Geopolítica deve pautar eleição e estratégia do agro em 2026
03-03-2026
Palestra em Piracicaba – SP antecipou risco que explodiu no Oriente Médio
Por Andréia Vital
A política externa deve se tornar tema central da eleição brasileira e influenciar diretamente decisões econômicas e estratégicas no agronegócio. A avaliação foi apresentada na palestra “Cenários Globais 2026 como a geopolítica explica o mundo”, apresentada por Heni Ozi Cukier, conhecido como Professor HOC, cientista político e ex-deputado estadual de São Paulo, durante a Expedição Custos Cana, realizada pelo Pecege Consultoria e Projetos, na quinta feira (26), em Piracicaba - SP.
Segundo o palestrante, pela primeira vez a posição do Brasil no tabuleiro internacional tende a ocupar espaço relevante no debate eleitoral. “Pela primeira vez na história do Brasil, política externa vai ser um tema central da eleição”. Na leitura dele, comércio internacional, relação com China, Estados Unidos e União Europeia e o grau de neutralidade do país deixarão de ser assunto restrito à diplomacia e passarão a afetar expectativas de investimento, câmbio e crescimento. “Política externa impacta tanto a economia quanto as decisões internas”.
Dentro desse cenário, ele defendeu a manutenção de neutralidade estratégica enquanto houver margem para isso. “A estratégia do Brasil, nesse ambiente geopolítico, deve ser ficar neutro até o último minuto”. Para o professor, o mundo vive uma transição estrutural marcada por disputa entre potências, revisão de alianças e reconfiguração das cadeias globais de valor, em que a lógica puramente econômica perde espaço para critérios ligados a segurança e risco político.
O professor detalhou que, após a pandemia e a guerra na Ucrânia, governos e empresas passaram a rever a dependência excessiva de fornecedores concentrados em poucos países. Citou movimentos como o desacoplamento parcial da China, a estratégia conhecida como China mais um, em que companhias mantêm operações no mercado chinês, mas instalam parte da produção em outro país, além da priorização de parceiros considerados aliados e da regionalização industrial. Segundo ele, o menor custo deixou de ser o único critério. Segurança de fornecimento e exposição geopolítica passaram a integrar as decisões de investimento e comércio.
Ao tratar da posição brasileira, destacou a combinação entre escala territorial, capacidade de produzir alimentos e energia e distância geográfica dos principais focos de conflito. “Não existe lugar mais isolado do que a América do Sul. Em um cenário global tão instável, isso é uma vantagem estratégica.” Ressaltou, porém, que o isolamento geográfico não significa imunidade econômica, já que a presença chinesa na região cresceu de forma consistente nas últimas décadas.
A análise incluiu ainda o ambiente nos Estados Unidos, com críticas à condução de tarifas amplas e à exposição de vulnerabilidades financeiras, além do avanço chinês na redução da dependência de títulos americanos e na internacionalização de sua moeda. Para ele, decisões econômicas são, no fundo, decisões políticas. “Uma decisão econômica nunca é apenas econômica. No fim, ela também é política”.
A parte mais sensível para o público do evento surgiu no debate sobre fertilizantes e energia. Foi destacado o risco associado ao Estreito de Ormuz, rota por onde passam mais de 20% do petróleo global e parcela relevante dos fertilizantes nitrogenados. Questionado se a tensão poderia ser apenas retórica, ele respondeu de forma direta. “Blefe não é.” E acrescentou que, se houver fechamento do estreito, o impacto sobre petróleo e insumos pode ser expressivo. “Se o estreito for fechado, os preços podem subir de forma significativa”.
A palestra foi realizada um dia antes da escalada no Oriente Médio. Ao longo do fim de semana, ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã ampliaram o prêmio de risco nos mercados internacionais, afetaram o espaço aéreo regional, provocaram milhares de cancelamentos e atrasos de voos e reduziram de forma relevante o fluxo de navios em Ormuz. O petróleo reagiu com alta expressiva diante do risco de interrupção de oferta.
O encadeamento dos fatos reforçou o alerta apresentado em Piracicaba. O risco geopolítico, tratado na palestra como variável estrutural para decisões estratégicas, rapidamente deixou o campo das hipóteses e passou a influenciar diretamente preços, cadeias de suprimento e planejamento de compras no agronegócio.
Confira:

