento mostram a dimensão do resultado. Em uma das safras de referência, aproximadamente 22,5 mil machos foram capturados em 1.080 armadilhas. Nos dois períodos posteriores relatados em 2009, apenas 51 exemplares foram encontrados em cerca de 4.500 armadilhas.
As reduções calculadas a partir das capturas iniciais e finais superaram 98% nos quatro municípios. Em Bom Jesus, não foram registradas capturas por quatro anos consecutivos. Nos demais municípios, as ocorrências residuais permaneceram concentradas próximas às poucas plantas hospedeiras ainda não removidas.
Durante o período analisado, a praga não foi detectada nos pomares comerciais, e a avaliação técnica e econômica indicou que a erradicação era viável e preferível ao estabelecimento permanente da espécie nas regiões produtoras de maçã.
O Brasil também fortaleceu as medidas de quarentena externa. A partir de 2004, foram estabelecidos protocolos adicionais de inspeção para maçãs e peras importadas, além do reforço das ações em fronteiras, portos e aeroportos.
A verdadeira comparação não é Brasil versus Nova Zelândia
Seria simplista perguntar qual país desenvolveu a melhor estratégia. A Nova Zelândia demonstrou a força das tecnologias avançadas aplicadas dentro dos sistemas produtivos. O Brasil demonstrou a importância de atuar além dos limites das propriedades e de considerar toda a paisagem como parte do sistema fitossanitário.
A experiência neozelandesa revela o potencial da Técnica do Inseto Estéril, dos drones, da confusão sexual, dos larvicidas seletivos, da rastreabilidade e do monitoramento intensivo.
A experiência brasileira mostra que vigilância territorial, autoridade pública, quarentena, remoção de hospedeiros e participação comunitária podem ser decisivas quando o objetivo não é apenas suprimir, mas erradicar.
A ausência de um programa sistemático de remoção de hospedeiros externos foi uma das principais limitações apontadas pelo estudo neozelandês. Esse foi justamente o componente que se tornou central na estratégia brasileira. As duas experiências não representam modelos concorrentes. Elas constituem partes complementares de uma arquitetura mais completa de segurança fitossanitária.
Uma oportunidade de colaboração em duas direções
A cooperação agrícola internacional costuma ser apresentada como um fluxo unilateral, no qual tecnologias são transferidas dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento.
Este caso sugere uma relação mais equilibrada. A Nova Zelândia oferece experiência internacionalmente reconhecida em insetos estéreis, manejo com feromônios, monitoramento de precisão, rastreabilidade e gestão tecnológica dos pomares.
O Brasil oferece experiência igualmente relevante em erradicação territorial, resposta oficial a emergências, quarentena, coordenação institucional, comunicação pública e gestão de plantas hospedeiras fora dos sistemas produtivos.
Surge, portanto, uma oportunidade real de aprendizagem recíproca. O Brasil pode aprender com a sofisticação tecnológica da Nova Zelândia e com sua capacidade de manter populações em níveis extremamente baixos em sistemas comerciais complexos. A Nova Zelândia pode aprender com a experiência brasileira de transformar uma infestação urbana localizada em um esforço nacional coordenado de erradicação.
Não se trata apenas de transferência de tecnologia. Trata-se de colaboração em ambas as direções. Segurança fitossanitária também é adaptação climática
As lições vão muito além da traça-da-maçã. As mudanças climáticas podem permitir que as pragas iniciem suas atividades mais cedo, completem mais gerações e permaneçam ativas por períodos mais longos. No caso da Cydia pomonella, as projeções indicam a passagem de uma segunda geração limitada para uma probabilidade de 70% a 100% de ocorrência de uma segunda geração expressiva, além da possibilidade de uma terceira geração nas regiões mais quentes.
Nessas condições, depender exclusivamente da supressão permanente se torna cada vez mais caro e arriscado. Estações mais longas podem exigir mais monitoramento, formulações mais duráveis de feromônios, aplicações adicionais e maior diversidade de métodos de controle.
A prevenção e a erradicação passam, portanto, a ser instrumentos de redução do risco climático. Cada praga impedida de se estabelecer representa menos aplicações futuras de defensivos, menor pressão de seleção por resistência, proteção da biodiversidade, preservação dos mercados e menor risco econômico para os produtores.
Brasil e Nova Zelândia mostram que não existe um único caminho para a resiliência. Um país oferece tecnologias avançadas aplicadas dentro dos pomares. O outro oferece um modelo bem-sucedido de governança territorial e mobilização social. Juntos, eles demonstram que os sistemas fitossanitários mais fortes são construídos quando ciência, tecnologia, política pública e cooperação atuam na mesma escala da ameaça biológica.

