Fabricantes de máquinas agrícolas apresentam motores a etanol na Agrishow
29-04-2026

Motor a etanol da AGCO, grupo que reúne as marcas Valtra, Massey Ferguson e Fendt — Foto: Eliane Silva/Globo Rural
Motor a etanol da AGCO, grupo que reúne as marcas Valtra, Massey Ferguson e Fendt — Foto: Eliane Silva/Globo Rural

Aposta nos biocombustíveis para veículos pesados vem crescendo à medida que os custos de produção e a demanda por operações mais sustentáveis aumentam

Por Eliane Silva — Ribeirão Preto (SP)

Em meio a uma guerra no Oriente Médio que elevou o preço dos combustíveis fósseis e aumentou ainda mais a pressão sobre a rentabilidade do produtor rural brasileiro, as grandes indústrias de máquinas agrícolas trouxeram para a Agrishow, maior feira agrícola de tecnologia da América Latina, em Ribeirão Preto (SP), uma alternativa comum de descarbonização: os motores a etanol. A escolha do combustível se deve à vocação natural do país e aos aumentos de produção a partir do milho.

A tecnologia para mover os tratores e outras máquinas agrícolas com o etanol, no entanto, ainda está em testes, fase que antecede a validação. A Valtra é a única que faz uma estimativa de lançamento comercial do motor.

“As máquinas já completaram mais de 10 mil horas de testes em fazendas de cana de parceiros. Estamos agora na fase de pequenos ajustes, como a curva de potência, mas estamos maduros para entrar firme no mercado em 2029”, diz Cláudio Esteves, diretor de vendas da empresa do grupo AGCO, junto com a Massey Ferguson e a Fendt.

A Massey também testa um trator movido a etanol, de 200 a 300 cavalos de potência, e apresenta na Agrishow o motor AGCO Power, projeto integralmente desenvolvido pela engenharia da marca no Brasil.

Já a Fendt aposta no motor elétrico, que já está sendo comercializado na Europa e Estados Unidos. Mas também está testando outras opções de combustível. Marcelo Traldi, vice-presidente da Fendt e Valtra na América do Sul, diz que o motor elétrico pode vir para as máquinas da marca no Brasil, mas isso ainda não está decidido.

“Já temos a solução elétrica pronta, mas sabemos da dificuldade de recarga. Estamos trabalhando para trazer a melhor solução e superar as dificuldades, visando redução de consumo de combustível e utilização correta de todos os insumos.”

Torsten Dehner, vice-presidente global da Fendt, diz que o trator elétrico desenvolvido na Alemanha promete uma economia de até 20% em combustível nas operações no campo. A marca premium da AGCO trabalha o desenvolvimento de um trator híbrido.

Na Case, do grupo CNH, o projeto etanol foi iniciado em 2024 com um motor conceito. Na feira de Ribeirão, a empresa mostra o motor Cursor 13, desenvolvido no Brasil em parceria com a FPT Industrial.

Paulo Arabian, vice-presidente de vendas para o segmento agrícola da CNH para América Latina, diz que uma colheitadeira de duas linhas da Case trabalhou a safra inteira no ano passado, sem interrupções e com resultados satisfatórios. Um trator também rodou com etanol por 800 horas. Nesta safra, os testes continuam, desta vez com uma colheitadeira de uma linha.

“Se com duas linhas, o resultado foi bom, com a máquina de uma linha esperamos que seja ainda melhor. Na questão da potência já chegamos ao que era esperado. No consumo, estamos chegando lá.”

Segundo ele, a CNH trabalha com um portfólio concreto de soluções em combustíveis alternativos, que inclui máquinas movidas a biometano, etanol e eletricidade, em diferentes estágios de maturidade e adoção.

“O ponto central é que não existe uma solução única. A transição energética no agro será híbrida e complementar: eletrificação, biometano, etanol e biodiesel atendem a diferentes perfis de operação, regiões e realidades produtivas.”

A Case Construction também desenvolve uma pá-carregadeira movida a etanol, na expectativa de reduzir custos das usinas sucroenergéticas. A máquina foi testada na indústria e agora vai para fazendas de clientes.

A Jacto, empresa líder em equipamentos de pulverização, também investe em um motor a etanol para aplicação em solo brasileiro, segundo o CEO, Carlos Haushahn. O equipamento está sendo testado, sem perspectiva de lançamento.

“O etanol do milho vai mudar a pressão sobre o uso desse combustível. A grande questão a ser respondida ainda é o poder calorífico do motor porque a máquina exige um torque maior.”

As indústrias não revelam números de consumo ou potência já alcançados nos testes.

Biometano

Além do etanol, a Valtra aposta no biometano, combustível produzido com o passivo ambiental das propriedades, como os dejetos da suinocultura, criando um modelo de economia circular. Nesse caso, os testes já somaram 20 mil horas e o lançamento está previsto para 2028. Segundo Esteves, atualmente as máquinas das marcas do grupo AGCO equipadas com a transmissão CVT entregam uma economia de 15% de diesel.

Quem já tem um trator movido a biometano em operação no Brasil é a New Holland. Eduardo Kerbauy, vice-presidente de marketing da CNH para a América Latina, diz que a empresa é lider global de combustíveis alternativos.

“Assumimos o compromisso em 2017 de explorar no Brasil o trator movido a biometano. As vendas vão se consolidando. Temos a ferramenta pronta para uso em várias culturas, como café e suinocultura, mas é na cana que a tecnologia tem sido mais adotada”, diz o diretor, que não revela o total de unidades vendidas desde o lançamento. Só diz que está na casa de dezenas.

Segundo a New Holland, o trator a biometano oferece a mesma potência do diesel, com uma economia de até 40%.

Fonte: Globo Rural