EL NIÑO AUMENTA RISCO DE PERDAS NO CAMPO E ACENDE ALERTA PARA CRÉDITO E INVESTIMENTOS
08-09-2026

Quebras de safra afetam renda e capacidade de pagamento e podem ampliar riscos para produtores, instituições financeiras e investidores ligados ao agronegócio

Mais de R$300 bilhões em prejuízos foram provocados por eventos climáticos extremos na economia brasileira nos últimos dez anos, segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). A agricultura concentrou cerca de 90% desse impacto. Em 2026, a atuação do El Niño adiciona uma nova variável de risco para um setor em que produção, crédito e capacidade de investimento dependem diretamente das condições climáticas.

O fenômeno deve permanecer pelo menos até o início de 2027, segundo informações do Painel El Niño, elaborado por órgãos como Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Os modelos apontam possibilidade de intensificação do fenômeno entre a primavera e o verão de 2026.

Os efeitos não são iguais em todo o país. Para setembro, o INMET prevê chuvas acima da média histórica em grande parte das regiões Sul e Sudeste e em áreas do Centro-Oeste, enquanto setores do Norte e Nordeste devem registrar volumes abaixo do normal. As temperaturas, por sua vez, tendem a ficar acima da média em grande parte do país, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Para o produtor, o problema vai além da redução da quantidade colhida. Uma quebra de safra pode diminuir a receita disponível para pagar financiamentos, fornecedores e despesas da propriedade, além de limitar os recursos para o ciclo seguinte. “O impacto não termina na porteira. Uma quebra de safra reduz a geração de caixa do produtor e pode comprometer o pagamento de financiamentos e fornecedores”, afirma Pedro Basso, CEO da WFlow Agro.

Da lavoura para o crédito

Uma lavoura de soja que produza 40 sacas por hectare, quando a expectativa era colher 60, não representa apenas uma redução de um terço na produtividade. Dependendo dos custos e das obrigações assumidas pelo produtor, a diferença pode levar à renegociação de dívidas ou ao adiamento de investimentos previstos para a próxima safra.

Quando perdas semelhantes atingem diversos produtores de uma mesma região, o efeito alcança também cooperativas, revendas, tradings, fornecedores e instituições financeiras. A deterioração da capacidade de pagamento aumenta o risco associado ao crédito e pode tornar a concessão de novos recursos mais restritiva.

Dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram a dimensão desse problema. A inadimplência do crédito rural contratado a taxas de mercado chegou a 10% em setembro de 2025, ante 3,37% um ano antes. Segundo a entidade, a sequência de problemas climáticos e a baixa cobertura do seguro rural contribuíram para a deterioração financeira dos produtores.

O impacto pode chegar ainda aos preços. Se uma adversidade climática comprometer a produção de uma região relevante para determinada cultura, a redução da oferta tende a aumentar a volatilidade daquela commodity. “O risco climático, portanto, rapidamente pode se transformar em risco financeiro”, alerta Basso.

Seguro pode reduzir impacto da perda sobre o caixa

É nesse ponto que o seguro rural pode deixar de ser apenas uma proteção da lavoura e passar a ter efeito sobre a estrutura financeira da atividade. Em uma safra afetada pelo clima, uma indenização, conforme as condições e coberturas contratadas, pode fornecer recursos para que o produtor absorva parte da perda, cumpra compromissos e prepare o plantio seguinte.

Sem cobertura suficiente, o prejuízo precisa ser absorvido pelo caixa ou pelo patrimônio. Dependendo da dimensão da quebra, cresce a necessidade de renegociar dívidas e buscar novos recursos justamente em um momento de maior fragilidade financeira.

Apesar desse papel, a proteção diminuiu nos últimos anos. Dados apresentados pela CNseg em abril mostram que a área plantada segurada caiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para 3,2 milhões em 2025, redução de 76,6%. No mesmo período, a área plantada no país passou de 83,9 milhões para 97,8 milhões de hectares. 

Risco climático também entra na carteira do investidor

A exposição às variações do clima não se limita a quem planta. Investidores com recursos aplicados em empresas, fundos ou instrumentos de crédito ligados ao agronegócio também precisam avaliar quanto do risco está concentrado em determinadas regiões, culturas ou grupos de produtores.

“Exposição ao agronegócio não significa necessariamente a mesma exposição ao risco climático”, explica Basso.

Um fundo de crédito com operações concentradas em produtores de uma única região, por exemplo, tende a ficar mais vulnerável se uma seca ou excesso de chuva atingir aquela área. Uma carteira distribuída entre diferentes regiões e atividades reduz a dependência de um único evento.

Por isso, segundo o especialista, mais importante do que simplesmente reduzir a exposição ao agronegócio é compreender onde o risco está concentrado e avaliar a capacidade financeira dos produtores e empresas envolvidos, o nível de endividamento, as garantias, a existência de seguros e a diversificação geográfica e produtiva.

“Mais importante do que simplesmente reduzir a exposição ao agro é entender onde o risco climático está concentrado e diversificá-lo adequadamente”, afirma.

A mudança, porém, ainda ocorre de forma gradual. Durante anos, decisões financeiras no campo foram construídas principalmente a partir de produtividade esperada, custos de produção e preços. A maior instabilidade climática acrescenta outra variável à conta: a capacidade de continuar pagando dívidas e financiando a produção quando a colheita fica abaixo do planejado.

Seguro, diversificação, estrutura de capital e planejamento para diferentes cenários passam, assim, a fazer parte da mesma equação. Para produtores, credores e investidores, a questão deixa de ser apenas quanto uma safra pode render em condições favoráveis e passa a incluir quanto a operação consegue suportar quando o clima não corresponde às expectativas.