El Niño exige atenção ao planejamento financeiro para a safra 2026/27
16-09-2026

Construção de cenários, organização do fluxo de caixa e revisão de vencimentos podem ajudar produtores a se preparar para possíveis impactos do fenômeno

Com o El Niño em curso e perspectivas de intensificação nos próximos meses, produtores rurais precisam incluir o clima nas decisões financeiras para a safra 2026/27. Mudanças na produtividade, aumento de custos ou alterações no calendário da produção podem afetar a entrada de receita e o pagamento de compromissos ao longo do ciclo.

No início de setembro, o Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e outros órgãos federais, apontou mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre entre setembro e novembro. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) também informou que o fenômeno está estabelecido e deve ganhar intensidade nos próximos meses, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027.

Também neste mês, a Embrapa apresentou 163 medidas para gestão de riscos climáticos na agropecuária e, em outra publicação, divulgou orientações sobre o uso do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e de práticas conservacionistas diante de um El Niño forte.

Para Victor Lemos Cardoso, head comercial da Agree, fintech especializada em soluções financeiras para o agronegócio, o cenário climático precisa entrar nas projeções antes que possíveis efeitos sejam sentidos no caixa da propriedade. “Não é possível saber exatamente qual será o impacto do clima em cada propriedade, mas podemos trabalhar com cenários. O produtor pode projetar o que acontece com o caixa se colher menos, tiver algum aumento de custo ou precisar esperar mais para comercializar. Isso ajuda a enxergar com antecedência onde podem aparecer dificuldades”, explica Cardoso.

Uma forma de se preparar é simular diferentes resultados para a safra. O produtor pode avaliar, por exemplo, o que acontece com o caixa se a produtividade ficar abaixo do esperado ou se os custos aumentarem. A partir disso, consegue estimar se haverá recursos suficientes para manter a operação e cumprir os compromissos assumidos.

Os vencimentos das dívidas também precisam entrar nessa conta. Mudanças no calendário de produção ou comercialização podem fazer com que determinadas parcelas coincidam com uma entrada menor ou mais tardia de receita. Ter esse calendário organizado ajuda a identificar com antecedência os meses em que o caixa pode ficar mais apertado.

“Se uma parcela vence em um período em que a receita pode atrasar ou ser menor do que o previsto, é importante enxergar isso antes. Quanto mais cedo o produtor identifica essa possibilidade, mais tempo tem para avaliar o caixa e organizar suas decisões”, acrescenta Cardoso.

O seguro rural também pode fazer parte dessa preparação, de acordo com a atividade e as coberturas disponíveis. Outro ponto é avaliar quanto recurso será necessário para manter a produção até a entrada da receita, inclusive diante de despesas que não estavam previstas inicialmente.

Segundo Cardoso, trabalhar com mais de um cenário não significa partir do princípio de que haverá perdas. “O planejamento serve justamente para não depender de um único resultado. Quando o produtor conhece seus custos, sabe quando as dívidas vencem e quanto precisa para atravessar o ciclo, fica em uma posição melhor para decidir se as condições mudarem ao longo da safra”, finaliza.