El Niño muito forte projeta verão de extremos no Brasil
05-11-2026

Já classificado como muito forte, o El Niño deve manter elevada intensidade durante o verão brasileiro, e seus efeitos sobre o clima podem persistir mesmo depois que o aquecimento do Pacífico começar a perder força

O Brasil se prepara para um verão sob influência de um El Niño muito forte, com impactos que devem avançar por 2027. A quinta edição do Painel El Niño 2026–2027, divulgada no fim de outubro pelo INMET e mais seis órgãos federais, destaca a previsão de intensidade muito forte para o fenômeno entre novembro e janeiro, com possibilidade de ser o mais intenso desde 1950. Embora o aquecimento do Pacífico deva enfraquecer gradualmente nos meses seguintes, seus efeitos sobre a circulação atmosférica poderão persistir, alterando os padrões de chuva e temperatura no país.

Os sinais de agravamento já aparecem nos dados de seca. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o número de municípios brasileiros classificados em seca extrema saltou de 4 para 68 entre agosto e outubro, com dados ainda parciais de outubro, enquanto aqueles em seca severa passaram de 153 para 232. O avanço se concentra principalmente no Nordeste, mas também atinge Roraima e o Amazonas.

Na outra ponta, o excesso de chuva deverá exigir atenção no Sul e no Sudeste, onde as projeções indicam vazões acima da média e maior risco de cheias. No Sudeste, a preocupação aumenta em janeiro, sobretudo nas bacias do Rio Doce (MG e ES) e do Rio Paraíba do Sul (SP, MG e RJ). No Sul, os níveis já estão elevados na bacia do Rio Uruguai: segundo o monitoramento do Serviço Geológico do Brasil reunido no Painel, trechos do rio no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina chegaram a estar nas cotas de atenção nos últimos dias. O cenário exige monitoramento dos níveis dos rios ao longo do verão.

Os efeitos do El Niño também deverão alcançar a produção agrícola e a disponibilidade de água nos próximos meses. O boletim prevê restrição hídrica para as lavouras em Roraima, no Amapá, no Baixo Amazonas e em áreas do Pará, e baixa disponibilidade de água no semiárido e no leste do Nordeste. No Sul, o excesso de chuva poderá dificultar a colheita do trigo e reduzir a qualidade dos grãos.

Na Amazônia, além do risco de incêndios, mais crítico em Roraima de dezembro a abril, a seca ameaça quem depende dos rios. Com as bacias do Rio Negro e do Rio Branco sob maior atenção, a descida das águas pode deixar comunidades ribeirinhas e indígenas sem acesso a abastecimento e a serviços como saúde. O Painel identifica 1.219 localidades sob restrição hidrológica, com população estimada em 2,2 milhões de pessoas, e 70 polos-base de saúde indígena em seca severa.

Pacífico registra a maior anomalia de temperatura para outubro, e o aquecimento perto da América do Sul bate recorde: segundo o INMET, a temperatura média do mês na região do Niño 3.4 ficou 2,47°C acima do normal, a maior já registrada para outubro. Na área do Niño 3, mais próxima do continente, a anomalia semanal chegou a +3,7°C, novo recorde. A leitura da NOAA de 2 de novembro, de +2,5°C, é a oitava seguida na faixa muito forte.

Rio Branco fica a 12 cm da menor marca para a data em Boa Vista, com previsão de pouca chuva em Roraima: o rio desceu 21 cm na semana e chegou a 36 cm em 3 de novembro. O INMET prevê chuva abaixo da média no estado em novembro, e no último El Niño forte o Rio Branco atingiu em Boa Vista a menor cota de sua série histórica, em fevereiro de 2016. Em Manaus, a descida do Rio Negro desacelerou para 8 cm na semana, ante 52 cm na anterior, sinal de que a vazante pode estar perto do fim.

Reservatórios das hidrelétricas voltam a subir e a conta de luz segue sem taxa extra; no Nordeste, os de abastecimento do Ceará têm a maior queda: o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o maior de geração de eletricidade do país, chegou a 55,2% em 2 de novembro, depois de quatro quedas seguidas, e a Aneel manteve a bandeira verde em novembro. No Nordeste, os reservatórios de abastecimento caíram para 44,5%. No Ceará, que concentra mais da metade da capacidade da região, o nível baixou 0,6 ponto percentual, para 42,9%, e o INMET prevê déficit de água no solo acima de 150 mm no centro do estado em dezembro.

Outubro fecha com 13,2% mais focos de calor que em 2025, e a Amazônia já concentra 6 em cada 10 focos do país: o Brasil registrou 32.454 focos no mês, e a Amazônia somou 18.907, 2,4 vezes o total de outubro do ano passado. Nos 30 dias até 2 de novembro, o bioma respondeu por 59,6% dos focos do país, ante 29,7% no mesmo período de 2025. Dois terços dos focos da Amazônia estão no Pará, e o INMET aponta o Pará entre os estados com previsão de chuva abaixo da média em novembro.

Temporais tiram 1.479 pessoas de casa em 30 dias, 3,7 vezes mais que em 2025, e o ano já passa de 600 mil desalojados ou desabrigados: de 4 de outubro a 2 de novembro, chuvas, vendavais e granizo atingiram 44 municípios de 11 estados, sobretudo no Paraná, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro, e deixaram dois mortos. No ano, 600.923 pessoas tiveram de deixar suas casas por eventos extremos, 75% a mais que em 2025, mesmo com o total de afetados 7,9% menor. O Painel El Niño prevê chuva acima do normal no Sul até janeiro.