Fim da queima de cana alterou fluxo de empregos e renda em SP
18-05-2026

Estudo mostra que transição tecnológica provocou forte redução do emprego agrícola, mas não resultou em deterioração das condições econômicas

Por Nayara Figueiredo — São Paulo

O Estado de São Paulo, um dos maiores polos produtores de cana-de-açúcar do país, proibiu, a partir de 2002, a queima que era realizada como prática para facilitar a colheita manual nas lavouras. Diversas mudanças ocorreram em função disso, como o avanço da mecanização e alterações no fluxo de empregos e renda.

Nesta semana, especialistas da Rede de Pesquisa em Produtividade & Sustentabilidade (Rede PP&S), que combina diversas instituições, divulgaram um estudo elencando quais foram as principais consequências da medida que surgiu com uma motivação ambiental, mas teve reflexos importantes do ponto de vista econômico.

A análise é assinada por Francisco Costa, que também é professor na Fundação Getulio Vargas (FGV), Francisco Luis Lima Filho, economista sênior do Banco ABC Brasil, e Leticia Nunes, professora assistente no Insper.

Mercado de trabalho

Antes da regulamentação, a colheita da cana dependia da queima da palha e do corte manual realizado por trabalhadores sazonais. Com a proibição, esse modelo tornou-se inviável, levando à rápida adoção da colheita mecanizada. Em poucos anos, a mecanização saiu de níveis baixos para mais de 60% da área colhida até 2012.

De acordo com o estudo, a transição tecnológica provocou uma forte redução do emprego agrícola, mas, ao contrário do que se poderia esperar, não resultou em deterioração das condições econômicas.

"Os dados mostram que os trabalhadores deslocados foram majoritariamente absorvidos pela indústria de processamento de açúcar e etanol, que cresceu em paralelo à mecanização", diz o economista Francisco Costa.

Entre 2000 e 2010, a mecanização foi responsável por cerca de 77% da queda do emprego agrícola e por aproximadamente 74% do aumento do emprego industrial nos municípios produtores de cana-de-açúcar.

Esse movimento resultou em uma transição produtiva marcada pelo fortalecimento da agroindústria e pela integração entre a produção agrícola e o processamento industrial. "Para as mulheres, a realocação foi mais direcionada para o setor de serviços", acrescenta Costa.

Econômico

Na avaliação dos especialistas, os impactos econômicos e sociais foram expressivos. Nos municípios com maior avanço da mecanização, a renda familiar per capita aumentou em quase 6%, o desemprego caiu cerca de 24%, e a pobreza foi reduzida em aproximadamente 13%.

Além disso, também houve redução do trabalho infantil, com queda de quase 10% na participação de crianças de 10 a 15 anos no mercado de trabalho.

Costa ressalta que outro fator relevante para a economia local tem relação com a perenidade da cana-de-açúcar. "Como você não pode transportar a cana para muito longe, porque é muito perecível, ela precisa ser processada na indústria local", afirma, o que ajudou a impulsionar a industrialização na região.

"Os resultados desafiam a visão tradicional de que políticas ambientais representam um entrave ao crescimento. Ao induzir a adoção de tecnologias mais eficientes, a proibição de queimadas funcionou como um catalisador da modernização econômica, com efeitos positivos sobre renda e emprego", diz o economista.

A pesquisa utilizou dados de satélite sobre a adoção da colheita mecanizada, combinados a microdados do censo, para analisar os efeitos em 393 municípios paulistas entre 2000 e 2010. Para identificar a relação causal entre a política e os resultados econômicos, os pesquisadores exploraram variações exógenas na inclinação do terreno, fator que influencia o custo e a viabilidade da mecanização.

Riscos

Na visão de José Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), ao longo do tempo, ficou muito claro para os agricultores que o fim da queima foi muito melhor para o setor.

"Você consegue fazer uma colheita muito mais rápida do que se fosse manual, mais ágil, sem risco para as pessoas, tem redução de custo porque há um aumento de volume de biomassa e melhoria agronômica", explica.

Nogueira pontuou ainda que houve melhora na qualidade do ar e redução de fuligem. Com o fim da queima da palha de cana-de açúcar, o setor sucroenergético já deixou de emitir mais de nove milhões de toneladas de CO2, além de 55 milhões de toneladas de outros poluentes atmosféricos, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica).

Fonte: Globo Rural