Estratégias do agro para reduzir dependência do adubo importado
02-07-2026
Fernando Carvalho Oliveira*
Conforme têm mostrado de maneira recorrente a imprensa nacional e os veículos especializados em agronegócio, as guerras entre Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio escancararam uma vulnerabilidade estratégica do Brasil: nossa enorme dependência dos fertilizantes minerais importados. O impacto dos conflitos sobre preços, logística e oferta global de insumos agrícolas elevou custos, aumentou a insegurança no campo e colocou no centro do debate um tema que antes parecia restrito aos especialistas em fertilização do solo. O País importa cerca de 85% dos fertilizantes minerais para atender à demanda do agro. E isso tornou-se um problema de soberania produtiva. Não à toa, O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), coordenado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e essa dependência de 85% para 45% até 2050, reconhecendo que o caminho passa pelo estímulo à produção nacional, ao uso de bioinsumos e ao aproveitamento de resíduos orgânicos.
Num país cuja competitividade agrícola sustenta boa parte da economia, depender tão fortemente de insumos vindos de fora significa aceitar um grau perigoso de vulnerabilidade diante de crises internacionais, oscilações cambiais e tensões geopolíticas. O produtor rural percebeu isso rapidamente. E é justamente nesse contexto que cresce a busca por soluções capazes de reduzir a dependência dos adubos minerais convencionais importados, especialmente do NPK (nitrogênio, fósforo e potássio).
O mais interessante é que a consciência sobre a necessidade de avanços não implica a expectativa de substituir completamente os fertilizantes minerais de uma hora para outra, nem de transformar o campo num laboratório de experiências. O que está em pauta é algo muito mais pragmático e inteligente: a construção de sistemas produtivos mais eficientes, resilientes e equilibrados, combinando fertilizantes minerais, bioinsumos, remineralizadores, resíduos orgânicos, compostagem, rotação de culturas e manejo biológico dentro de um contexto de agricultura regenerativa.
A abordagem referente à fertilidade do solo deixou de ser exclusivamente sob o aspecto químico. A lógica agora é ampliar a eficiência agronômica do sistema como um todo. Em muitas propriedades, produtores já conseguem reduzir parcialmente as doses de nitrogênio, fósforo e potássio graças ao uso integrado de matéria orgânica, inoculantes biológicos, manejo de palhada e melhoria da atividade microbiológica do solo. O foco deixou de ser apenas “alimentar a planta” e passou a incluir algo muito mais sofisticado: fazer o solo funcionar melhor.
Essa talvez seja a mudança mais relevante em curso no agro brasileiro. Durante décadas, o solo foi tratado quase como um mero suporte físico da produção. Agora, ganha força a compreensão de que ele é um organismo vivo, complexo e estratégico. Microrganismos, fungos, bactérias benéficas, ciclagem de nutrientes, agregação e estrutura, capacidade de retenção de água, fixação biológica de nitrogênio e solubilização de fósforo passaram a integrar o vocabulário cotidiano do produtor. E isso abre espaço enorme para soluções baseadas em compostagem, condicionadores de solo e fertilizantes orgânicos compostos.
A matéria orgânica, antes vista muitas vezes como tema periférico, tornou-se parte central da estratégia de fertilidade. Afinal, solos biologicamente ativos aumentam a eficiência dos próprios fertilizantes minerais, reduzem perdas, melhoram a estrutura física, ampliam a capacidade de troca catiônica, elevam a retenção hídrica e conferem maior estabilidade produtiva ao sistema agrícola.
Além disso, resíduos agrícolas e agroindustriais passaram a ser vistos sob uma nova ótica. O que antes era considerado problema logístico ou passivo ambiental ganha valor como insumo estratégico. Esterco, cama de frango, vinhaça, torta de filtro, lodo de esgotos, resíduos orgânicos urbanos, industriais e agroindustriais ingressam numa nova cadeia de aproveitamento econômico e agronômico. A compostagem em larga escala transforma esses materiais em fertilizantes orgânicos e condicionadores padronizados, seguros e tecnicamente confiáveis. Esse segmento tem crescido de forma expressiva no Brasil, encontrando na ABISOLO - Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal, uma entidade setorial que reúne e representa empresas comprometidas com a inovação, a padronização e a credibilidade técnica desses produtos.
Não por acaso, cadeias de valor como a da cana-de-açúcar e da madeira/celulose despontam como referências importantes nesse movimento. O uso de resíduos da própria produção, associado a bioinsumos e manejo biológico, vem permitindo ganhos de eficiência, redução de operações e menor dependência de adubação convencional. O mesmo potencial existe em áreas como as de aves, suínos, café, frutas e grãos.
Entretanto, talvez o aspecto mais maduro dessa transformação seja a consciência crescente de que não existem soluções milagrosas. O produtor rural brasileiro continua sendo pragmático. Ele quer independência, mas não aceita risco desnecessário. Testa em pequenas áreas, compara custos, mede produtividade, avalia estabilidade e toma decisões baseadas em resultados. Por isso, o futuro desse mercado pertence a quem entregar evidência técnica, regularidade, rastreabilidade, laudos, monitoramento agronômico e comprovação de desempenho em campo.
Não se trata de contrapor o orgânico contra o mineral, mas sim de vender um sistema que melhore o solo e aumente a eficiência da fertilização, contribuindo para reduzir a dependência. O diferencial competitivo deixa de ser apenas vender um produto e passa a ser oferecer uma solução agronômica completa. Diagnóstico, recomendação técnica, acompanhamento, formulação adequada e demonstração prática de retorno econômico tornam-se tão importantes quanto o insumo em si.
O que está em curso no Brasil é uma mudança de mentalidade. O País começa a compreender que fertilidade do solo, biologia e reciclagem de nutrientes não são temas acessórios da importante agenda ambiental e da sustentabilidade. A rigor, são questões estratégicas para a competitividade do agro, para a segurança produtiva e para a soberania nacional.
Nesse contexto, cresce de modo expressivo o espaço para a compostagem, pois ela transforma resíduos locais em insumos estratégicos, com valor agronômico e ecológico. Trata-se de um processo relevante para reduzir a dependência externa, aumentar a eficiência do uso dos nutrientes e construir um modelo de produção mais resiliente. No presente cenário geopolítico mundial, é decisivo integrar tecnologias capazes de proporcionar mais autonomia, menor risco e melhor desempenho econômico ao produtor rural brasileiro.
* Fernando Carvalho Oliveira é doutor em Agronomia, com ênfase em Solos e Nutrição de Plantas, pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). Especialista no tratamento de resíduos orgânicos e economia circular, é membro do Conselho Deliberativo da ABISOLO - Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal e atua como responsável técnico pelos fertilizantes orgânicos compostos da Tera Nutrição Vegetal.

