Gestão da Cadeia de Suprimentos da Cana-de-Açúcar: desafios e caminhos para o setor sucroenergético brasileiro
19-01-2026
A cana-de-açúcar ocupa um papel central na economia agroindustrial brasileira. Muito além da produção de açúcar e etanol, ela sustenta cadeias produtivas complexas, gera milhões de empregos e influencia diretamente a segurança energética e alimentar do país. No entanto, garantir eficiência, sustentabilidade e previsibilidade ao longo dessa cadeia segue sendo um dos grandes desafios do setor.
Por Marcelo Matos
A cadeia de suprimentos da cana envolve uma articulação intensa entre produtores rurais, empresas de colheita, transportadores, usinas e mercados consumidores. Qualquer falha de coordenação entre esses elos pode resultar em perdas econômicas, redução da qualidade da matéria-prima e impactos ambientais relevantes. Estudos recentes sobre gestão da cadeia da cana destacam que os desafios vão muito além do campo, abrangendo logística, precificação, tecnologia, sustentabilidade e políticas públicas.
Sazonalidade e variabilidade climática
Um dos principais desafios da cadeia da cana-de-açúcar é a forte dependência das condições climáticas. A produção é naturalmente sazonal e altamente sensível a períodos de seca, excesso de chuvas e eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes no Brasil. Essa variabilidade afeta o planejamento da colheita, a capacidade industrial das usinas e a logística de transporte, especialmente durante os picos da safra.
Além disso, a concentração da moagem em determinados períodos do ano pressiona estradas, frotas e estruturas de armazenagem, exigindo maior capacidade de coordenação entre os agentes da cadeia.
Qualidade da matéria-prima
A qualidade da cana entregue à usina é determinante para a eficiência industrial e para o rendimento em açúcar e etanol. Fatores como tempo entre corte e moagem, métodos de colheita, transporte inadequado e armazenamento precário impactam diretamente o teor de sacarose e elevam perdas operacionais.
Boas práticas agrícolas, colheita no momento adequado, logística eficiente e controle rigoroso na recepção da cana são elementos-chave para manter padrões de qualidade e competitividade no mercado.
Compra da cana e formação de preços
A relação entre fornecedores de cana e usinas ainda é um ponto sensível da cadeia. Modelos de precificação, contratos de fornecimento, mecanismos de remuneração pela qualidade e políticas de preços mínimos influenciam diretamente a sustentabilidade econômica dos produtores.
Oscilações de mercado, mudanças regulatórias e variações nos preços internacionais do açúcar e do etanol tornam o planejamento financeiro mais complexo, tanto para agricultores quanto para a indústria. A transparência nos contratos e o uso de instrumentos de mitigação de riscos são cada vez mais necessários para equilibrar essa relação.
Logística e transporte
A logística da cana-de-açúcar é um dos maiores gargalos da cadeia. O transporte da matéria-prima precisa ser rápido, contínuo e eficiente, já que a cana perde qualidade rapidamente após o corte. Problemas de infraestrutura viária, longas distâncias entre campo e usina e custos elevados de transporte impactam diretamente a rentabilidade do setor.
O uso de tecnologias de rastreamento, roteirização inteligente e melhor integração entre colheita e transporte tem se mostrado fundamental para reduzir perdas e custos logísticos.
Sustentabilidade e responsabilidade ambiental
A pressão por práticas mais sustentáveis é crescente. Questões relacionadas ao uso da água, conservação do solo, redução de emissões de gases de efeito estufa, manejo de resíduos e condições de trabalho estão no centro das discussões do setor sucroenergético.
A adoção de práticas agrícolas sustentáveis, economia circular, reaproveitamento de subprodutos (como vinhaça e bagaço) e certificações ambientais são caminhos importantes para garantir a perenidade da cadeia e o acesso a mercados mais exigentes.
Coordenação entre os elos da cadeia
Apesar de funcionar como um sistema integrado, a cadeia da cana ainda enfrenta dificuldades de coordenação entre produtores, usinas, transportadores e distribuidores. A falta de compartilhamento de informações, planejamento fragmentado e decisões isoladas reduzem a eficiência global do sistema.
Modelos colaborativos, uso de plataformas digitais, integração de dados e planejamento conjunto têm potencial para aumentar a produtividade, reduzir desperdícios e fortalecer a competitividade do setor.
Tecnologia como aliada da eficiência
A transformação digital tem aberto novas possibilidades para a cadeia da cana-de-açúcar. Tecnologias como agricultura de precisão, sensores no campo, aplicativos para produtores, sistemas de gestão integrada, análise de dados e rastreabilidade estão cada vez mais presentes.
Quando bem implementadas, essas soluções aumentam a previsibilidade, melhoram a tomada de decisão e tornam a cadeia mais resiliente frente às incertezas climáticas e de mercado.
O papel das políticas públicas
Políticas públicas continuam sendo fundamentais para o equilíbrio do setor. Incentivos à inovação, investimentos em infraestrutura, linhas de crédito, políticas de preços e apoio à pesquisa e extensão rural contribuem diretamente para a competitividade e sustentabilidade da cadeia sucroenergética brasileira.
A articulação entre governo, setor produtivo e instituições de pesquisa é decisiva para enfrentar desafios estruturais e promover um desenvolvimento mais equilibrado.
Conclusão
A cadeia de suprimentos da cana-de-açúcar no Brasil é estratégica, complexa e cheia de desafios. No entanto, esses desafios também representam oportunidades. Investir em tecnologia, fortalecer a coordenação entre os elos da cadeia, adotar práticas sustentáveis e aprimorar os modelos de gestão são caminhos essenciais para garantir eficiência, competitividade e longevidade ao setor sucroenergético.
Em um cenário de mudanças climáticas, pressão por sustentabilidade e mercados cada vez mais exigentes, a gestão integrada da cadeia da cana deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser uma condição de sobrevivência para o setor.
Marcelo Matos é pesquisador em Administração com foco em aprendizagem e performance organizacional, e possui mais de 15 anos de experiência no agronegócio.

