Etanol lidera nova fase de crescimento do setor energético brasileiro
24-04-2026
Inserção do milho no setor reduziu a sazonalidade produtiva, tradicionalmente associada à entressafra da cana e melhorou a utilização dos ativos industriais.
A produção brasileira de etanol vem se tornando o principal vetor de crescimento e inovação do setor energético brasileiro. Entre os principais motores dessa expansão destacam-se a produção de etanol de milho e o aumento, por parte do governo, do financiamento direcionado à transição energética.
De acordo com Mauro Matoso, chefe do Departamento de Biocombustíveis do BNDES, os desembolsos do banco em projetos de transição energética alcançaram R$ 5,1 bilhões em 2025. Metade deste volume foi destinado ao etanol, especialmente a projetos vinculados ao processamento de milho.
Do ponto de vista econômico, o uso de instrumentos financeiros com custos mais competitivos, como o Fundo Clima, tem reduzido barreiras à implantação de novas unidades produtivas e ampliado o horizonte de planejamento do setor.
Já do prisma técnico, a sinergia entre cana e milho está associada às características agronômicas e industriais distintas de cada matéria-prima.
Isso porque a cana-de-açúcar apresenta elevada produtividade por hectare e menor intensidade de carbono, consolidando-se como base histórica da produção nacional. Já o milho oferece a vantagem da produção contínua ao longo do ano, permitindo que usinas mantenham operações fora do período tradicional de moagem da cana.
Essa convergência operacional tem favorecido o crescimento das chamadas usinas flex, capazes de alternar matérias-primas conforme disponibilidade e condições de mercado.
O resultado direto é a redução da sazonalidade produtiva, tradicionalmente associada à entressafra da cana, além de melhor utilização dos ativos industriais.
Na prática, esse modelo contribui para maior estabilidade nos preços e menor risco de desabastecimento, fatores relevantes tanto para o mercado interno quanto para a credibilidade internacional do Brasil como fornecedor de biocombustíveis.
A viabilidade econômica do etanol de milho também tem sido sustentada pela geração de coprodutos com alto valor agregado. O destaque é o DDG (farelo proteico utilizado na nutrição animal), que tem desempenhado papel crescente na intensificação da pecuária.
Ao fornecer insumos nutricionais de forma competitiva, o DDG contribui para elevar a eficiência produtiva do setor pecuário e liberar áreas agrícolas para outras culturas, fortalecendo a integração entre energia e produção de alimentos.
Esse modelo reforça a lógica de economia circular dentro do agronegócio, ampliando a rentabilidade das cadeias produtivas.
Participação do etanol da cadeia de milho
O avanço do etanol de milho vem provocando transformações relevantes na dinâmica de demanda pelo grão. Em menos de uma década, a participação do etanol no consumo nacional de milho saltou de aproximadamente 2% para mais de 25%, movimento que contribuiu para maior valorização do grão no mercado interno e estimulou investimentos logísticos e industriais em regiões produtoras, especialmente no Centro-Oeste.
Esse crescimento mostra que o etanol de milho deixou de ser uma alternativa marginal para se tornar um componente estruturante do mercado agrícola brasileiro.
Atualmente, o Brasil conta com cerca de 30 usinas dedicadas ao etanol de milho, incluindo as unidades com tecnologia flex. A capacidade instalada total gira em 13,4 bilhões de litros anuais.
Entretanto, considerando os projetos em construção e em fase de planejamento, a capacidade produtiva pode praticamente dobrar nos próximos anos, indicando que o setor ainda se encontra em fase de expansão e consolidação.
Esse movimento tende a ampliar significativamente a participação do milho na produção total de etanol. Hoje próxima de 30%, essa participação pode atingir cerca de 50% no médio prazo, alterando de forma definitiva a configuração produtiva do setor.
Como consequência, espera-se uma redução progressiva da volatilidade de preços e maior previsibilidade no abastecimento, especialmente durante períodos críticos da entressafra.
Aumento da demanda
Apesar das perspectivas positivas, especialistas apontam que o ritmo de expansão produtiva exigirá crescimento proporcional da demanda para evitar desequilíbrios de mercado.
Entre os desafios identificados estão a pressão sobre custos, especialmente relacionados à biomassa utilizada como fonte energética, e a necessidade de ampliar mercados para absorver coprodutos como o DDG, inclusive por meio de exportações.
Nesse contexto, novas aplicações energéticas aparecem como alternativas promissoras para ampliar o consumo de biocombustíveis.
Entre elas, destacam-se o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e o uso de etanol no transporte marítimo, segmentos que apresentam elevado potencial de crescimento e forte demanda por soluções de baixa emissão de carbono.
Especialistas destacam que eficiência energética, diversificação de produtos e inovação contínua são pilares fundamentais para aumentar a competitividade do etanol brasileiro e reduzir a exposição a oscilações de preços e mudanças regulatórias.
Fonte: CNN

