Gerdau cobra medidas antidumping e apoio ao agro
08-05-2026

CEO defende previsibilidade diante de juros e aço chinês

Andréia Vital

Juros elevados, restrição de crédito, aumento do endividamento rural e eventos climáticos extremos estão entre os principais desafios enfrentados pelo agronegócio brasileiro na avaliação do CEO global da Gerdau, Gustavo Werneck. Durante coletiva na Agrishow 2026, em Ribeirão Preto – SP, o executivo defendeu políticas públicas voltadas à previsibilidade econômica, gestão de riscos e defesa da indústria nacional diante do avanço do aço importado da China.

O ambiente global passou a exigir das empresas uma gestão mais complexa diante da volatilidade econômica e geopolítica. “O mundo mudou muito. Quando esse conflito terminar, outros virão”, afirmou Werneck, ao comentar os impactos das tensões internacionais sobre custos industriais, energia e cadeias de suprimentos. A alta do petróleo, segundo ele, já pressiona o custo do carvão e de insumos utilizados pela indústria, gerando pedidos frequentes de reajustes por fornecedores.

Na avaliação do CEO, o agronegócio brasileiro segue competitivo em produtividade, mecanização e tecnologia, mas enfrenta dificuldades relacionadas à infraestrutura, logística, crédito e previsibilidade econômica. “O agricultor brasileiro bate recordes sucessivos de produção. Na hora que a produção sai da fazenda, começam problemas que não estão na mão do agricultor”, disse.

Para Werneck, o produtor rural não consegue absorver sozinho riscos ligados ao clima e às oscilações econômicas, o que exige soluções mais estruturadas em seguro rural, financiamento e políticas públicas de longo prazo. O executivo afirmou ainda que o atual cenário de juros elevados e dificuldade de acesso ao crédito reduz a capacidade de investimento do setor e aumenta a insegurança sobre os próximos ciclos agrícolas.

O agronegócio responde por cerca de 10% dos negócios da Gerdau, enquanto o segmento sucroenergético representa entre 15% e 20% das operações ligadas ao agro dentro da companhia. A empresa fornece desde arames e cercas até aços especiais utilizados em caminhões, tratores, colheitadeiras e máquinas agrícolas.

Durante a Agrishow, a companhia apresentou soluções voltadas à cadeia agroindustrial, incluindo aplicações para equipamentos, implementos e estruturas utilizadas no campo. A Gerdau também destacou a linha Gerdau NewEco, composta por aços de baixa emissão de carbono produzidos a partir de sucata ferrosa e energia elétrica proveniente de fontes renováveis. Atualmente, cerca de 70% do aço produzido pela companhia utiliza sucata como matéria-prima.

No primeiro trimestre de 2026, a empresa investiu R$ 1,1 bilhão, sendo 57% destinados a projetos de expansão e atualização tecnológica. Entre os investimentos recentes está a inauguração de um parque solar em Barro Alto – GO. A companhia encerrou o período com Ebitda ajustado de R$ 3 bilhões, sendo 75% do resultado provenientes das operações na América do Norte. A receita líquida somou R$ 16,7 bilhões no trimestre.

Outro ponto destacado na coletiva foi o avanço do aço importado da China no mercado brasileiro. Mais de 25% do aço consumido atualmente no país vem do exterior, em um cenário classificado pela companhia como concorrência desleal. “O aço chega ao Brasil, em alguns casos, mais barato do que o próprio minério exportado daqui para a China”, afirmou Werneck.

A expectativa da Gerdau é que o governo federal avance, em julho, com medidas antidumping para conter importações consideradas desleais. O CEO afirmou que a empresa mantém diálogo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e defendeu mecanismos que garantam condições mais equilibradas de competição para a indústria brasileira.

A desaceleração do mercado de veículos pesados também afeta diretamente a operação da companhia no Brasil. A planta de aços especiais de Pindamonhangaba – SP, voltada ao fornecimento para caminhões e máquinas agrícolas, opera atualmente com baixa utilização da capacidade instalada por falta de demanda.

Apesar disso, Werneck avaliou que a Agrishow trouxe sinais moderados de retomada do setor e ajudou a ampliar o contato com clientes e fabricantes ligados ao agronegócio. “Aqui se conversa o tempo todo sobre negócios. A feira cria um otimismo coletivo importante”, afirmou.

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