Geopolítica reforça importância do etanol, diz DATAGRO
12-03-2026

Evento em Ribeirão Preto - SP debate safra, comércio global e energia

Andréia Vital

A instabilidade geopolítica e a volatilidade do mercado internacional de petróleo recolocaram os biocombustíveis no centro das discussões sobre segurança energética. Esse foi um dos principais temas da abertura da 10ª edição da DATAGRO Abertura de Safra Cana Açúcar e Etanol, realizada nesta quarta-feira (11), com continuidade nesta hoje (12), em Ribeirão Preto - SP, que reúne representantes da cadeia sucroenergética para discutir as perspectivas da safra 2026/27 da região Centro-Sul.

Na avaliação do presidente da DATAGRO, Plinio Nastari, o cenário internacional marcado por conflitos regionais e incertezas no abastecimento de petróleo reforça o papel estratégico do etanol na matriz energética brasileira. “O momento atual traz insegurança em relação ao abastecimento mundial de petróleo e derivados, com reflexos também na cadeia de fertilizantes nitrogenados”, afirmou.

Segundo Nastari, o crescimento da produção de etanol no Brasil tem ampliado a contribuição dos biocombustíveis para a segurança energética. Nos últimos cinco anos, a oferta nacional do combustível produzido a partir de cana e milho aumentou cerca de 10 bilhões de litros.

No caso do açúcar, o executivo destacou que o mercado inicia o novo ciclo com preços internacionais pressionados. Mesmo assim, ele observou que o Brasil manteve produção relativamente estável, próxima de 40 milhões de toneladas nos últimos três anos, o que indica que o movimento de queda nas cotações não está ligado a um aumento recente da oferta brasileira.

Durante a cerimônia de abertura, o deputado federal Arnaldo Jardim destacou que o agronegócio brasileiro se diferencia por integrar a produção de alimentos e energia renovável. Para ele, a atual conjuntura internacional reforça a necessidade de ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética.

O parlamentar defendeu o avanço das políticas de mistura de etanol na gasolina e de biodiesel no diesel. A posição foi apoiada pelo presidente da Siamig Bioenergia e da Bioenergia Brasil, Mário Campos Filho, que afirmou que o setor trabalha para acelerar a ampliação desses percentuais.

Jardim também mencionou o potencial do etanol como matéria-prima para novos combustíveis sustentáveis, como o combustível de aviação sustentável e alternativas para transporte marítimo.

Além das discussões institucionais, a programação do primeiro dia trouxe análises sobre o cenário internacional do açúcar. Em painel que reuniu representantes de tradings, especialistas avaliaram os efeitos de mudanças regulatórias e comerciais no fluxo global da commodity.

 

Entre os fatores analisados está a evolução do programa de etanol da Índia. O país tem ampliado rapidamente a mistura do biocombustível nos combustíveis, o que tende a reduzir o volume de açúcar destinado ao mercado internacional e pode alterar o equilíbrio global entre oferta e demanda.

Outro ponto debatido foi a perspectiva para a Tailândia, importante exportador mundial. A expectativa de uma safra menor no país asiático pode contribuir para limitar a pressão sobre os preços internacionais nos próximos meses.

Mudanças nas políticas comerciais, especialmente na América do Norte, também estiveram no centro das discussões. De acordo com analistas do mercado, a adoção de tarifas e ajustes regulatórios tem aumentado a incerteza para exportadores e exigido maior diversificação de mercados.

A agenda do evento também abordou a transformação do setor sucroenergético em outros países da América Latina. Representantes da região destacaram que as usinas vêm ampliando o portfólio de produtos derivados da cana-de-açúcar, com maior presença de etanol, bioeletricidade, biofertilizantes e materiais de base renovável.

Outro tema em destaque foi a expansão do etanol de milho no Brasil. Segundo o economista sênior da DATAGRO, Bruno Wanderley de Freitas, a indústria do biocombustível a partir do grão vem alterando a dinâmica do mercado doméstico de milho ao ampliar as possibilidades de agregação de valor.

Além do combustível, a produção gera coprodutos utilizados na alimentação animal, na indústria de óleos vegetais e na geração de créditos de descarbonização, consolidando o modelo de biorrefinaria. Atualmente, o etanol de milho já responde por cerca de um quarto da oferta nacional do biocombustível.

“O evento já se consolidou no calendário do setor em Ribeirão Preto. Aqui reunimos especialistas para discutir estratégia, o futuro do setor e como as externalidades que ocorrem no mundo impactam as nossas safras.” A afirmação é de Luiz Felipe Nastari, diretor da DATAGRO, ao comentar a décima edição da DATAGRO Abertura de Safra Cana Açúcar e Etanol.

Nastari também destacou a presença da Arena de Fogo do Global Agribusiness Festival na programação do evento. A iniciativa leva ao encontro uma experiência inspirada no GAFFFF que integra gastronomia e cultura à agenda da conferência.

A expectativa da organização é reunir mais de duas mil pessoas ao longo dos dois dias, com a participação de representantes de usinas, produtores, tradings, consultorias e instituições do agronegócio para discutir tendências da nova temporada da cana-de-açúcar na região Centro-Sul.

Confira: